sexta-feira, 30 de junho de 2023

Psicopatia no Ambiente de Trabalho

 Blog Desvendando a Personalidade

A Neurociência e Neurobiologia do Desenvolvimento Humano

Kevin Spacey e Jason Bateman no filme "Quero matar meu chefe" (2011)

"Psicopata" é um termo usado pelo leigo para se referir a uma ampla gama de pessoas, desde criminosos obstinados até empresários que priorizam os lucros em detrimento da moralidade, mas a preocupação subjacente é que esses indivíduos causem danos aos outros. A preocupação de que os psicopatas estejam prejudicando os trabalhadores, suas instituições e até mesmo a economia do planeta está por trás do recente aumento de interesse no chamado "psicopata corporativo", que exibe muitos dos traços do transtorno, mas não o nível de comportamento antissocial ou violação da lei que resultaria em antecedentes criminais. Essa conduta criminosa foi uma das características marcantes das primeiras definições do quadro. Contudo, mais recentemente, a psicopatia tem sido definida como uma patologia do caráter que consiste em comportamentos desviantes, persistentes e em combinação com o desapego emocional.

Existem divergências quanto aos conceitos de psicopatia, sociopatia e transtorno da personalidade antissocial. Embora os termos frequentemente sejam tratados como se fossem intercambiáveis - incluindo manuais de psiquiatria - no meio forense eles se referem a condições relacionadas, mas não idênticas.

Os psicopatas não possuem uma bússola interna referente aos valores éticos e morais da sociedade ou cultura à qual pertencem. No que se refere às leis, conhecem-nas conscientemente, mas não as adotam como referenciais para suas ideias e condutas. São incapazes de sentir empatia, culpa ou lealdade por alguém além de si mesmos.

A sociopatia não é uma condição psiquiátrica formal. Ela se refere a padrões de atitudes e comportamentos considerados antissociais e criminais pela sociedade em geral, mas tolerados como necessários pela subcultura ou ambiente social em que se desenvolveram. Os sociopatas podem ter uma crítica bem desenvolvida e uma capacidade de sentir empatia, culpa e lealdade, mas o senso de certo e errado é baseado nas normas e expectativas da sua subcultura ou grupo. Muitos criminosos podem ser descritos como sociopatas.

O transtorno da personalidade antissocial (TPAS) é uma categoria diagnóstica ampla encontrada no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria, 5ª edição - texto revisado (DSM-5-TR). Comportamentos antissociais e criminais desempenham um papel importante em sua definição e, nesse sentido, o TPAS é semelhante à sociopatia. Alguns indivíduos com TPAS são psicopatas, mas muitos não são. A diferença entre psicopatia e transtorno da personalidade antissocial é que o primeiro inclui traços de personalidade mais complexos, como falta de empatia, grandiosidade emoções superficiais, loquacidade, conduta sedutora, versatilidade, que não são necessários para um diagnóstico de TPAS. O TPAS é três ou quatro vezes mais comum que a psicopatia na população em geral e nas prisões.

A ideia de que a psicopatia pode existir fora das prisões despertou um interesse por pesquisas sobre suas implicações no ambiente de trabalho ao longo das últimas duas décadas. No entanto, ainda é difícil traçar um quadro homogêneo de como a psicopatia afeta os resultados no trabalho (por exemplo, o desempenho profissional) de maneira positiva ou negativa, devido à multiplicidade de conceitos, modelos e medidas diferentes.

Então, como os psicólogos e psiquiatras decidem com precisão se alguém possui uma personalidade psicopática? Nos primeiros tempos da pesquisa sobre psicopatia, não havia um padrão amplamente aceito. Os critérios psiquiátricos utilizados para diagnósticos eram vagos, às vezes confusos, e podiam variar dependendo das experiências pessoais do pesquisador ou do diagnosticador. Esse passado obscuro e nebuloso se esclareceu consideravelmente nos últimos cinquenta anos, à medida que a psicopatia se tornou uma das variáveis nosológicas mais pesquisadas e bem compreendidas.


O NASCIMENTO DA PSICOPATIA

Um pioneiro nos primeiros anos desse campo foi o médico Hervey Cleckley, que trabalhava como psiquiatra em uma instituição no final da década de 1930. Infratores e pacientes eram enviados para hospitais psiquiátricos para tratamento se houvesse suspeitas de que eles tinham algum tipo de doença mental. Cleckley teve a oportunidade de estudar seus pacientes cuidadosamente e percebeu que muitos deles não apresentavam os sintomas usuais de doença mental, mas pareciam "normais" na maioria das situações. Ele os observou como encantadores, manipuladores e se aproveitavam de outros pacientes, membros da família e até mesmo da equipe hospitalar. Aos olhos treinados de Cleckley, esses indivíduos eram psicopatas.

