domingo, 30 de maio de 2021

Privação do Sono em Adolescentes Durante a Pandemia

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Costumo dizer que se alguém desejar estressar qualquer animal que tenha um ciclo circadiano semelhante ao nosso, induzir a privação do sono é um dos melhores caminhos. Privar qualquer pessoa de dormir pode ser considerado uma tortura. O sono é fisiológico, involuntário e necessário para a estabilidade do organismo. É durante o sono que o cérebro irá trabalhar em modo offline para o restabelecimento dos padrões neurofisiológicos e para a consolidação de memórias, reforçando o aprendizado e as funções cognitivas.

O foco desta postagem não é falar diretamente sobre os transtornos do sono, mas alertar sobre as mudanças de comportamento que os adolescentes estão apresentando desde o início das restrições relacionadas à pandemia, no início de 2020.

Observo, em todas as atividades que exerço como psiquiatra, que a maioria dos adolescentes estão com a tendência de “lutar” contra o sono, ativamente invertendo as fases do ciclo do sono. Como? As respostas que recebo são de uso excessivo do celular, computador e videogame. Redes sociais, jogos, séries e vídeos concentram os interesses desses jovens com cérebros ainda imaturos e vulneráveis a todos os tipos de estressores ambientais.

Quando pergunto sobre as queixas clínicas, respondem que estão com “insônia”. Como qualquer anamnese, vou dissecando os detalhes desse suposto distúrbio e questiono os horários que iniciam o sono e que despertam. Em sua grande maioria, as respostas revelam que os adolescentes adormecem em algum momento da madrugada, tem um sono que dura entre oito e doze horas (!!!) e vão acordar pouco antes ou depois do meio-dia. Portanto, estão dormindo, mas em horários incompatíveis com o ciclo circadiano humano.

Adotar um padrão de sono como esse durante um período de férias é compreensível. Entretanto, muitos sustentam o quadro há mais de um ano, como consequência direta das mudanças nas rotinas impostas pela pandemia – isolamento, distanciamento social, aumento do sedentarismo, mudanças na alimentação, estresse familiar, aulas online, afastamento do ambiente escolar, maior exposição a telas de computador e menor exposição à luz solar. Não fomos moldados durante a evolução das espécies para inverter um padrão até o momento selecionado durante milhares de anos.

Conforme afirmaram Soster & Lopes (2019), “a adolescência é um período transicional, caracterizado por intensas modificações somáticas e comportamentais. As mudanças hormonais incluem uma cadeia de alterações no ciclo sono/vigília. Essas alterações levam a atrasos de fase e privação de sono, com consequências importantes na vida do adolescente. Nessa fase do desenvolvimento, pode-se dizer que o padrão de sono é um resultado de uma 'tempestade perfeita': a combinação de condições comportamentais (psicológicas, sociais e culturais) e biológicas que predispõem ao atraso de fase de sono e consequente privação de sono crônica”.

“O horário do início das aulas influencia diretamente na quantidade de sono do adolescente em diversas culturas, atuando como fator restritivo. A demanda e o volume de estudos, sonecas diurnas, atividades extracurriculares são também determinantes na quantidade de sono. Somando-se isso aos atuais maiores estímulos pelo uso de aparelhos eletrônicos, mídias sociais, conteúdos de internet, o atraso de fase no sono torna-se, inclusive, interessante ao adolescente. E como, não apenas ele, mas também os colegas estão acordados ao mesmo tempo e se comunicando, isso funciona como um fator perpetuador. O uso de telefones celulares e aplicativos de mensagens de texto está relacionado diretamente com o aumento da sensação de cansaço, não havendo quantidade de tempo segura tanto para falar ao telefone quanto para troca de mensagens de texto” (SOSTER & LOPES, 2019).

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PRINCIPAIS SINTOMAS PSIQUIÁTRICOS

Quais seriam as consequências dessas mudanças comportamentais do ciclo sono-vigília nos adolescentes? Posso elencar diversas e penso que esse período de distanciamento e isolamento da pandemia poderá revelar mais sequelas sobre o vulnerável psiquismo dos jovens.

O humor é um elemento do funcionamento mental bastante sensível ao estresse. A privação do sono, mesmo que intencional, mas atipicamente persistente, pode aumentar os níveis de irritabilidade, referida pelos pacientes como “nervosismo” ou “falta de paciência”. A irritabilidade, dependendo dos fatores da personalidade em formação, pode evoluir para acessos de raiva e explosões de ira ou fúria. Dependendo dos traços de impulsividade, essas alterações do humor irão influenciar diretamente os familiares.

