quinta-feira, 15 de junho de 2023

Neuroinflamação Pós-COVID-19 com Sintomas Depressivos e Cognitivos Persistentes

 Blog Desvendando a Personalidade 

A Neurociência e Neurobiologia do Desenvolvimento Humano 

Fonte: https://www.istockphoto.com/br/fotos/brain-inflammation

Durante a doença aguda por COVID-19, sintomas clínicos leves a moderados ocorrem em aproximadamente 95% das pessoas infectadas com a variante Omicron e em aproximadamente 80% das pessoas infectadas com a cepa inicial de SARS-CoV-2. O quadro leve indica a presença de alguns sintomas, enquanto a gravidade moderada inclui falta de ar sem necessidade oxigênio suplementar. Vários dias a meses após a diminuição dos sintomas, observa-se uma elevada prevalência de sintomas depressivos com ou sem comprometimento cognitivo, variando de 15% após exposição a SARS-CoV-2, de tipo selvagem em não vacinados, a 5% em pessoas triplamente vacinadas e expostas às variantes Delta ou Omicron. Muitos desses sintomas, como anedonia, lentificação psicomotora, baixa motivação, hipobulia e comprometimento da memória de curto prazo podem persistir por meses a anos. Portanto, sintomas depressivos com ou sem outros sintomas cognitivos, após um episódio agudo de doença leve a moderada por COVID-19, aqui denominada COVID-DC, mostram-se como um importante foco de atenção clínica.

A gliose é uma resposta do tecido cerebral a danos, lesões ou doenças. É caracterizada pelo aumento na quantidade de células gliais, como astrócitos e microgliócitos, e pela formação de "cicatrizes" ou áreas de cicatrização no cérebro. A gliose ocorre como uma tentativa de proteção e reparo, mas também pode estar associada a disfunções neurológicas, dependendo da extensão e localização do dano. 

Existem várias razões pelas quais a gliose pode estar presente na COVID-DC. Primeiro, a gliose funciona como um mecanismo etiológico para sintomas depressivos e cognitivos em várias doenças neuropsiquiátricas, por meio de diversos processos neuroinflamatórios e oxidativos, como liberação de citocinas, prostaglandinas, espécies reativas de nitrogênio e espécies reativas de oxigênio. Em segundo lugar, alguns eventos que ocorrem durante a fase aguda da COVID-19 podem levar à gliose cerebral, como a elevação de citocinas periféricas sinalizando inflamação cerebral, o surgimento de lesões hipóxicas ou de oclusão vascular, ou possivelmente do próprio efeito neurotrópico do vírus. Em terceiro lugar, metade dos estudos post-mortem que coletaram amostras de tecido cerebral de pessoas com doença aguda grave de COVID-19, relataram a presença de gliose com ativação microglial ou astrocitária. Embora esses argumentos sejam persuasivos, eles têm limitações, principalmente pelo fato de que a gliose em amostras post-mortem obtidas durante a doença aguda grave por COVID-19 não ser equivalente à gliose obtida durante a COVID-DC, ou seja, as amostras coletadas de pacientes durante a doença aguda de COVID-19 são obtidas em um momento de infecção generalizada do organismo e meses antes do início da COVID-DC. Portanto, pacientes cujas amostras são coletadas durante a fase aguda da COVID-19 ainda não apresentaram sintomas depressivos ou cognitivos prolongados.

Pessoas com histórico de COVID-19 leve a moderada provavelmente não experimentaram certos fenômenos observados em casos graves, como a tempestade de citocinas, associada a uma inflamação generalizada do corpo, com desregulação de fatores de coagulação e maior risco de lesões vasculares, ou lesões hipóxicas. Embora haja motivos para suspeitar de gliose na COVID-DC, não se sabe se a mesma está presente nos cérebros dos indivíduos com a a doença.