Cleckley escreveu o que se tornou um livro clássico sobre psicopatia, intitulado "A Máscara da Sanidade". Originalmente publicado em 1941, este livro está em sua quinta edição (1976) e foi um dos primeiros livros a apresentar uma imagem clara da psicopatia. Apesar de não possuírem déficit intelectual, os pacientes de Cleckley frequentemente tomavam decisões de vida equivocadas e não aprendiam muito com suas experiências pessoais, levando-os a repetir comportamentos disfuncionais ou infrutíferos. Eles careciam de (auto)compreensão e não percebiam o impacto de seu comportamento sobre os outros, mas isso parecia não preocupá-los em nada. Eles não entendiam e pouco se importavam com os sentimentos alheios, carecendo tanto de remorso quanto de vergonha pelo mal que causavam. Eles eram notavelmente pouco confiáveis, mesmo em relação a coisas importantes e relevantes para sua situação atual, e pareciam não ter metas ou planos de vida realistas. Mais óbvio ainda, esses pacientes eram mentirosos contumazes, sendo desonestos em praticamente tudo (até mesmo sobre coisas insignificantes). Eles eram insinceros, embora frequentemente parecessem muito sinceros para aqueles com pouca experiência em interagir com eles, especialmente novos membros da equipe.

Análises dos prontuários mostraram que esses indivíduos eram antissociais e violentos por razões que muitas vezes pareciam aleatórias e sem sentido. Podiam ser extremamente egocêntricos e aparentemente incapazes de experimentar emoções humanas profundas, especialmente amor e compaixão. Falhavam em ter relacionamentos significativos ou íntimos. Até mesmo suas relações sexuais eram superficiais e impessoais. Na verdade, pareciam incapazes de sentir intensamente qualquer uma das emoções que os outros experimentavam, exceto emoções primitivas ou primárias, como raiva, ódio e fúria. 

De acordo com Cleckley, os psicopatas têm um charme superficial e boa inteligência. Eles costumam ser cativantes e capazes de contar histórias criativas e convincentes. Não apresentam ideias delirantes, que frequentemente caracterizariam um transtorno mental, e tendem a não ser ansiosos ou neuróticos. Superficialmente, eles parecem sãos e no controle. Na verdade, muitos são bastante agradáveis. Como Cleckley colocou, "[o] psicopata apresenta uma aparência técnica de sanidade, muitas vezes com capacidades intelectuais elevadas, e frequentemente tem sucesso em atividades empresariais ou profissionais". 

O título de seu livro, "A Máscara da Sanidade", refletia a crença de Cleckley de que, embora os psicopatas não exibam os sintomas óbvios de doença mental, eles sofrem de um distúrbio subjacente profundo no qual os componentes linguísticos e emocionais do pensamento não estão adequadamente integrados, uma condição que ele chamou de "afasia semântica" (que não corresponde ao conceito atual de afasia). É tentador decidir se alguém é um psicopata simplesmente observando-o ou ouvindo-o, marcando as características que correspondem à lista de Cleckley. No entanto, Cleckley não pretendia que suas observações fossem uma lista de verificação formal para diagnóstico e nunca testou seu modelo estatisticamente. Como um clínico com muitos anos de exposição a psicopatas, ele relatou esses traços que lhe pareciam caracterizar a síndrome.

A escala “Psychopathy Checklist - Revised”, conhecida amplamente pela sigla “PCL-R”, vem se mostrando um dos instrumentos de maior sucesso para se diagnosticar indivíduos que se enquadram no conceito de psicopatia em ambientes forenses. Desenvolvida por Robert Hare e colaboradores em 1991, é utilizada como referência mundial no estudo da psicopatia. A PCL-R tem sido repetidamente testada na prática clínica e forense - os resultados indicam que esta escala possui propriedades psicométricas muito boas, sendo recomendada para avaliar traços psicopáticos. O questionário pode ser usado por profissionais especialmente treinados e que possuam experiência em trabalhar com populações forenses. A avaliação dos traços psicopáticos pode ser realizada através de dois caminhos: 1) O primeiro é baseado em entrevistas (125 perguntas) e dados de documentos; 2) O segundo é com base nos registros psiquiátricos forenses. O questionário da PCL-R contém 20 itens e os resultados são marcados com valores de 0 a 2 (0 - sem características; 1- talvez/em alguns aspectos; 2 - sim). Cada característica é estimada separadamente e, no final, os resultados dos fatores e facetas são somados através do cálculo simples no total de pontos. A pontuação máxima do questionário é 40. 

