A série da Netflix fornece detalhes sobre o caso envolvendo o médium de Abadiânia (Goiás), que responde a centenas de acusações relacionadas ao abuso sexual de mulheres que frequentavam seu centro de tratamento espiritual. As informações são, no mínimo, chocantes e revelam um padrão de comportamento isento de qualquer valor ético, moral ou religioso. Podemos notar que existem pessoas que resistem em acreditar que este homem, que se denominava "de Deus", poderia ser capaz de agir de forma tão cruel e covarde, por tanto tempo e com uma consistência de atrocidades de violação da dignidade feminina.
Leandro Karnal escreveu que entende "a reação de muitos ao relativismo ou, pelo menos, a observar rachaduras no edifício da certeza. As convicções foram edificadas exatamente para defesa e não para a busca de um pensamento mais denso. É contra o pensamento científico que as afirmações enfáticas crescem. Complexo entender a definição de Einstein sobre o que seja ciência: o estado atual dos nossos erros. A dúvida incomoda muito e, não obstante, dela nasce quase toda transformação científica ou de valores".
Logo em seguida, Karnal questiona até onde podemos ir na contestação de fatos ou na nossa liberdade diante das condutas: "Onde termina qualquer relativismo? Tenho repetido há décadas: termina nos valores básicos da convivência dentro da lei e da ética. Exemplo: racismo, pedofilia, misoginia e homofobia não podem ser relativizados. Nunca poderei afirmar: 'Fulano é pedófilo, mas é o jeito dele e temos que respeitar'. Estamos falando de crimes, de falta de inteligência e demonstração de incapacidade social. A pessoa que exclui outra da dignidade humana, do respeito e da diversidade como valor pode ser interpretada pela Psiquiatria, nunca relativizada pelas Ciências Humanas. Posso tentar explicar, jamais relativizar".
O psicopata consegue, com seus métodos perversos, fazer com que as vítimas questionem se os abusos sexuais sofridos teriam realmente ocorrido. Ou se aquelas condutas seriam algum tipo de técnica de cura...
Simulações, seduções, ausência de sentimentos de empatia, culpa ou remorso. A arte de culpar o outro por seus atos, dissimular, atribuir suas ações a "entidades" incorporadas, aproveitar-se do sofrimento alheio e da vulnerabilidade do outro para um gozo primitivo e cruel.
Uma postura de (pseudo)humildade num "artista" que simulava diante de pessoas desesperadas sua suposta relação com entidades evoluídas. Para muitos, uma personalidade que trazia segurança, tranquilidade e apoio. Agregava, ao seu redor, personalidades sugestionáveis e comandava uma cidade através da ameaça, poder e centralização da economia na sua figura.
Aprendi desde cedo que, em psicopatologia e psiquiatria, não devemos interpretar ou interferir nos fenômenos religiosos ou nas crenças culturalmente sancionadas. E assim continuo, com muito respeito e apoio à diversidade dos credos. A história do tal João mostra um movimento de crença baseada num líder messiânico, enganador, abusador e antissocial, um caso para a Polícia e a Lei.
REFERÊNCIA
Karnal L. "O Coração das Coisas". São Paulo: Contexto, 2019.
Décio Gilberto Natrielli Filho

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