segunda-feira, 20 de abril de 2020

Perversão e Beneficência em Tempos de COVID-19

FONTE: https://www.paho.org/pt

Estamos em pleno período de pandemia. O SARS-CoV-2, vírus causador da COVID-19, está se mostrando altamente contagioso, infectando de forma grave idosos e pessoas com antecedentes de diabetes, hipertensão arterial e doença pulmonar preexistente, além de outros tipos de doenças que levam a uma maior vulnerabilidade clínica. 

Contudo, não se trata de uma doença que mata somente idosos e pessoas com antecedentes de doenças clínicas. Observa-se, também, casos fatais em pessoas jovens e saudáveis. Curiosamente, esta doença nos força a iniciarmos qualquer discurso com a frase: "Ao contrário do que pensávamos antes...". O aprendizado é diário e as pesquisas disponíveis ainda não conseguiram determinar modelos consistentes que expliquem as diversas formas de comportamento do vírus na população. Até mesmo o isolamento, um mantra em períodos de epidemia, está sendo questionado em relação à sua efetividade e eficácia no controle da pandemia.

Pessoas falam de números de mortes como se isso significasse o balanço de uma empresa. Contudo, é o balanço de perdas irreversíveis. Alguns podem dizer que o vírus poupa mais as crianças e que esse fato teria um aspecto de maior respeito à "cronologia da vida", referindo-se à maior mortalidade de idosos. Os ânimos exaltados e a competição insana da mídia por "furos" e audiência, juntamente com a politização do conhecimento, colocam os "mortais" no centro de uma guerra de interesses. Aquele que conseguir, por apenas um dia, desligar suas fontes de informação, poderá perceber a insanidade do comportamento humano diante de uma pandemia que, por sorte, aparentemente, não acabará com a nossa espécie. O isolamento, necessário, dificulta a percepção da liberdade, a qual deve ser encontrada dentro de nossas casas. Líderes e pessoas detentoras do conhecimento não se atrevem a adotar um discurso que promova a colaboração e a cooperação - imediatamente aparecem abutres e oportunistas para distorcer o que foi dito, com o interesse de justificar uma determinada ideologia. Enfim, nada de novo sobre o comportamento humano... Transcendemos à necessidade de sobrevivência para a luta pelo poder.

Quando as informações não são suficientes para sustentar uma linguagem comum entre países e líderes de todos os tipos, surgem as incongruências e disputas. