segunda-feira, 23 de outubro de 2023

A Neurociência das Psicoterapias

  Blog Desvendando a Personalidade

A Neurociência e Neurobiologia do Desenvolvimento Humano

Fonte: https://hinjawadi.rubyhall.com/what-is-neuroplasticity/

Conforme afirmou o neurocientista e ganhador do Prêmio Nobel Eric Kandel, a psicoterapia pode exercer a influência mais profunda no sistema de crenças, estado emocional e comportamento de uma pessoa. Portanto, talvez não seja surpreendente que também possa levar a mudanças significativas na estrutura e função do cérebro.

Fatores socioculturais, desenvolvimento, aquisição de conhecimento e pressões psicológicas têm a capacidade de influenciar o cérebro e modificar a expressão gênica, resultando, portanto, em alterações nos padrões de conexões neurais. Um conceito crucial que se mostra relevante para elucidar a ligação entre elementos socioculturais, aprendizagem e o cérebro é o de plasticidade cerebral (ou neuroplasticidade). A plasticidade cerebral pode ser definida como a aptidão do cérebro para se reconfigurar e se ajustar em resposta às sucessivas interações e desafios impostos pelo ambiente e pela vivência. O escopo da plasticidade cerebral é abrangente, abarcando desde modificações no comportamento e na aquisição de conhecimento no nível mais alto da hierarquia até níveis mais básicos, como o enfraquecimento ou fortalecimento das sinapses (conexões entre neurônios) e até mesmo a neurogênese (a formação de novos neurônios) (MENDES et al., 2019).

A influência exercida pela psicoterapia sobre o cérebro tem sido extensivamente examinada por abordagens psicológicas e sociológicas, como, por exemplo, por meio da avaliação de indicadores clínicos ou da análise do funcionamento social. Contudo, na atualidade, é viável investigar os efeitos da psicoterapia usando também técnicas de neuroimagem. Um mecanismo envolvido nesse processo é a plasticidade sináptica, que pode ser caracterizada como o fortalecimento ou enfraquecimento de uma sinapse, dependendo de sua atividade (MENDES et al., 2019).

Devido à sua eficácia na indução de mudanças significativas no comportamento humano, a psicoterapia poderia promover essas transformações por meio de modificações na expressão gênica. Por exemplo, à semelhança do impacto causado por experiências de negligência na infância na modificação da expressão genética dos receptores de glicocorticoide no cérebro, um estudo recente que examinou as alterações na expressão genética em células sanguíneas antes e depois de uma terapia de exposição prolongada em pacientes com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) revelou que, após o tratamento, ocorreu uma modificação na expressão do gene FKBP5, que direciona a produção de uma proteína envolvida na transmissão de sinais intracelulares dos receptores de glicocorticoide. Essa mudança se associou a melhorias clínicas e fornece indícios do impacto da psicoterapia na regulação da expressão gênica nos transtornos mentais (um fenômeno estudado pela epigenética) (MENDES et al., 2019).

O Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) tem sido associado a um hipermetabolismo no córtex orbitofrontal, no giro do cíngulo anterior e na cabeça do núcleo caudado, e até o momento, um grande número de estudos examinou o impacto da psicoterapia na função cerebral em pacientes com o transtorno. Apesar de inconsistências nos resultados, possivelmente devido à utilização de diferentes técnicas de neuroimagem, abordagens psicoterapêuticas e/ou desenhos experimentais, aproximadamente metade dos estudos sugere que o tratamento psicológico do TOC resulta em uma "normalização" do padrão de ativação, especialmente no núcleo caudado, e que esse efeito é mais evidente naqueles pacientes que demonstram uma boa resposta ao tratamento. Além disso, os resultados de estudos que compararam os efeitos da psicoterapia com os da medicação sugerem que os efeitos desses dois tipos de tratamento são qualitativamente comparáveis (BARSAGLINI et al., 2014).

