| By DALL-E |
Pesquisas mostram que a adversidade na infância aumenta a vulnerabilidade das mulheres a transtornos de humor relacionados ao ciclo reprodutivo, como depressão perinatal e perimenopausal. No entanto, há menos conhecimento sobre seu papel no Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM), que envolve sintomas psíquicos e somáticos cíclicos durante a fase lútea do ciclo menstrual. Diferente da Síndrome Pré-Menstrual (SPM), o TDPM é considerado um diagnóstico separado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Quinta Edição (DSM-5) e na Classificação Internacional de Doenças, Décima Primeira Revisão (CID-11), refletindo uma etiologia multifatorial que inclui fatores psicossociais e neuroendócrinos (NAYMAN et al., 2023).
Mulheres com TDPM apresentam níveis habituais de esteroides ovarianos, mas maior sensibilidade do sistema nervoso central às flutuações hormonais. Além disso, há evidências de função alterada do eixo HHA em mulheres com TDPM, como níveis mais baixos de cortisol basal e reatividade ao estresse. Pesquisas anteriores mostraram variação na atividade do cortisol ao longo do ciclo menstrual em mulheres saudáveis, mas não em mulheres com TDPM, sugerindo que o estresse crônico e a disfunção do eixo HHA relacionados à adversidade na infância poderiam contribuir para a gravidade dos sintomas do transtorno.
Segundo Nayman et al. (2023), duas metanálises anteriores revelaram variações na atividade do cortisol relacionadas ao ciclo menstrual em mulheres saudáveis, com níveis mais baixos de cortisol durante a fase lútea em comparação com a fase folicular. Em consonância com essas metanálises, o grupo de Nayman e colaboradores observou a variação cíclica do cortisol relacionada ao ciclo menstrual em mulheres saudáveis, mas não em mulheres com TDPM. Considerando que os níveis cíclicos de esteroides ovarianos e seus metabólitos interagem com o eixo HHA, um histórico de estresse crônico e disfunção do eixo HHA relacionada à adversidade poderia, consequentemente, contribuir para a etiologia e manutenção do TDPM e aumentar a gravidade dos sintomas pré-menstruais.
A adversidade na infância tem sido associada a sintomas pré-menstruais mais intensos na vida adulta, sendo comum entre mulheres com TDPM. A maioria das pesquisas focou nos efeitos de eventos traumáticos em qualquer estágio da vida, sem diferenciar entre adversidade na infância e na idade adulta. A pesquisa Childhood adversity predicts stronger premenstrual mood worsening, stress appraisal and cortisol decrease in women with Premenstrual Dysphoric Disorder, realizada por Sibel Nayman, Isabelle Florence Schricker, Iris Reinhard e Christine Kuehner, foi conduzida no Research Group Longitudinal and Intervention Research, do Departamento de Psiquiatria e Psicoterapia, no Central Institute of Mental Health, Faculdade de Medicina de Mannheim, Universidade de Heidelberg, na Alemanha, e publicada na revista Frontiers in Endocrinology em 2023. Todas as informações desta publicação do Blog são baseadas nesse importante artigo.
O foco do estudo foi direcionado para as adversidades na infância, controlando eventos estressantes recentes, para investigar seus efeitos no humor, avaliação de estresse e atividade do cortisol em mulheres com TDPM. Este estudo, parte de um projeto maior, incluiu duas ondas de medição com intervalo de cinco meses e recrutou participantes através de anúncios online e redes sociais. As mulheres deveriam atender aos critérios diagnósticos do DSM-5 para TDPM, conforme avaliado pela Entrevista Estruturada para TDPM (SCID-PMDD).
O estudo usou várias ferramentas de avaliação, incluindo o Questionário de Trauma na Infância (CTQ), para medir adversidade na infância, a Escala PANAS (Positive and Negative Affect Schedule), uma ferramenta amplamente utilizada na psicologia para medir os afetos positivos e negativos de uma pessoa, e a Ferramenta de Triagem de Sintomas Pré-Menstruais (PSST) para avaliar sintomas pré-menstruais. As participantes realizaram Avaliação Ambulatorial (AA) em smartphones durante fases específicas do ciclo menstrual e coletaram amostras de saliva para medir o cortisol.