Sintomas depressivos são comuns em pessoas submetidas à privação do sono e invariavelmente levam a um diagnóstico de depressão. Transtorno de ansiedade também piora com o atraso de fase do sono. Muitos adolescentes, já com sintomas depressivos e ansiosos secundários às mudanças persistentes do ciclo circadiano, deitam em suas camas e ficam ruminando ideias de todos os tipos. É na solidão da madrugada, sozinhos e indevidamente alertas, que os adolescentes são assombrados pelos seus demônios internos: preocupações com o corpo e auto-imagem, aceitação pelos grupos, auto-estima, insegurança, medos e memórias traumáticas.

Com o tempo, ocorre a queda do rendimento escolar, muitas vezes associada ao prejuízo da atenção e da capacidade da memória para reter informações. Pensando na privação de sono como um estresse crônico, ocorre a ativação do eixo hipotálamo-hipofisário-adrenal, que eleva de forma persistente o cortisol. Este último, no estresse crônico, afeta uma importante região cerebral associada à memória: o hipocampo. É muito difícil na prática quebrar este ciclo tóxico que se estabelece. Contudo, como veremos mais adiante, as recomendações são relativamente simples e podem dispensar qualquer uso de medicação.

Casos mais graves de adolescentes com predisposição à depressão, pouco suporte familiar, vítimas de violência doméstica, abusos e negligência, abuso de álcool e drogas, podem evoluir para ideias e tentativas de suicídio. Atualmente, as automutilações tornaram-se uma febre dentro dessa faixa etária e não necessariamente refletem um desejo de morrer. Contudo, já evidenciam que algo não está evoluindo bem e caracterizam um importante foco de atenção em saúde mental.

A privação de sono também está associada à obesidade e aumento da resistência insulínica. Novamente, é durante a madrugada que episódios de compulsão alimentar podem ocorrer. Os adolescentes dizem em consulta que estão com “ansiedade para comer” e que “descontam na comida”. Aparecem também as somatizações, como “dores no estômago” (epigastralgia), azia (pirose), “queimação”, dores no peito, dores musculares, cefaleia, “tontura” (vertigem), desânimo e falta de energia.

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ESTRATÉGIAS PARA PREVENÇÃO E TRATAMENTOS

Conforme mencionado anteriormente, as estratégias para a prevenção de transtornos do sono e outras comorbidades psiquiátricas parecem relativamente simples. Entretanto, muito dependerá do ambiente e da “cultura” familiar relacionada ao estabelecimento de rotinas e, principalmente, à disciplina do funcionamento dos adolescentes.

Dentro das possibilidades, espera-se que um adolescente desperte relativamente cedo pela manhã e inicie seus estudos. No período da tarde, pode continuar a estudar, completar com atividades extracurriculares (por exemplo: música, teatro, línguas) e esportivas, ou simplesmente descansar, namorar e ter algum lazer. Nos fins de semana, a flexibilidade para eventos sociais geralmente é maior, permitindo que a pessoa reforce sua rede de relacionamentos.

Para que essa rotina ideal aconteça (importante dizer que o ideal é utópico e que a normalidade é estatística), espera-se que, no período noturno, que inclui a madrugada, o indivíduo possa dormir e se beneficiar de todos os processos neurofisiológicos relacionados ao sono.

Para que o sono chegue no período da noite, é importante (parece óbvio, mas aqui reside o problema central) que a grande maioria das pessoas desperte relativamente cedo, passe o dia realizando atividades, tire uma soneca de no máximo 30 minutos após o almoço se desejar, faça suas alimentações corretamente e aguarde o sono chegar sem estímulos excitatórios. Portanto, recomenda-se que as atividades físicas sejam realizadas pela manhã ou à tarde (de preferência, mas se não puder faça a noite mesmo!) e que não haja o consumo de cafeína ou outras bebidas estimulantes após as 14 horas.

Quando a noite chegar, use a cama somente para dormir (ou namorar!). Procure não ficar deitado na cama assistindo televisão e comendo. Tome um banho que relaxe, assista algum programa ou filme, leia e não abuse na alimentação (este é difícil). Adolescentes que começam a usar cannabis ou bebida alcoólica à noite, muitas vezes o fazem como forma de relaxar. O álcool pode parecer que induz o sono, mas, na realidade, compromete a arquitetura do mesmo. A maconha, na adolescência, está associada a um risco estatisticamente maior de quadros psicóticos, inclusive esquizofrenia, na idade adulta.

Caso as estratégias comportamentais, chamadas de higiene do sono, não funcionem, sugere-se a procura por um profissional para que o adolescente seja avaliado. Transtornos de insônia ou de fase do sono podem estar associados a outras condições clínicas e, nestes casos, devem ser devidamente investigados para que o tratamento seja instituído. Exames laboratoriais, de neuroimagem e a polissonografia são solicitados. Dependendo do diagnóstico médico, o uso de medicamentos específicos pode ser indicado.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Soster LA & Lopes MC. Sono e Comportamento na Adolescência. In: Lopes MC, Eckeli AL, Hasan R. Sono e Comportamento. 1 ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 2019.

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