Abaixo, seguem os critérios de classificação de psicopatia da PCL-R, adaptados de Serafim, Rigonatti & Barros (2011): 

Fator 1 - Insensibilidade afetiva: 

1.Loquacidade/charme superficial 
2.Superestima 
3.Mentira patológica 
4.Vigarice/manipulação 
5.Ausência de remorso ou culpa 
6.Insensibilidade afetivo-emocional 
7.Indiferença/falta de empatia 
8.Incapacidade de aceitar responsabilidade pelos próprios atos 

Fator 2 - Comportamento antissocial: 

1.Necessidade de estimulação/tendência ao tédio 
2.Estilo de vida parasitário 
3.Descontroles comportamentais 
4.Transtornos da conduta na infância 
5. Ausência de metas realistas e de longo prazo 
6.Impulsividade 
7.Irresponsabilidade 
8.Delinquência Juvenil 
9.Revogação da liberdade-condicional 

***Promiscuidade sexual, muitas relações conjugais de curta duração, versatilidade criminal são aspectos considerados no comportamento carcerário e levantamento do histórico criminal. 

A psicopatia está intrinsecamente ligada à "tríade sombria", uma constelação de três construtos de personalidade teoricamente separáveis, embora empiricamente sobrepostos, que são tipicamente interpretados como mal adaptados: psicopatia, narcisismo e maquiavelismo. A personalidade narcisista é marcada por grandiosidade, um senso de direito e falta de empatia. O maquiavelismo está associado à falta de consideração pela importância da moralidade e ao uso de artimanhas e desonestidade para buscar e manter o poder. Todos os três construtos envolvem algum grau de distanciamento emocional, autopromoção, agressão e desonestidade, embora também apresentem diferenças significativas. Por exemplo, o narcisismo não necessariamente é marcado pela ausência de culpa que caracteriza a psicopatia, e o maquiavelismo não está necessariamente associado à propensão a correr riscos típica da psicopatia. 

Ao procurar uma delimitação precisa da psicopatia, rapidamente fica claro que não há um entendimento comum do construto. De maneira geral, "a personalidade psicopática, ou psicopatia, é uma constelação de traços de personalidade e comportamentos associados caracterizados por charme superficial, desonestidade, egocentrismo, manipulação, propensão ao risco e falta de empatia e culpa mascaradas por uma aparência de normalidade". De acordo com pesquisas recentes, a psicopatia não implica em uma classificação taxonômica pela qual os indivíduos seriam divididos nas categorias de psicopatas ou não-psicopatas, mas sim captura uma configuração de traços contínuos de personalidade pelos quais os indivíduos variam em cada dimensão da psicopatia.



O MODELO TRIÁRQUICO

Em 2009, Patrick e colaboradores analisaram várias conceituações e medidas da psicopatia para identificar temas abrangentes. Suas análises resultaram no modelo tríarquico da psicopatia, composto por três dimensões principais: ousadia, desinibição e perversidade. Essas dimensões refletem um fenótipo único (por exemplo, expressões comportamentais) e estão inter-relacionadas de forma diferenciada. A ousadia captura as facetas de coragem, dominância, destemor, otimismo, persuasão, resiliência, autoconfiança, segurança social e tolerância à incerteza. A perversidade representa a faceta insensível-emocional da psicopatia. Ela se refere à disfunção afetiva (sentimentos reduzidos de culpa e empatia, apego reduzido aos outros) e ao comportamento antissocial com o qual todos os modelos de psicopatia concordam. Na dimensão comportamental, a perversidade envolve antagonismo, rebeldia, busca por emoções fortes, propensão à crueldade e falta de empatia. A desinibição implica na "falta generalizada de restrição comportamental, que é central para todas as concepções históricas e contemporâneas da psicopatia". Ela reflete uma incapacidade geral de controle inibitório, resultando em impulsividade, irresponsabilidade, falta de planejamento e busca egocêntrica de gratificação imediata.

