Blog Desvendando a Personalidade
A Neurociência e Neurobiologia do Desenvolvimento Humano
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| "A Beautiful Endeavor" - The Magic Realism of Paul Bond |
Na sua função de investigar os fenômenos, como são vivenciados, através da experiência consciente singular do outro, a fenomenologia tem sido criticada de ignorar ingenuamente as estruturas sociais, políticas e históricas que englobam as experiências com significado compartilhado (STANIER, 2022). Contudo, é função de todo observador criterioso considerar diversos referenciais ao analisar os fenômenos da natureza, por mais complexos e arborizados que pareçam.
No "Dicionário de Filosofia" de Abbagnano (2000), a fenomenologia é definida como a "descrição daquilo que aparece ou ciência que tem como objetivo ou projeto essa descrição". Para Kant, o fenômeno seria o objeto do conhecimento humano, filtrado pela função intuitiva e cognitiva do indivíduo. Em suas palavras, Kant afirmou que o fenômeno "é o que não pertence ao objeto em si mesmo, mas se encontra sempre na relação entre ele e o sujeito, e é inseparável da representação que este tem dele. Por isso mesmo, os predicados do espaço e do tempo são atribuídos aos objetos dos sentidos como tais, e nisso não há ilusão. Ao contrário, se atribuo à rosa em si a cor vermelha, a Saturno os anéis ou a todos os objetos externos em si a extensão, sem levar em conta a relação desses objetos com o sujeito e sem limitar meu juízo a esta relação, então nasce a ilusão".
Mais adiante, surge a contribuição husserliana do conceito de essência para os fenômenos. Husserl aproximou-se ainda mais da relação íntima, ainda que subjetiva, entre o observador e o fenômeno. Para este autor, o fenômeno não seria uma manifestação natural ou espontânea do mundo, mas sim sua tradução através das funções psíquicas humanas. Todavia, após as leituras de Jaspers direcionadas ao campo da psicopatologia, o foco de Husserl no conceito de essência o distanciou da aplicação prática para a avaliação dos pacientes psiquiátricos.
Uma observação psiquiátrica interessante desses conceitos é o fato dos filósofos e psicopatologistas, a priori, dividirem as experiências entre observador e fenômeno, como se fossem unidirecionais, considerando a intenção ativa do profissional de descrever o fenômeno e a intenção ativa do paciente de ser compreendido ou, dependendo da gravidade do seu adoecimento, ser passivamente e involuntariamente submetido a uma avaliação. Contudo, na realidade, temos o encontro de dois fenômenos, dois humanos conscientes, ambos com vivências íntimas, subjetivas e singulares, interagindo de forma bidirecional. Ou seja, os pacientes também constroem um modelo fenomenológico dos seus profissionais, baseados no seu sistema de conhecimento adquirido durante as etapas do seu desenvolvimento.
Neste sentido, aquela tendência unidirecional da fenomenologia ficaria mais restrita apenas a situações nas quais o paciente apresentaria um rebaixamento da consciência, deficiência intelectual grave ou extremos de idade, com imaturidade ou comprometimento cognitivo.
Muitos conceitos adotados no passado pela psicopatologia baseiam-se na postura antiga do médico psiquiatra como ser dotado de amplo conhecimento, neutralidade científica e até frieza na interpretação dos fenômenos psíquicos. Entretanto, na leitura moderna, os profissionais se considerariam como objetos da lente fenomenológica de seus pacientes. Isso, aparentemente, aumentaria as variáveis para a avaliação psicopatológica. Mas não seria de fato o que aconteceria, porque a subjetividade já é, por si só, tendenciosa para variáveis infinitas. Assim como dois ou mais infinitos não se anulam em modelos matemáticos, dois ou mais fenômenos subjetivos podem ser agrupados e analisados como um todo.
