Blog Desvendando a Personalidade
A Neurociência e Neurobiologia do Desenvolvimento Humano
![]() |
| "Hoisting Our Dreams into the Light of Another Sun" - The Magic Realism of Paul Bond |
Para a pesquisa, foram recrutados centenas de analistas, colunistas, acadêmicos e leigos interessados em competir em torneios de previsão nos quais lhes eram apresentados eventos possíveis e lhes pediam para avaliar suas probabilidades. Após 20 anos de estudo e 28 mil previsões catalogadas, utilizando uma metodologia de comparação entre o conjunto de probabilidades que cada prognosticador fez, com os resultados posteriores da realidade dos fatos, os especialistas tiveram resultados, em média, semelhantes a um "chimpanzé lançando dardos em vez de pegando bananas".
Entre 2011 e 2015, Philip Tetlock e a psicóloga Barbara Mellers recrutaram novamente vários milhares de competidores para participar de um torneio de previsões realizado pela organização de pesquisa da federação de agências de inteligência americanas. Os resultados novamente mostraram a aleatoriedade da capacidade humana de oferecer prognósticos mais precisos (os pesquisadores jamais esperariam 100% de acertos, como qualquer pesquisa de probabilidades) sobre acontecimentos futuros baseados em dados e informações da atualidade.
Contudo, em ambos os torneios, os pesquisadores conseguiram identificar uma população que chamaram de "superprognosticadores", "cujo desempenho foi melhor não somente que o de chimpanzés e especialistas, mas também superior ao de profissionais da inteligência com acesso a informações confidenciais". Na lente da ciência, essa aparente "clarividência" reflete uma combinação de estatística com a capacidade de alguns indivíduos para utilizar os dados da atualidade e, de forma probabilística, lançar previsões mais precisas sobre o resultado de eventos no futuro. Curiosamente, a precisão cai para todos os participantes, ao nível do acaso, num período médio de 5 anos.
Conforme escreveu Pinker, "os que previram com desempenho pior foram aqueles com Grandes Ideias (...), em que acreditavam com uma confiança inspiradora (mas equivocada)".
Ainda sobre as pessoas com o pior desempenho nas previsões, Tetlock e Gardner (2015), apud Pinker (2018), no livro "Superforecasting: The Art and Science of Prediction" (Superprognosticadores: A Arte e a Ciência da Predição), escreveram:
"Por mais diversos que fossem do ponto de vista ideológico, eles estavam unidos pelo fato de que seu pensamento era muito ideológico. Procuravam enfiar problemas complexos nos modelos de causa-efeito preferidos e trataram o que não cabia como distrações irrelevantes. Alérgicos a respostas fracas, continuavam levando suas análises ao limite (e além) usando termos como 'afora isso' e 'ademais', enquanto amontoavam as razões pelas quais estavam certos e os outros, errados. Em consequência, eram incomumente confiantes e com maior probabilidade de declarar que as coisas eram 'impossíveis' ou 'certas'. Comprometidos com suas conclusões, relutavam em mudar de opinião, mesmo quando suas previsões falhavam claramente. Eles nos diziam: 'Esperem só'".
Outra curiosidade que os estudos mostraram, foi a característica dos especialistas ruins em previsões. Geralmente, eram pessoas que conseguiam chamar a atenção do público e, quanto mais famosos e quanto mais perto o evento estivesse de sua área de expertise, menos precisas eram suas previsões. Pinker sugere que precisaríamos, diante desses achados, revisar o conceito de especialista.
Já os superprognosticadores de Tetlock eram "especialistas pragmáticos que recorriam a muitas ferramentas analíticas, e a escolha da ferramenta dependia do problema específico que encaravam. Esses especialistas reuniam tantas informações de tantas fontes quanto podiam. Ao pensar, com frequência mudavam a cadência de seu raciocínio, pulverizando seu discurso com marcadores de transição, como 'no entanto', 'mas', 'embora' e 'por outro lado'. Falavam de possibilidades e probabilidades, não de certezas. E embora ninguém goste de dizer 'eu estava errado', esses especialistas admitiam isso com mais rapidez e mudavam de ideia".
Resumidamente, de acordo com Pinker (2018), quais seriam as principais características dos superprognosticadores?
