terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Uso de Psilocibina no Tratamento da Depressão

Blog Desvendando a Personalidade
A Neurociência e Neurobiologia do Desenvolvimento Humano

Fonte: https://fineartamerica.com/shop/greeting+cards/psilocybe+cubensis


Um estudo publicado em 2 de Novembro de 2022 no New England Journal of Medicine aborda o uso da substância Psilocibina sintética, combinado com psicoterapia, para o tratamento da depressão refratária (TRD, do inglês treatment-resistant depression). Os resultados revelaram números consideráveis que demonstraram uma melhora nos sintomas, pelo menos em curto prazo (GOODWIN, 2022).

Na natureza, a psilocibina é encontrada principalmente em fungos (cogumelos) do gênero Psilocybe e, tecnicamente, corresponde a um alcaloide indólico do grupo das triptaminas alucinógenas. Quando ingerida, a psilocibina é metabolizada pelo fígado e transformada em psilocina, a qual possui o efeito psicodélico, atuando através da neurotransmissão serotoninérgica (ou seja, como agonista de receptores serotoninérgicos).

A pesquisa demostrou uma significativa redução nos sintomas depressivos, por pelo menos 3 semanas, em pacientes que receberam 25mg da droga, em comparação com pacientes que ingeriram doses de 10mg ou 1mg, considerados grupos controle. Após três semanas, os autores observaram que 29% dos participantes da dose mais elevada permaneceram em remissão e 37% tiveram, pelo menos, 50% de redução dos escores na escala para depressão. Entretanto, na marca dos três meses, apenas 20% dos mesmos sentiram uma melhora significativa.

Na Escala de Depressão de Montgomery-Asberg (sigla do inglês, MADRS), a redução na pontuação total dos pacientes que receberam 25mg de Psilocibina sintética foi significativamente maior em relação ao grupo controle.

A psilocibina tem sido estudada como tratamento para a depressão refratária e já foi comparada em outro estudo com o antidepressivo Escitalopram, com resultados promissores. Neste estudo em questão, os pesquisadores buscaram encontrar uma dose aceitável e uma fórmula sintética segura para a droga administrada junto com um suporte psicológico.

Antes da dose ser administrada aos pacientes, cada um deles, em um período de 3 a 6 semanas, encontrou-se por 3 vezes com um terapeuta para construir um ambiente confiável e preparar a experiência psicodélica. No dia da administração da substância, os pacientes sentaram-se em uma cadeira confortável e escutaram algumas músicas para desviar sua atenção. As sessões psicoterápicas duraram cerca de 6 a 8 horas, com dois terapeutas sempre presentes ao lado dos participantes. No dia seguinte, os pacientes retornaram com os terapeutas presentes para explorarem insights a partir de suas experiências.

A MADRS foi usada para medir o progresso do estudo antes de administração, no primeiro dia de psilocibina e nas semanas 1, 3, 6, 9 e 12 após a administração da substância. Os pacientes foram solicitados a interromper seus medicamentos antes das duas primeiras semanas do estudo, porém poderiam voltar a tomá-los se sentissem necessário.

Os pesquisadores reportaram que, em relação ao grupo de 25mg, as incidências de respostas e de remissão nos sintomas depressivos nas três primeiras semanas estavam de acordo com os primeiros resultados da literatura. Contudo, esses achados não se sustentaram após doze semanas.

Observando o grupo de maior dosagem da psilocibina, foi possível observar que os pacientes apresentavam eventos adversos, como náusea, cefaleia, tontura e fadiga. Entretanto, a aparição desses sintomas diminuía junto com a dosagem. Ainda sobre este grupo, dois pacientes manifestaram pensamentos suicidas durante as três primeiras semanas de tratamento e, além disso, três meses após o tratamento, três participantes do estudo apresentaram comportamentos suicidas.

Os autores do estudo enfatizaram que testes mais longos e comparações de eficácia com outros medicamentos eram de extrema necessidade para determinar a segurança do uso da psilocibina para o tratamento de depressão refratária.

Em um editorial, Bertha Madras, PhD do McLean Hospital em Massachusetts, e da Escola Médica de Harvard em Boston, afirmou que as descobertas são intrigantes, porém preocupantes. A maior dose de psilocibina (25mg) resultou em uma significativa diminuição dos sintomas depressivos após três semanas de tratamento. Todavia, os 37% de incidência de resposta com essa mesma dose, ainda são numericamente menores do que aquelas observadas nos estudos de outros antidepressivos convencionais. Na mesma publicação, Madras relatou a alta e preocupante porcentagem de sintomas adversos, dos pensamentos e comportamentos suicidas. Além disso, questionou se a legalização e comercialização de psicodélicos pela medicina poderia afetar populações mais vulneráveis e comprometer os já existentes rigorosos protocolos médicos.


REFERÊNCIAS

Goodwin GM, Aaronson ST, Alvarez O, Arden PC. Single-Dose Psilocybin fer a Treatment-Resistent Episode of Major Major Depression. N Engl J Med. 2022; 387:1637-1648.

Texto adaptado do site da Medscape: https://www.medscape.com/viewarticle/983461


Por Décio Gilberto Natrielli Filho e Lucas Moreira Natrielli.

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