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Fonte: https://www.istockphoto.com/br/fotos/brain-inflammation

A Cochrane Rehabilitation, em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS), lançou uma série de pequenos artigos que relatam as evidências da Cochrane sobre os sintomas comuns das Condições Pós-COVID-19 (PCC). Estima-se que 6,2% dos sobreviventes da infecção pelo SARS-CoV-2 sofram de PCC, que inclui manifestações neurológicas, como deterioração cognitiva, e condições de saúde mental, como depressão e ansiedade. Utilizando-se de uma escala amplamente aplicada em consultórios de psiquiatria, a Montreal Cognitive Assessment (MoCA), avaliações objetivas revelaram pontuações mais baixas em indivíduos com PCC, em comparação com controles saudáveis, o que sugere déficits cognitivos globais (ou seja, atenção, velocidade de processamento, função executiva, linguagem e memória). Em relação à ansiedade e depressão, a compreensão atual da cronologia entre a gravidade da COVID-19 e o início do quadro psicopatológico ainda é incerta.

Embora o desfecho a longo prazo da deterioração cognitiva na PCC ainda seja incerto neste momento, alguns cientistas têm postulado que a Doença de Alzheimer e a infecção pelo SARSCoV-2 exibem características patogênicas precoces semelhantes relacionadas a alterações hipometabólicas no cérebro antes do desenvolvimento da atrofia. Além disso, varreduras de tomografia por emissão de pósitrons (PET) realizadas em pacientes com PCC revelam estresse metabólico celular, que é um marcador precoce de demência. Atualmente, existem nove ensaios registrados avaliando a eficácia do treinamento cognitivo na memória em pacientes com PCC. 

Um relatório recente com 54.442 participantes encontrou associações entre a infecção pelo COVID-19 e estresse psicológico, não relacionada ao sexo, educação, etnia ou condições de saúde mental pré-existentes. Em vez de serem causados pela infecção pelo SARS-CoV-2, os resultados sugerem que os sintomas de depressão e ansiedade podem ter sido desencadeados pela pandemia, medo de infecção e mudanças drásticas nas interações sociais e outros fatores ambientais.

Em contraste, um estudo multicêntrico de Condições Pós-COVID-19 revelou uma correlação entre fatores sociodemográficos (idade mais avançada, nível educacional mais baixo), condições neurológicas pré-existentes e menor cognição em pessoas com PCC. Como não foi detectada associação entre a gravidade da infecção e os sintomas do PCC, é possível que fatores sociodemográficos e o estado de saúde mental exacerbem tanto a gravidade da infecção por COVID-19 quanto os sintomas da PCC. Por fim, o estresse psicológico está relacionado ao comprometimento imunológico e à inflamação sistêmica crônica, levando à produção constante de citocinas pró-inflamatórias. A literatura mostra que tanto a supressão imunológica quanto as citocinas pró-inflamatórias estão associadas aos sintomas da PCC.


Até o momento desta publicação, ainda não existe um consenso em relação às causas da COVID-DC ou da PCC, conforme denominadas nos dois artigos citados nas referências. As duas denominações correspondem aos fenômenos envolvendo sintomas neuropsiquiátricos persistentes após a recuperação de uma infecção por SARS-CoV-2. De um lado, há aqueles que consideram o processo de neuroinflamação, durante e após uma infecção por COVID-19, como um fator suficiente para explicar sintomas depressivos com déficits cognitivos persistentes. No outro polo, estão aqueles que valorizam quadros depressivos e ansiosos pré-mórbidos, o estresse psicológico e também a neuroinflamação, como componentes indissociáveis dos quadros neuropsiquiátricos. Somente com estudos cada vez mais refinados sobre a evolução de indivíduos expostos ao SARS-CoV-2, teremos informações mais consistentes sobre a etiologia dessas síndromes Pós-COVID-19.



REFERÊNCIAS

Cordani C, Young VM, Arienti C, Lazzarini SG, Del Furia MJ, Negrini S, Kiekens C. Cognitive impairment, anxiety and depression: a map of Cochrane evidence relevant to rehabilitation for people with post COVID-19 condition. Eur J Phys Rehabil Med 2022; 58(6):880-887.

Braga J, Lepra M, Kish SJ, et al. Neuroinflammation After COVID-19 With Persistent Depressive and Cognitive Symptoms. JAMA Psychiatry. Published online May 31, 2023. doi:10.1001/jamapsychiatry.2023.1321



Por Décio Gilberto Natrielli Filho

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