quarta-feira, 26 de junho de 2024

Impacto dos Anabolizantes na Saúde Mental


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Nesta publicação, decidi explorar um estudo importante que avaliou a psicopatologia em indivíduos que utilizam anabolizantes e praticam treinamento de resistência. Como é comum em pesquisas psiquiátricas, este estudo apresentou algumas limitações; no entanto, seus resultados destacaram a necessidade de uma atenção especializada para esta população. O impacto dos anabolizantes e da testosterona no comportamento humano tem sido objeto de estudo há muitos anos, reforçando a importância de compreender essas influências de forma mais detalhada.

O estudo intitulado Clustering Psychopathology in Male Anabolic-Androgenic Steroid Users and Nonusing Weightlifters foi conduzido por Marie Lindvik Jørstad, Morgan Scarth, Svenn Torgersen, Harrison Graham Pope e Astrid Bjørnebekk. Esta pesquisa foi realizada no Hospital Universitário de Oslo, Noruega, e no Hospital McLean em Belmont, Massachusetts, EUA. Os resultados foram publicados na revista Brain and Behavior em 2023.

Os esteroides anabolizantes androgênicos (EAA) são uma família de drogas que inclui o hormônio masculino testosterona, juntamente com centenas de análogos sintéticos de testosterona. Os EAA são mais conhecidos pelo uso entre atletas profissionais e recreativos devido aos seus efeitos de "construção" muscular. Estimativas de prevalência sugerem que cerca de 3-6% dos jovens em países ocidentais já usaram EAA, geralmente em doses suprafisiológicas, aumentando assim o risco de efeitos colaterais potenciais. Esses efeitos variam desde acne, distúrbios do sono e ginecomastia até complicações mais sérias, como efeitos cardiovasculares, hipogonadismo prolongado, desempenho cognitivo inferior e anormalidades estruturais e funcionais no cérebro.

Além disso, muitos usuários de EAA sofrem de uma variedade de transtornos psiquiátricos. Segundo os autores da pesquisa, estudos sugerem uma maior prevalência de psicopatologias da personalidade, como transtorno da personalidade antissocial, histriônico e borderline, em usuários de EAA em comparação com não usuários. Vários estudos também relataram uma prevalência elevada de ansiedade, paranoia, depressão, irritabilidade, agressividade, hostilidade, violência e distúrbios de imagem corporal entre os usuários de EAA. Uma minoria dos usuários desenvolve mania e/ou hipomania, ocasionalmente associadas a sintomas psicóticos durante o uso, e depressão maior, frequentemente associada a ideação suicida, principalmente durante a retirada dos EAA.

No entanto, a maioria dos estudos sobre as associações entre o uso de EAA e a psicopatologia encontra que a maioria dos usuários de EAA apresenta efeitos psiquiátricos mínimos, enquanto uma minoria exibe psicopatologia mais severa. Além disso, a maioria dos estudos tem focado em diagnósticos psiquiátricos individuais em vez de comorbidades, o que pode não capturar totalmente a natureza complexa e sobreposta da psicopatologia entre os usuários.

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Um total de 118 usuários atuais ou antigos de esteroides anabolizantes androgênicos e um grupo comparativo de 97 levantadores de peso masculinos que não utilizam essas substâncias completaram o Inventário Clínico Multiaxial de Millon-III (MCMI-III). Esta pesquisa fez parte de um estudo longitudinal que visava investigar os efeitos cerebrais, médicos e psiquiátricos do uso prolongado de EAA. As coletas de dados ocorreram em dois períodos distintos, de 2013 a 2015 e de 2017 a 2019, com os participantes sendo recrutados através de cartazes e panfletos em academias selecionadas de Oslo, assim como por meio de fóruns online e sites que abordavam treinamento de resistência intensa e/ou uso de EAA.

O MCMI-III é um inventário autoaplicável que contém 175 itens de resposta verdadeiro ou falso, desenvolvido para avaliar transtornos da personalidade e identificar síndromes existentes. O instrumento é composto por uma escala de validade, três escalas para detectar viés de resposta, 14 escalas de transtornos da personalidade e 10 escalas de síndromes clínicas. Essas escalas são alinhadas com as classificações dos Eixos I e II conforme estabelecido no antigo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 4ª edição, da Associação Americana de Psiquiatria. Um escore de 75 ou superior em qualquer escala sugere a presença marcada de um traço ou síndrome.

Para complementar a aplicação do MCMI-III, os pesquisadores também conduziram uma entrevista semiestruturada especialmente desenhada para o estudo. Esta entrevista cobriu uma ampla gama de tópicos, incluindo dados demográficos, histórico de treinamento com pesos, informações de saúde e histórico de uso de medicamentos prescritos. Adicionalmente, foram detalhadas as características e o histórico de uso de EAA pelos participantes, abordando aspectos como a idade no início do uso, doses semanais estimadas em miligramas, anos de utilização e se o uso era atual ou anterior. 

Os resultados mostraram que, apesar de não haver diferença significativa na idade entre os grupos, os levantadores de peso que não usavam EAA tinham, em média, cerca de dois anos a mais de educação. Os não usuários relataram significativamente mais horas de treinamento por semana, mas os usuários de EAA mostraram maior força, conforme esperado devido às propriedades anabólicas dos esteroides. O uso de medicamentos prescritos foi consideravelmente mais comum entre os usuários de EAA, com 38% reportando tal uso. A idade média de início do uso de EAA foi de 22,6 anos, com uma duração média de uso acumulado na vida de 10,6 anos, e as doses semanais foram categorizadas em baixas, médias e altas.