Essa natureza ambígua da psicopatia, ou seja, a combinação de componentes mal adaptativos (desinibição e perversidade de acordo com o modelo triárquico) com características como destemor, charme (superficial), resiliência ao estresse e persuasão (ousadia), levou à ideia da "psicopatia adaptada": o sucesso é definido como evitar resultados indesejáveis (por exemplo, encarceramento) ou alcançar resultados desejáveis (por exemplo, sucesso profissional). No mundo corporativo, indivíduos com traços psicopáticos muitas vezes são considerados capazes de obter poder ou status ao utilizar um repertório versátil de mentiras, trapaças, manipulação e exploração de outras pessoas. De fato, Babiak et al. (2010) constataram que a prevalência de traços psicopáticos era maior em uma amostra corporativa do que em amostras da comunidade. Isso pode indicar que os indivíduos psicopáticos têm sucesso no trabalho na esfera individual, ao mesmo tempo em que prejudicam a organização e seus membros.

Duas metanálises mostraram que a personalidade psicopática tem uma relação fraca com resultados como desempenho no trabalho, comportamento contraprodutivo e efetividade de liderança. Uma razão para essa lacuna entre os resultados metanalíticos e a ideia do "psicopata corporativo" pode ser que a maioria das pesquisas existentes sobre psicopatia no trabalho tenha se concentrado em escores globais de psicopatia. No entanto, como as dimensões triárquicas tendem a apresentar relações divergentes com os resultados, os estudos sugerem mais pesquisas sobre as relações específicas entre essas facetas e os resultados, em vez de usar escores globais de psicopatia.

Algumas pesquisas já identificaram que a ousadia (ou um aspecto dela, ou seja, dominância destemida, que compreende destemor, resiliência ao estresse e influência social) estava relacionada ao sucesso político na presidência dos Estados Unidos, ao salário, às promoções dos trabalhadores e aos comportamentos interpessoais funcionais (por exemplo, o uso de táticas de influência suave, como adulação e comportamento de liderança transformacional). Por ser a candidata mais promissora para resultados funcionais, menos pesquisas têm se concentrado na perversidade e na desinibição em seus papéis no trabalho. Enquanto a desinibição estava especificamente associada à liderança disfuncional, a perversidade estava relacionada ao uso de táticas de influência intensas (por exemplo, uso de pressão) e tomada de decisões antiéticas no trabalho. Gestores com pontuações altas em perversidade recebiam baixas avaliações de desempenho na supervisão quando situações ativavam aquele traço.

De acordo com o modelo de expressão moderada da psicopatia, apoiado por metanálises, a relação entre a personalidade psicopática e o sucesso é mediada por variáveis intermediárias. Como o sucesso se refere tanto à conquista de resultados desejáveis (por exemplo, promoções, bom desempenho no trabalho) quanto à esquiva de resultados indesejáveis (por exemplo, não ser demitido, não agir de forma contraprodutiva), os moderadores podem potencialmente explicar porque as relações entre psicopatia e resultados no trabalho encontradas em metanálises anteriores têm sido mais fracas do que o esperado. A teoria socioanalítica oferece um quadro que explica esses efeitos moderadores. Ela postula que a habilidade social atua como uma competência que traduz traços de personalidade em ações que são bem percebidas pelos outros. Um construto especialmente desenvolvido para capturar habilidade social no trabalho é a habilidade política. Ela é definida como "a capacidade de compreender efetivamente os outros no trabalho e usar esse conhecimento para influenciá-los a agir de maneiras que aprimorem os objetivos pessoais e/ou organizacionais". Trabalhadores com elevados escores de dominância destemida (um aspecto do construto ousadia) eram percebidos como menos cooperativos no trabalho e dedicados ao seu emprego quando, ao mesmo tempo, mostravam falta de habilidades de influência interpessoal (uma faceta específica da habilidade política). Da mesma forma, esses indivíduos apresentaram mais comportamentos contraprodutivos no trabalho.

Além do domínio da influência interpessoal, a habilidade política também envolve perspicácia social, habilidade de networking e sinceridade aparente. Muitos estudos têm mostrado que a habilidade política como um todo melhora o desempenho no trabalho. Assim, argumenta-se que não apenas a influência interpessoal, mas todas as facetas da habilidade política são úteis para traduzir uma alta expressão do traço de personalidade ousado em desempenho contextual (ou seja, comportamentos cooperativos e confiáveis) que são bem recebidos pelos colegas de trabalho. Por exemplo, um funcionário com elevados escores de ousadia poderia, em geral, buscar progredir apoiando seus colegas de equipe para melhorar o desempenho da equipe (e, portanto, seus próprios objetivos de carreira). Mas, para fazer isso, o funcionário precisa (a) ler a situação social com precisão (por exemplo, reconhecer quais membros da equipe estão em conflito), (b) exercer influência interpessoal (por exemplo, persuadir uma das partes em conflito a pedir desculpas), (c) ser capaz de construir redes úteis (por exemplo, conhecer pessoas influentes na organização para garantir capital social) e (d) apresentar autenticidade em todo o seu comportamento influente.

Enquanto o "desempenho contextual" captura aspectos de cooperação com os colegas de trabalho, o desempenho da tarefa refere-se às obrigações principais que uma pessoa deve cumprir. Indivíduos com elevada ousadia tendem a ser mais resistentes e resilientes ao estresse, o que deve ajudá-los a trabalhar bem mesmo sob pressão, enquanto a dominância, autoconfiança e equilíbrio social devem promover o sucesso em interações como negociações ou vendas. Além disso, em um nível global, a psicopatia está associada a motivações de poder ou sucesso financeiro. Portanto, a motivação de progredir de indivíduos com alta ousadia deve motivá-los não apenas a avançar aumentando seu desempenho contextual, mas também a serem melhores em sua tarefa principal. Novamente, a teoria socioanalítica postula que a habilidade política é necessária para traduzir essas aspirações (ou seja, ter um bom desempenho para avançar) em comportamento correspondente que é bem percebido pelos outros.

A influência interpessoal deve ajudar os indivíduos a apresentarem suas motivações para progredir de uma maneira que seja, ou pareça ser, menos egoísta e insensível aos outros. Portanto, argumenta-se que a habilidade política deve permitir que indivíduos ousados pareçam menos egoístas. Especificamente, o comportamento assertivo de indivíduos ousados sem habilidade política pode facilmente parecer intimidante, pois os colegas de trabalho podem perceber comportamentos ousados que não são bem executados socialmente. Por outro lado, os indivíduos com alta ousadia devem parecer menos "intimidadores" à medida que seus níveis de habilidade política aumentam.

A impulsividade egocêntrica, um fator que reflete partes da falta de inibição e da perversidade, estava positivamente relacionada a comportamentos externalizantes e antissociais. Presume-se que, independentemente da habilidade política, indivíduos com perversidade ou falta de inibição tendem a exibir mais comportamentos contraprodutivos em relação aos seus pares. Além disso, o desapego e a crueldade associados à perversidade, bem como a propensão à fraude e à irresponsabilidade impulsiva, devem aumentar os atos contraprodutivos contra a empresa ou instituição. Gestores perversos, por exemplo, tratam mal seus subordinados e esperam obter maiores salários e promoções, mas o que eles realmente obtêm são avaliações de desempenho mais baixas de seus superiores.


COMO OS PSICOPATAS ANALISAM A PERSONALIDADE ALHEIA?

Muitos psicopatas são "estudantes" perspicazes da natureza humana e, ao contrário da maioria das pessoas, estão dispostos a usar o que aprenderam para seus fins egoístas. Eles utilizam seu conhecimento sobre personalidade para controlar a visão que as pessoas possuem deles. Para reconhecer como os psicopatas controlam as opiniões que os outros têm deles, é importante compreender didaticamente as diferenças entre três pontos de vista. Primeiro, há a "personalidade interna ou privada" - o "eu" que experimentamos dentro de nós mesmos. Em segundo lugar, há a "personalidade projetada ou pública", às vezes chamada de persona - o "eu" que queremos que os outros vejam, o "eu" que apresentamos aos outros quando estamos em público. E, terceiro, há a "personalidade atribuída ou reputação" - a visão, com base no que dizemos e fazemos, que os outros têm da nossa personalidade. Todos esses referenciais são amplamente subjetivos e separados apenas para fins didáticos.

A "personalidade interna ou privada" é complexa e composta por pensamentos, atitudes, percepções, julgamentos, impulsos, desejos, preferências, valores e emoções. O "eu privado" também inclui os produtos da imaginação, incluindo fantasias, esperanças e ambições, todas elas visões idealizadas. Em muitas pessoas, o "eu privado" consiste em traços e características positivas às quais o indivíduo acredita que são representativas da sua identidade. Há o desejo de que os outros apreciem esses traços e, se o ambiente der indícios de que não os reconhecem como verdadeiros ou autênticos, ocorrem as frustrações.

O "eu público", ou persona, por outro lado, corresponde àquilo que o indivíduo deseja que aqueles ao seu redor vejam. A persona é um subconjunto do "eu privado" - uma versão cuidadosamente editada da "personalidade privada" que se revela aos outros para influenciar como eles veem e julgam essas características. Qualquer pessoa que já tentou causar uma boa impressão em outra - talvez em um encontro ou durante uma entrevista de emprego - entende o quão difícil pode ser maximizar os aspectos positivos e minimizar os aspectos negativos da personalidade. Apesar dos melhores esforços para controlar o que se revela aos outros, ocasionalmente escapam traços indesejados para o público.

A terceira visão da personalidade seria como os outros veem e descrevem o indivíduo. Essa é a reputação atribuída com base no que o ambiente vê, ouve e experimenta ao interagir com a pessoa em questão. Infelizmente, apesar dos melhores esforços para apresentar uma persona positiva, as pessoas formarão suas próprias opiniões, tanto corretas quanto equivocadas, com base nas condutas de cada um (na apresentação, nas roupas, escolhas, nos valores e crenças), filtrados através dos preconceitos, estereótipos, gostos e desgostos do grupo de convívio. Os filtros que as pessoas usam para avaliar e julgar determinado indivíduo podem ser distorcidos e incongruentes em relação à "personalidade privada".

Resumindo, as pessoas apresentam um "eu privado" composto por traços positivos e dos quais esperam que sejam notados a apreciados pelos outros, além de uma coleção de traços e características negativas as quais procuram manter escondidos. Nas relações sociais e interpessoais, os seres humanos expõem uma persona cuidadosamente elaborada, composta por uma seleção de traços e características do "eu privado", para que sejam notados pelos grupos de convívio. Às vezes, podem exagerar alguns pontos positivos apenas para causar uma impressão ou exercer influência sobre os outros. Ocasionalmente, partes do lado privado e obscuro são reveladas publicamente sem que tenham consciência disso; em outros momentos, podem estar cientes desses traços que escapam e se sentirem constrangidos ou culpados. Por fim, a "reputação" é a personalidade pela qual os outros conhecem o indivíduo. Idealmente, as reputações humanas deveriam refletir com precisão os traços psicológicos que desejam mostrar em público. Entretanto, os observadores os filtram por meio de seus preconceitos, estereótipos e concepções culturais. Isso pode levá-los a formar uma impressão incongruente e divergente sobre a "personalidade individual".

A reputação pode não coincidir com o "eu público" que a pessoa está tentando projetar, ou a "personalidade interna" que a mesma vivencia em sua intimidade. Em um mundo ideal, essas três visões da personalidade estariam alinhadas. A humanidade ficaria satisfeita com seu "eu privado", sentir-se-ia à vontade para revelá-lo por meio da persona e teria a segurança de que seria reconhecida e identificada como realmente é. 

Representantes de vendas, de recursos humanos e outros profissionais que passam muito tempo interagindo com pessoas tornam-se exímios leitores dos traços e características da personalidade. Psicólogos e psiquiatras, é claro, são treinados para realizar avaliações da personalidade e geralmente conseguem enxergar um pouco mais das dinâmicas subjacentes. Jogadores de pôquer também buscam por "pistas" reveladoras deixadas por outros jogadores. 

Os psicopatas têm a reputação merecida de serem bons juízes das personalidades dos outros - talvez porque se esforcem muito nisso - e têm a habilidade surpreendente de projetar a persona mais eficaz, dependendo da situação, para obter o que desejam.

O jogo psicológico do psicopata envolve analisar as expectativas e desejos do indivíduo e, em seguida, refleti-los em uma máscara psicológica tão convincente que a pessoa cria um vínculo com o predador. Esse vínculo pode se formar muito rapidamente, até mesmo durante uma viagem de avião pelo país. Há duas potenciais recompensas associadas a essas condutas: o psicopata vence o jogo imediato ao ganhar a confiança da pessoa e a vítima em breve cederá a qualquer demanda que seja solicitada ou exigida.

A análise de muitos casos de indivíduos envolvidos com psicopatas evidenciou que aqueles que tiveram relacionamentos de longo prazo muitas vezes os descreveram como os "supremos psicólogos" ou leitores de mentes. Quanto mais eles interagiam com o psicopata, mais se sentiam atraídos ou hipnotizados pela fachada. Muitos se referiam aos seus parceiros psicopatas como suas "almas gêmeas" e relatavam o quanto acreditavam ter em comum com os mesmos. Algumas vítimas ainda sentem falta do relacionamento e manifestam o desejo de ter o psicopata de volta em suas vidas. É muito difícil para muitos acreditar que o relacionamento nunca existiu. Todo o processo é particularmente insidioso e difícil de superar se o psicopata for fisicamente atraente, sedutor, manipulador, teatral e pessoalmente cativante.

Os psicopatas frequentemente são astutos manipuladores, capazes de influenciar indivíduos para atenderem a seus próprios interesses egoístas. Eles escondem suas verdadeiras motivações e projetam personas cuidadosamente elaboradas para aproveitar as necessidades, expectativas e ingenuidade de pessoas úteis a eles. Quando terminam com suas vítimas, seguem em frente.

Ao tentar manipular várias pessoas simultaneamente, especialmente em um grupo de pares, há o risco de alguém suspeitar da verdade e levantar dúvidas sobre suas intenções, podendo até mesmo prejudicar seus planos. Portanto, muitos psicopatas concentram seus esforços em uma pessoa por vez, pois é preciso muito esforço para manter várias fachadas em um grupo, cada uma delas personalizada para o indivíduo pretendido, especialmente se as histórias envolvem mentiras complexas e enganosas. No entanto, alguns psicopatas gostam do desafio de conduzir várias decepções diferentes ao mesmo tempo, assegurando que suas vítimas nunca compartilhem informações com outros alvos em potencial, ou melhor ainda, nunca se conheçam.

A menos que sejam flagrados e processados por romper com a lei, os psicopatas sofrem poucas consequências pelos abusos físicos, emocionais, psicológicos e financeiros que deixam para trás. Em geral, poucas vítimas - colegas de trabalho, parceiros e cônjuges - os denunciam às autoridades (ou a seus amigos), devido à vergonha que sentem por terem sido enganadas ou devido às ameaças deixadas pelo agressor. Mesmo em grandes empresas, como bancos e corretoras, fraudes e golpes não são denunciados por medo de prejudicar a reputação da empresa. Os psicopatas sabem disso e utilizam a seu favor. Outros mostram-se intimidados pelo medo de represálias ou processos judiciais, apenas se sentindo gratos por não terem mais esse predador em suas vidas e poderem seguir em frente.

Grupos de afinidade - religiosos, políticos ou sociais - nos quais todos os membros compartilham valores ou crenças comuns, são particularmente atraentes para os psicopatas devido à confiança coletiva que seus membros têm uns nos outros. Aqueles que cometem fraudes em grupos de afinidade contam com o sistema de crenças comuns dos membros do grupo para se protegerem. Desde que o psicopata possa expressar suas ideias com precisão na presença dos outros, as verdadeiras motivações são menos propensas a serem descobertas. Grupos religiosos, abertos a novos membros que se juntam a eles com diferentes estilos de vida, presumem prontamente que todos compartilhem ideias e valores semelhantes e tendem a perdoar transgressões passadas. Essas qualidades nobres, infelizmente, os tornam alvos mais fáceis para a manipulação por fraudadores inescrupulosos. Embora a maioria das pessoas se junte a grupos de afinidade para se associar àqueles que compartilham seus valores, ideias e interesses, os psicopatas se juntam para tirar proveito deles, escondendo-se dentro de um conjunto bem definido de expectativas pessoais.


PSICOPATIA BEM-SUCEDIDA OU PSICOPATA CORPORATIVO

O controverso construto da psicopatia bem-sucedida pode ser entendido dentro de um dos três modelos concorrentes: manifestação subclínica, expressão moderada e uma perspectiva de processo dual. O modelo subclínico sugere uma expressão leve do transtorno, na qual indivíduos menos afetados apresentam menos transgressões sociais, mas as características centrais da personalidade são as mesmas que nos indivíduos mais gravemente afetados. Por outro lado, no modelo de expressão moderada, tanto a psicopatia bem-sucedida quanto a malsucedida têm a mesma etiologia, mas fatores moderadores, como inteligência, controle de impulsos, socialização e status socioeconômico, influenciam a expressão do transtorno. Por fim, o modelo de processo dual propõe que os componentes interpessoais e afetivos da psicopatia (por exemplo, ausência de culpa, falta de empatia, charme superficial, grandiosidade) são distintos dos componentes desviantes antissociais (por exemplo, impulsividade, irresponsabilidade, agressividade). Nesse último modelo, a psicopatia é conceituada como uma condição híbrida que compreende uma combinação de traços que podem predispor a comportamentos mal adaptativos e adaptativos, dependendo de variáveis de moderação da personalidade e situações ainda desconhecidas.


