domingo, 12 de setembro de 2021

Em Terra de Cego, Quem Tem um Olho é Rei?

Blog Desvendando a Personalidade

A Neurociência e Neurobiologia do Desenvolvimento Humano

Fonte da imagem sem o texto: Elizabeth Melchiades em https://br.pinterest.com/bethmelchiades

Em seu conto "O País dos Cegos", H. G. Wells (1866-1946) cita o conhecido provérbio "Em terra de cego, quem tem um olho é Rei", numa clássica crítica a questões envolvendo pessoas com uma suposta visão singular ou revolucionária sobre o mundo e as possíveis reações de uma sociedade engessada e obtusa. Vale mencionar que, em tempos de críticas politicamente corretas, a metáfora da "cegueira" utilizada neste texto do início do século XX poderia receber um desconto e não ser diretamente associada a uma conotação de inferioridade de pessoas deficientes visuais. 

Neste conto, o personagem Nunez, procedente de Bogotá, acidentalmente encontra um lugar, até então lendário, onde as pessoas que lá viviam por muitas gerações foram acometidas por uma doença ou condição que as levava à cegueira. Assim, quando Nunez chega àquele recanto isolado e percebe que todos os seus habitantes eram cegos, o famoso provérbio torna-se uma das suas principais ideias - de como poderia utilizar-se da sua preservada visão para mostrar ao povo sua superioridade. 

Contudo, aqui entra a genialidade do escritor, que em sua narrativa demonstra a inesperada estranheza dos habitantes em relação aos relatos de Nunez sobre o mundo, incluindo o uso de palavras para eles estranhas, como "visão", "vista", "ver", "olhar" e "cego". Não compreendiam o que Nunez dizia quando se referia a algo que enxergava ou se manifestava através da sua visão. Com o tempo, os anciãos da comunidade passaram a interpretar seu discurso como o resultado de "sentidos imperfeitos", de que ele ainda estava "em formação" ou, como concluiu um ancião, que teria uma "mente mal formada".

Conforme os conflitos entre Nunez e os habitantes se desenrolavam, maior se tornava a tensão entre a forma como o personagem descrevia a realidade e como o povoado a conhecia. Todavia, todos eram bem adaptados à cegueira e tinham suas rotinas, que eram atípicas para Nunez. Suas tentativas de se integrar à sociedade não evoluíram com sucesso e, em determinada conversa, um médico levantou a hipótese de que aqueles olhos que conseguiam palpar na cabeça de Nunez estavam deixando ele doente.

"(...) Estas coisas extravagantes a que chamamos de olhos, cuja função é criar essa depressão macia e agradável em nosso rosto; eles estão doentes (...), e de uma maneira que afeta sua mente". 

Assim, o médico concluiu: "Acho que posso dizer com razoável segurança que, para curá-lo completamente, tudo que temos a fazer é uma cirurgia simples - ou seja, remover esses órgãos que o estão incomodando".

Segundo Braulio Tavares, a primeira versão do conto foi escrita por Wells em 1904 e, sentindo-se "cada vez mais pressionado e perseguido no vale habitado pelos cegos, e incapaz de traduzir em resultados práticos sua aparente superioridade", Nunez foge do povoado ao ver-se ameaçado com a perda da visão e acaba morrendo isolado na neve da montanha. A segunda versão, de 1939, reflete os acontecimentos anunciados nessa fase sombria do século XX e que culminou com a ascensão de regimes nazistas e totalitários. Nunez consegue sobreviver juntamente com a mulher pela qual se apaixona e, após o povoado ser devastado por uma avalanche de lama que ele tentou de todas as formas alertar para salvar seus habitantes, mudam-se para Quito, onde constituem uma família com filhos.

As explicações sobre as ideias latentes do conto geralmente enfatizam a dificuldade que algumas pessoas, talvez geniais e com pensamentos revolucionários, enfrentam para serem aceitas e validadas pelas sociedades. Realmente, na história da ciência, são frequentes nas biografias de gênios da humanidade a resistência que enfrentaram diante das suas descobertas e paradigmas científicos. O mesmo ocorre com movimentos sociais, culturais, religiosos e políticos. 

No campo da psiquiatria, distorções são comuns quando se tenta relativizar o adoecimento psíquico como uma dificuldade dos médicos em compreender os "loucos" e excluídos da sociedade. Nessa leitura, psiquiatras seriam obtusos e engessados em suas concepções sobre saúde, liberdade e doença - não compreenderiam aqueles que se apresentam com ideias diferentes, excêntricas, conspiratórias e associais. A "medicalização" dos pensamentos e condutas seria uma forma de controle e punição a uma população de excluídos. Uma internação médica psiquiátrica seria uma privação da liberdade, mesmo que o paciente tenha comportamentos que coloquem sua vida em risco. Exceto por alguns transtornos que simulam doenças ou amplificam os sintomas com a intenção de se obter atenção médica, os seres humanos geralmente não desejam ser internados num hospital por tempo prolongado, nem para tratar de doenças do coração, pulmão, rins, fígado ou cérebro. Relativizar não é o mesmo que negligenciar. Relativizar não é o mesmo que negar a existência dos transtornos mentais. Relativizar é importante para utilizar todo o conhecimento adquirido com a evolução da neurociência e indicar o melhor tratamento para um paciente. 