Na avaliação realizada pelo MCMI-III, os usuários de EAA apresentaram pontuações significativamente mais altas que os não usuários em todas as escalas, exceto na escala de transtorno da personalidade narcisista. As diferenças mais notáveis foram observadas nas escalas de transtornos da personalidade antissocial, agressivo, passivo-agressivo, autodestrutivo, evitativo, depressivo e esquizotípico. Além disso, as escalas de dependência de drogas e álcool mostraram as maiores discrepâncias entre os grupos. Esses achados foram corroborados pelo número de indivíduos que pontuaram acima do limite clínico, sugerindo uma prevalência elevada de vários transtornos entre os usuários de EAA.

A análise de cluster revelou características distintas e clinicamente relevantes nos grupos estudados. Identificaram-se quatro clusters principais: o primeiro, sem psicopatologia, caracterizado por pontuações baixas em todas as escalas, exceto na narcisista; o segundo, com psicopatologia externalizante leve, mostrou pontuações moderadamente altas nas escalas de personalidade narcisista, antissocial e sádica, juntamente com dependência de drogas; o terceiro, com "multipatologia" severa, apresentou pontuações clínicas em várias escalas, destacando-se depressão, negativismo e dependência, com a maioria dos indivíduos pontuando acima do limite clínico; e o quarto cluster, com "multipatologia" leve, evidenciou alta pontuação na escala de personalidade depressiva e pontuações moderadamente altas em outras escalas de personalidade e síndromes. Os levantadores de peso não usuários tendiam a cair no cluster sem psicopatologia, enquanto os usuários de EAA estavam quase exclusivamente no cluster de multipatologia severa.

A análise dos clusters revelou que participantes do cluster 1 (sem psicopatologia) possuíam significativamente mais anos de educação em comparação aos outros grupos. Além disso, os participantes do cluster 3 ("multipatologia" severa) começaram a usar EAA em uma idade significativamente mais jovem, com média de 18,18 anos, em comparação com os grupos 1 e 2. Apesar dessas diferenças, não foram encontradas outras diferenças estatisticamente significativas entre os grupos em relação à idade, anos totais de uso ou estimativa da dose semanal. 

Quase um terço da amostra de usuários de EAA apresentou escores elevados nas escalas de personalidade depressiva e/ou síndrome de ansiedade, especialmente nos dois clusters de "multipatologia". Esse resultado é consistente com estudos anteriores que documentaram transtornos de ansiedade e humor entre os usuários de EAA. Estudos de acompanhamento de longo prazo indicaram que ex-usuários de EAA muitas vezes procuravam ajuda profissional para problemas mentais, como depressão e ansiedade, mais frequentemente do que atletas sem histórico de exposição a anabolizantes. A presença de transtornos da personalidade aumenta o risco de suicídio ou ideação suicida entre os usuários de EAA.

Os achados mais pronunciados deste estudo foram os altos escores em transtorno da personalidade antissocial entre os usuários de anabolizantes, sugerindo que traços antissociais podem ser um mediador importante na relação entre uso de EAA, agressão e violência. Além do transtorno da personalidade antissocial, as escalas de transtorno da personalidade sádica e borderline mostraram diferenças significativas entre usuários de EAA e controles, alinhando-se com estudos anteriores sobre usuários masculinos e femininos de EAA. Percebe-se um perfil similar em indivíduos com transtornos relacionados ao uso de substâncias, indicando uma sobreposição de fatores de personalidade entre usuários de anabolizantes e outras substâncias ilícitas.

Uma grande proporção de usuários de anabolizantes exibiu múltiplas áreas de psicopatologia, com cerca de metade se encaixando em clusters de "multipatologia". Essa observação é congruente com a descrição de um fator de "psicopatologia geral" e sugere que transtornos graves tendem a ser comórbidos. A polifarmácia é comum entre os usuários de EAA, e os dados indicam que 14,4% apresentaram uso problemático de substâncias, especialmente no cluster de "multipatologia" severa. Esse achado é importante para compreender a complexa direção da causalidade que reflete a combinação de predisposição genética, influências ambientais e efeitos da exposição a drogas.

Os resultados desta pesquisa enfatizam a importância crítica de uma abordagem focada na saúde mental para os usuários de esteroides anabolizantes androgênicos, revelando uma psicopatologia de personalidade profundamente complexa que exige intervenções direcionadas e especializadas. Essa necessidade ressalta a urgência de desenvolver estratégias terapêuticas adaptadas que não apenas abordem os sintomas psíquicos, mas também considerem as intrincadas interações entre uso de substâncias e traços de personalidade, visando um tratamento mais eficaz e humanizado.

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REFERÊNCIA

Jørstad ML, Scarth M, Torgersen S, Pope HG, Bjørnebekk A. Clustering psychopathology in male anabolic–androgenic steroid users and nonusing weightlifters. Brain Behav. 2023 Apr 20. doi: 10.1002/brb3.3040.


Por Décio Gilberto Natrielli Filho

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