COMO LIDAR COM UM PSICOPATA CORPORATIVO?

Não existe uma cartilha para sobreviver ao convívio com psicopatas. A identificação é o início e, ao mesmo tempo, um dos maiores desafios. Não podemos rotular todos que cometem deslizes, erram, magoam, omitem, mentem, distorcem, camuflam, blefam, hostilizam e agridem, como antissociais ou psicopatas. Deve existir um padrão consistente e persistente de versatilidade perversa e predatória, que tenha se iniciado na adolescência, como um transtorno de conduta, e progredido na fase adulta. Pessoas com personalidade imatura podem ter comportamentos antissociais e, dependendo da gravidade das suas condutas, devem responder por danos causados à terceiros.

Outro perfil corresponde a indivíduos também com características imaturas de personalidade, frágeis, inseguros, excessivamente sensíveis a conflitos interpessoais, os quais podem assumir uma postura de vítima, culpando terceiros por seus fracassos e percalços. Neste grupo podemos encontrar uma categoria de litigantes e reivindicantes recorrentes, que exerceriam sua perversidade assediando todos que com eles entram em conflito, culpando-os por todos os seus fracassos e processando-os com o objetivo de se beneficiar das brechas e acordos judiciais.

Considerando essas reservas, ao identificar um psicopata com quem a pessoa tem obrigação de conviver, seja no trabalho, no ambiente acadêmico (ou até mesmo no meio familiar), é importante manter a compostura e evitar reações emocionais exageradas. Um dos objetivos da perversidade, conforme descrito nesta publicação, é tentar provocar uma resposta emocional para obter vantagem ou expor deficiências. 

Sempre que possível, documente tudo e mantenha um registro detalhado de todas as interações e incidentes relevantes. Isso inclui e-mails, mensagens, anotações de reuniões, entre outros. Essa documentação pode ser útil caso você precise tomar medidas mais formais posteriormente. Conheça os seus direitos e familiarize-se com as políticas da instituição ou empresa. Isso pode ajudar a entender melhor o que é considerado comportamento inadequado ou abusivo.

Procure o apoio de colegas confiáveis, amigos ou até mesmo um mentor dentro do local. Compartilhar as preocupações e obter conselhos de pessoas experientes pode ser reconfortante e seguro. Seja discreto, mas comunique-se de forma clara e assertiva. Explique suas preocupações de forma objetiva e busque soluções práticas.

Caso as tentativas internas de lidar com o psicopata corporativo não estiverem funcionando, considere buscar ajuda externa. Isso pode envolver consultar um advogado especializado em direito trabalhista, entrar em contato com um sindicato ou até mesmo denunciar o comportamento abusivo às autoridades apropriadas. Novamente, é muito importante que a vítima pese todos os fatores numa balança de risco, geralmente supervisionada por um especialista. 

Procure suporte emocional e psicológico fora do ambiente de trabalho, pratique atividades que ajudem a reduzir o estresse, como exercícios físicos, meditação ou mindfulness. É importante lembrar das próprias habilidades, conhecimentos e conquistas. 

Evite alimentar jogos de poder, a não ser que sua posição seja segura e favorável. Calcule o risco de colocar tudo a perder por orgulho ou ferida narcísica. Psicopatas corporativos gostam de manipular e controlar outras pessoas. Tente responder a provocações de forma que fique evidente a inadequação do agressor. 

Informe-se sobre a psicopatia, comportamentos maquiavélicos e abusivos. Aprenda a identificar as táticas de controle utilizadas por essas pessoas. Isso pode auxiliar no desenvolvimento de estratégias para se proteger.

Considere a possibilidade de se distanciar caso a situação torne-se insustentável e prejudicial à sua saúde mental e bem-estar. Novamente, busque amparo e aconselhamento com profissionais habilitados.


REFERÊNCIAS

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Por Décio Gilberto Natrielli Filho


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