Os resultados mostraram que a adversidade na infância moderou os efeitos da fase do ciclo em todos os desfechos momentâneos, com mulheres com maior adversidade na infância apresentando menor atividade basal do cortisol durante a fase lútea tardia em comparação com a fase folicular. Mulheres com maior adversidade também relataram piora do humor e aumento da avaliação de estresse na fase lútea tardia.
Pesquisas sobre adversidade na infância indicam que essa experiência está associada a um aumento de afetos negativos, redução de afetos positivos e maior estresse percebido na vida diária de adultos sem transtornos clínicos, além de estar ligada ao desenvolvimento de várias formas de psicopatologia. Em diversos contextos, os pesquisadores identificaram efeitos principais da adversidade na infância nos resultados mencionados. No entanto, no presente estudo, a adversidade na infância não apresentou efeitos principais no humor e na avaliação do estresse ao longo de todo o ciclo menstrual. Em contraste, os resultados sugerem que a adversidade na infância impacta especificamente a variação cíclica das experiências diárias em mulheres com TDPM. Como hipotetizado, a adversidade na infância foi associada a um aumento mais acentuado dos afetos negativos e uma diminuição mais forte dos afetos positivos da fase folicular para a fase lútea tardia. Esses achados estão em consonância com evidências iniciais de que traumas ao longo da vida e eventos estressantes recentes aumentam a gravidade dos sintomas pré-menstruais em mulheres com SPM severa e TDPM, indicando que a adversidade na infância representa um fator de risco para manifestações clínicas graves do TDPM. Os pesquisadores também demonstraram que o aumento pré-menstrual na avaliação diária do estresse é particularmente forte em mulheres com maior adversidade na infância. Assim, a adversidade na infância parece tornar as mulheres com TDPM ainda mais sensíveis ao estresse diário, especialmente durante a vulnerável fase lútea tardia.
Portanto, segundo os resultados deste estudo, os traumas na infância parecem aumentar o risco de deteriorações afetivas e cognitivas pré-menstruais e vulnerabilidades neuroendocrinológicas, o que pode prever um curso clínico pior e uma resposta ao tratamento mais fraca, como observado em outros transtornos psiquiátricos. Por isso, o impacto potencial da adversidade na infância no curso clínico do TDPM precisa ser considerado em pesquisas futuras. Na pesquisa em psicoterapia, deve-se considerar as possíveis desregulações afetivas e cognitivas relacionadas à adversidade precoce. A adversidade na infância está associada a uma maior tendência de "ruminação" na idade adulta, o que por sua vez está ligado a piores desfechos clínicos.
Em psicopatologia, conforme mencionado nesse estudo, "ruminação" refere-se a um padrão de pensamento repetitivo e passivo, no qual a pessoa fica focada em seus próprios sentimentos de angústia e nas possíveis causas e consequências desses sentimentos, sem buscar soluções ativas para seus problemas. No contexto do TDPM, a ruminação pode intensificar os sintomas emocionais negativos durante a fase lútea do ciclo menstrual, contribuindo para um agravamento do humor. Mulheres com TDPM tendem a apresentar uma maior tendência à ruminação, o que está associado a desfechos clínicos piores e maior severidade dos sintomas pré-menstruais.
REFERÊNCIA
Nayman S, Schricker IF, Reinhard I, Kuehner C. Childhood adversity predicts stronger premenstrual mood worsening, stress appraisal and cortisol decrease in women with Premenstrual Dysphoric Disorder. Front Endocrinol (Lausanne). 2023;14:1024651. doi: 10.3389/fendo.2023.1024651.
Por Décio Gilberto Natrielli Filho
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