Infelizmente, a medicina, por sua história que remonta a antiguidade, em todas as suas especialidades, tem muitos capítulos que não são dignos de orgulho, moral ou ético. Dizer que a medicina sempre evoluiu pautada em valores éticos reflete um desconhecimento dos fatos bem documentados em qualquer livro que trate do assunto. Muitos desses fatos ocorreram no século XX e não se restringem aos transtornos mentais. Nossa ciência foi vítima dos tempos que nos antecederam e o mesmo ocorre na atualidade. Seria ingênuo pensar que as perversões, os interesses ideológicos, econômicos e políticos estão ausentes no século XXI, e que a humanidade estaria curada de sua "cegueira".

Excessos ocorrem em qualquer polo ideológico. Quais seriam os critérios para se definir uma ideologia como fanática, perversa, desumana ou dogmática? Não seria eu que teria a ousadia de definir tais critérios. Entretanto, baseado em modelos filosóficos e psicopatológicos, posso partir de um ponto que considero importante: ideias, pensamentos, crenças e condutas, todos rígidos e inflexíveis, pautados por referenciais extremos de rigor, estética, precisão, ética, moral, religião ou ciência - encobrem a sua essência de controle, manipulação, arrogância, desprezo, negligência, intolerância, covardia e mesquinhez. Uma militância com essas características, diz muito sobre o militante ou um grupo de militantes, mas muito pouco sobre a diversidade e o diálogo. O ataque militante a uma ciência, como a psiquiatria, diz muito sobre o militante ou seu grupo, mas muito pouco sobre a psiquiatria, as doenças e os pacientes.

Voltando à metáfora politicamente incorreta, utilizada no conto de Wells, o vetor da narrativa poderia ser apontado para qualquer referencial. Ou o personagem morre isolado no gelo da montanha - refletindo a vitória da ignorância, rigidez e negação da realidade (1904). Ou o povoado, que não aceitava enxergar a realidade, é aniquilado e resta somente um casal para contar a história através de duas lentes ou referenciais (1939). Parece-me que a segunda versão é mais inclusiva e reflete um reposicionamento do autor: a verdade estaria com o casal, entre eles, com eles e, ainda assim, formando uma unidade de duas versões captadas por sentidos diferentes. O final do texto daria esse indício, da convivência entre duas pessoas, que cresceram com visões muito diferentes do mundo e que se aceitam na diferença. A "cegueira" da mulher, representante do povoado, ainda assim foi tratada como uma limitação e negação do mundo, uma inferioridade perante a capacidade do marido de poder enxergar o mundo e até cuidar melhor dos filhos. A esposa de Nunez nunca aceitaria se consultar com um oftalmologista, como questionado por uma amiga íntima:

"—Mas depois de tudo o que aconteceu? Não tem vontade de ver Nunez, de saber como ele é?

Mas eu sei como ele é, e vê-lo talvez acabasse nos afastando um do outro. Ele não estaria tão próximo de mim. A beleza do mundo de vocês é uma beleza complicada, que dá medo, e o meu mundo é muito simples e próximo. Eu prefiro que Nunez veja por mim, porque ele não sabe o que é ter medo. (...) Talvez as coisas sejam belas, mas deve ser algo terrível poder ver".

Concluindo, mesmo com nossos cinco sentidos preservados (no campo da saúde), todos sofremos, em maior ou menor grau, de alguma deficiência em outras áreas que envolveriam outros "sentidos" de nossa cognição: capacidade de empatia e interação social; aptidão para leitura de sinais sociais; disposição para a flexibilidade de ideias, convivência com diferentes credos e ciências; habilidade para dialogar e tolerar críticas ou discordâncias; inclinação para "enxergar" as necessidades do outro; habilidade de compartilhar conhecimento ou cultura; aptidão para sintonizar nossos afetos; capacidade para aceitar nossos erros, incongruências e incoerências. Portanto, deste cenário de dificuldades humanas, surgem os candidatos à "realeza", frutos de nossos instintos, medos, inseguranças, fantasias, desejos e ambições - todos refletindo uma época, um momento da sociedade, e se alternam conforme as dinâmicas imprevisíveis daquilo que chamamos de humanidade.


REFERÊNCIA

Wells HG. "O País dos Cegos e outras histórias. Tradução, prefácio e notas: Braulio Tavares. 1. ed. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.


Por Décio Gilberto Natrielli Filho.

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