1)São inteligentes, mas não necessariamente brilhantes;
2)São capazes em matemática, mas no sentido de pensar em estimativas;
3)Possuem traços de personalidade como Abertura para Experiências (curiosidade intelectual e gosto pela variedade), Necessidade de Cognição (sentem prazer na atividade intelectual) e Complexidade Integrativa (apreciar a incerteza e ver múltiplos referenciais);
4)Não são impulsivos, ou seja, desconfiam do seu primeiro instinto;
5)Politicamente, não são de esquerda nem de direita (seriam rotulados de "isentões" por extremistas);
6)São humildes em relação a determinadas crenças, tratando-as como "hipóteses a ser testadas, e não tesouros a ser guardados";
7)Perguntam-se sempre: "Há furos nesse raciocínio? Devo procurar outra coisa para inferir isso? Eu me convenceria disso se fosse outra pessoa?";
8)São atentos aos "pontos cegos cognitivos", como os vieses de disponibilidade e confirmação;
9)Atualizam suas crenças à luz de novas evidências;
10)Evitam reações emocionais extremas, tanto para mais ("Isso muda tudo!") como para menos ("Isso não significa nada!").
Indivíduos com essas características concebem o valor da sabedoria coletiva, aceitam críticas e conseguem colocar suas hipóteses na mesa para que sejam testadas, aprovadas ou refutadas. Conseguem somar conhecimento, respeitam o acaso e as probabilidades, e se opõem à necessidade de um destino (PINKER, 2018).
Considerei esse assunto pertinente para o Blog devido à importância que a capacidade para abertura, flexibilidade, resiliência e adoção de múltiplos referenciais têm para o nosso processo adaptativo. Existem mecanismos propostos pela psicologia que poderiam explicar a rigidez e inflexibilidade que algumas pessoas apresentam. Na psiquiatria e na psicopatologia, as crenças humanas assumem um posicionamento central na avaliação de um paciente. Através do discurso, da escrita ou de suas condutas, conseguimos identificar crenças disfuncionais que atormentam pessoas com transtornos mentais. Elas podem manifestar-se através de ideias sobrevaloradas (ou prevalentes), ideias obsessivas e ideias delirantes. Contudo, essas três formas de avaliação do conteúdo do pensamento referem-se ao adoecimento. E quando estamos diante de indivíduos que defendem suas crenças com atitudes inflamadas, preconceitos, negação e hostilidade?
Novamente, Pinker (2018) fornece uma explicação interessante:
"Quando se defrontam pela primeira vez com informações que contradizem uma posição estabelecida, os indivíduos ficam ainda mais comprometidos com ela, como esperaríamos das teorias da cognição protetora da identidade, do raciocínio motivado e da redução da dissonância cognitiva. Sentindo sua identidade ameaçada, os crentes redobram-se e juntam mais munição para se defender da contestação. Mas, uma vez que outra parte da mente humana mantém a pessoa em contato com a realidade, à medida que as provas ao contrário se acumulam, a dissonância pode aumentar até que se torna insustentável e a opinião tomba, em um fenômeno chamado ponto de ruptura afetiva. Esse ponto de virada depende do equilíbrio entre o quanto a reputação daquele que acredita seria prejudicada ao renunciar à sua opinião e se as provas em contrário são tão evidentes e públicas que se tornam conhecimento comum: um imperador nu, um elefante na sala".
Costumo dizer que uma ideia, uma crença ou uma ideologia, cultural e socialmente sancionadas (ou seja, não vale matar pessoas explodindo-se "por uma causa" para depois se encontrar com 72 virgens no paraíso), não definirão necessariamente um indivíduo, mas sim o uso que o mesmo faz delas, como se posiciona no mundo e se relaciona com outras pessoas que possuem referenciais opostos ou diferentes.
REFERÊNCIAS
Pinker S. O novo iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo. 1a ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
Tetlock PE, Gardner D. Superforecasting: The Art and Science of Prediction. Nova York: Crown, 2015.
Tetlock PE, Mellers BA, Scoblic JP. Bringing Probability Judgments into Policy Debates via Forecasting Tournaments. Science. 2017; 355:481-483.
Por Décio Gilberto Natrielli Filho


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Contribua para o Blog Desvendando a Personalidade !!! Deixe sua mensagem !!!