O Transtorno do Pânico (TP) tem sido tradicionalmente associado a alterações neurofuncionais na "rede do medo" (do inglês, "fear network"), envolvendo tanto estruturas límbicas quanto corticais. Por exemplo, estudos que investigaram pacientes com TP em repouso identificaram uma redução específica de substância cinzenta no giro parahipocampal, além de uma diminuição da ativação funcional em regiões frontais, temporais e parietais. Em contraste, estudos que investigaram o TP durante a administração de agentes que provocam ataques de pânico consistentemente relataram um aumento na ativação no córtex insular. Os resultados fornecem evidências de que, após intervenção psicoterápica, o alívio dos sintomas no TP está associado a uma reorganização funcional dentro de uma rede distribuída que inclui, entre outras, regiões límbicas e pré-frontais (BARSAGLINI et al., 2014).

Estudos de neuroimagem funcional em pacientes com depressão maior têm consistentemente relatado um metabolismo reduzido em regiões frontais e temporais, no córtex insular e nos gânglios basais. Esses estudos também forneceram evidências iniciais de que o metabolismo do hipocampo está associado à gravidade da depressão. Em contraste com estudos que investigaram a base neurobiológica da depressão, os resultados de estudos que examinaram especificamente as mudanças neurobiológicas da psicoterapia em indivíduos com depressão têm produzido resultados inconsistentes. Mesmo assim, a maioria dos resultados sugere que o tratamento psicoterápico de pacientes com depressão unipolar resulta também em uma "normalização" do padrão de ativação nas circuitarias fronto-límbicas. Com relação aos efeitos da psicoterapia e da medicação, seus mecanismos parecem divergentes com base nos resultados de dois estudos independentes. Para explicar esses diferentes mecanismos de ação, sugere-se que, enquanto a psicoterapia exerceria seus efeitos por mecanismos "top-down", direcionando principalmente as regiões corticais frontais e reduzindo processos de pensamento disfuncionais, a psicofarmacoterapia poderia produzir mudanças através de processos "bottom-up", desvinculando regiões ventrais e límbicas que medeiam a atenção a estímulos emocionais e ambientais pessoalmente relevantes (BARSAGLINI et al., 2014).

Estudos de neuroimagem funcional do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) relataram aumento da ativação da amígdala e diminuição da ativação no córtex pré-frontal medial em uma variedade de paradigmas experimentais. Em contraste, a detecção de alterações neurofuncionais no hipocampo tem sido menos consistente. A maioria dos estudos revisados indica uma atividade anormal que é evidente antes do tratamento no córtex frontal e na amígdala, enquanto os efeitos do tratamento parecem afetar especificamente a atividade em regiões frontais e temporais. No entanto, nenhum dos estudos sobre o TEPT comparou os efeitos da intervenção psicológica com os da medicação (BARSAGLINI et al., 2014).

A influência das psicoterapias na neuroplasticidade é um campo fascinante e em constante evolução da pesquisa em neurociência, psiquiatria e psicologia. A capacidade do cérebro de se adaptar e reorganizar em resposta a intervenções terapêuticas é um campo que deve ser cada vez mais explorado. As psicoterapias têm um enorme potencial de remodelar as conexões neurais, promovendo a resiliência emocional, o bem-estar mental e a recuperação de uma variedade de condições psicológicas e transtornos mentais.


REFERÊNCIAS

Barsaglini A, Sartori G, Benetti S, Pettersson-Yeo W, Mechelli A. The effects of psychotherapy on brain function: A systematic and critical review. Prog Neurobiol 2013. http://dx.doi.org/10.1016/j.pneurobio.2013.10.006

Mendes LST, Motta LS, Salum Júnior GA. As psicoterapias modificam o funcionamento cerebral? In: Cordioli AV, Grevet EH, org. Psicoterapias: abordagens atuais. 4a ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.



Por Décio Gilberto Natrielli Filho

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