Blog Desvendando a Personalidade
A Neurociência e Neurobiologia do Desenvolvimento Humano
Segundo Jean-Paul Sartre "a pessoa que está mais bem aparelhada para compreender a morte é a pessoa que está morta". Portanto, para penetrar na intimidade de um indivíduo que decidiu se matar deve-se, inicialmente, contornar alguns problemas metodológicos: nunca se pode saber o que se passava na cabeça do suicida, a não ser pelos seus próprios relatos. Focalizando o ser individual e único como o objeto de estudo, algumas propostas teóricas qualitativas foram sugeridas para analisar clinicamente o suicídio: epidemiologia, entrevista com terceiros (às vezes chamada de autópsia psicológica), o estudo de sobreviventes de suicídio (atos não fatais), relatos de psicoterapia e o uso de documentos, por exemplo: bilhetes de adeus e diários. (WANG & RAMADAM, 2004).
Em 1897, Émile Durkheim definiu o conceito de suicídio como: “Todo caso de morte que resulta direta ou indiretamente de um ato positivo ou negativo realizado pela própria vítima, a qual sabia dever ele produzir este resultado. A tentativa é o ato assim definido que falha em levar à morte”. Esse autor assumiu que toda pessoa que decide por fim à sua própria vida tem, necessariamente, uma representação antecipada da própria morte (f), levando-se em conta o ato iniciado pela vítima (a) e que a levou à morte (b). Faltam à definição de Durkheim a noção de intencionalidade de se matar (g), perda da vontade de viver (d) e motivação para estar morto (e), não necessariamente correlacionados entre si (MELEIRO & BAHLS, 2004).
Conforme escreveram Meleiro e Correa (2018):
"Em uma revisão entre 1959 e 2001, englobando 15.629 suicídios ocorridos na população geral, demonstrou-se que em 97% dos casos havia um diagnóstico de transtorno mental à época do ato fatal. Tal estudo registrou um elo consistente entre os dois grupos de fenômeno: comportamento suicida e doença mental. Entretanto, não se trata de afirmar que todo suicídio relaciona-se a uma doença mental nem que toda pessoa com transtorno mental irá se suicidar. A existência de transtorno mental não contempla plenamente o porquê de o paciente tentar suicídio. Diversos indivíduos têm o transtorno mental e não pensam em terminar com a própria vida, embora a doença aumente a vulnerabilidade e esteja presente em quase todos os casos de suicídio. Transtorno mental é condição necessária, mas não suficiente para o comportamento suicida".
O suicídio é um fenômeno multifatorial que encerra, em sua essência, a liberdade de todo indivíduo de conduzir sua vida conforme o livre arbítrio.
A pergunta que devemos fazer é: será que todo suicida está com sua capacidade psíquica preservada para fazer uma escolha que interrompa sua existência?
Sabemos, conforme descrito acima, que a vasta maioria dos suicidas apresenta algum transtorno mental, muitas vezes associado a outras características epidemiológicas que podem favorecer uma conduta de autoextermínio: homens usam métodos mais letais que mulheres; solteiros, viúvos ou divorciados, com pouco suporte social ou familiar; desempregados com problemas financeiros, abuso ou dependência de álcool e drogas; traço de personalidade impulsiva, sentimentos de desespero e desesperança; ter porte de arma; isolamento social e solidão; profissões específicas (por exemplo: médicos, enfermeiros, policiais, dentistas); falecimento recente de um familiar ou amigo próximo; antecedente de suicídio na família; história de abuso, violência e negligência na infância.
Contudo, epidemiologia não é destino e todos os casos de pessoas com ideias de suicídio deveriam receber atenção especializada. Relativizar a dor psíquica do outro baseado em referenciais pessoais demonstra carência de empatia e de conhecimento sobre o assunto.
Há quem diga que o suicídio é um fenômeno natural e constante, ou seja, sempre haverá pessoas candidatas a acabar com suas vidas, independente das intervenções adotadas. Contudo, não é motivo para desistir ou negligenciar. Devemos tentar ajudar aqueles que, por diversos fatores, encontram-se vulneráveis e desesperançosos.
A importância da campanha "Setembro Amarelo" está na repetição anual de informações que podem mobilizar as pessoas a adotarem condutas mais protetivas e preventivas àqueles que porventura manifestem sintomas psiquiátricos que flertem com o suicídio. O preconceito existe e, como todo "erro", num sentido filosófico, resulta da ignorância ou do desconhecimento.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Meleiro AMAS, Bahls S-C. O comportamento suicida. In: Meleiro AMAS, Teng CT, Wang YP, coordenadores. Suicídio: estudos fundamentais. São Paulo: Segmento Farma; 2004.
Meleiro AMAS, Correa H. Comportamento Suicida. In: Meleiro AMAS. Psiquiatria: estudos fundamentais. 1 ed. - Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018.
Wang YP, Ramadam ZBA. Aspectos psicológicos do suicídio. In: Meleiro AMAS, Teng CT, Wang YP, coordenadores. Suicídio: estudos fundamentais. São Paulo: Segmento Farma; 2004.
Por Décio Gilberto Natrielli Filho

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