Jaspers escreveu que "à fenomenologia compete apresentar de maneira viva, analisar em suas relações de parentesco, delimitar, distinguir da forma mais precisa possível e designar com termos fixos os estados psíquicos, que os pacientes realmente vivenciam. Visto que não se pode perceber diretamente um fenômeno psíquico de outrem, assim como se percebe um fenômeno físico, só se poderá tratar de representação, de empatia e compreensão (...)". "Exige-se na histologia que se leve em conta na investigação do córtex cerebral todo filamento, todo grãozinho. De maneira identicamente análoga exige a fenomenologia: deve-se dar conta de todo fenômeno psíquico, de toda vivência que aparece na exploração do paciente e em suas descrições próprias. De forma alguma, alguém se deve dar por satisfeito com uma impressão geral e alguns detalhes escolhidos ad hoc".
O objetivo da fenomenologia para os pacientes, segundo Jaspers, seria reproduzir de forma vívida o fenômeno vivenciado pelo doente, rever suas inter-relações, delimitá-las o quanto possível, diferenciá-las e nomeá-las com uma terminologia de referência (HÄFNER, 2015), a qual levaria a um diagnóstico.
Fenomenologia nos Transtornos da Personalidade
Aqui, o desafio seria o profissional, ou qualquer estudioso do tema, tentar compreender ao máximo as vivências subjetivas dos pacientes. Muitos indivíduos, se não a maioria, não apresentam sintomas comportamentais que poderiam ser observados diretamente, como um episódio de agitação ou sintomas psicóticos num pronto-socorro. Mesmo com um sofrimento importante e com pensamentos que podem levar a tentativas de suicídio, pessoas com transtornos da personalidade podem não conseguir expressar o que sentem com tanta facilidade. Em função de suas defesas, muitas delas primitivas, mostram-se resistentes nos atendimentos, com desconfiança, raiva, desespero, angústia, vazio, insegurança e medos de todos os tipos. Alguns se encontram num estado de alerta, sensíveis a qualquer mudança nas expressões das pessoas. Outros se mostram esgotados e sem reações às estratégias de escuta e acolhimento.
Portanto, a tentativa de aproximação da essência de cada indivíduo com transtorno da personalidade é um dos maiores desafios da prática clínica. Seria através da compreensão dos fenômenos que os profissionais poderiam direcionar as estratégias terapêuticas.
Sabemos pela vasta literatura dos séculos XX e XXI quais seriam os principais sintomas e vivências relatadas pelos pacientes. Neste sentido, muitos psiquiatras tentam realizar um cruzamento entre os relatos subjetivos de seus pacientes e os critérios diagnósticos disponíveis nos manuais.
Em qualquer transtorno mental, o profissional deve investigar a história do desenvolvimento dos pacientes. No caso da personalidade, os principais eventos que teriam impactado e moldado os conceitos que o indivíduo estruturou em relação ao seu self e o mundo são determinantes. Contudo, na maior parte das vezes, constituem memórias que se consolidaram através de um viés pessoal, singular, com representações e valências muito individuais. Essa característica subjetiva das memórias é a regra no ser humano. Novamente, no setting terapêutico e clínico, o que nos aparece é um universo construído através da intersecção de eventos aleatórios da vida e as vivências subjetivas de cada um. Os fenômenos com os quais lidamos são, portanto, a própria subjetividade.
Na fenomenologia, a singularidade de cada paciente é o fenômeno a ser avaliado. Este seria um ideal estético e, como tal, impossível de ser atingido por qualquer ser humano. Até o momento, a compreensão da essência psíquica de outro ser, em sua totalidade e complexidade, pertence ao campo da ficção.
REFERÊNCIAS
Abbagnano N. Dicionário de Filosofia. 4a ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
Fuchs T, Messas GP, Stanghellini G. More than Just Description: Phenomenology and Psychotherapy. Psychopathology. 2019; 52: 63-66.
Häfner H. Descriptive psychopathology, phenomenology, and the legacy os Karl Jaspers. Dialogues Clin Neurosci. 2015; 17:19-29.
Jaspers K. Psicopatologia geral. São Paulo: Editora Atheneu, 2000.
Neubauer BE, Witkop CT, Varpio L. How phenomenology can help us learn from the experiences of others. Perspect Med Educ. 2019; 8: 90-97.
Stainer J. An Introduction to Engaged Phenomenology. The Journal of the British Society for Phenomenology. 2022; 53(3): 226-42.
Por Décio Gilberto Natrielli Filho

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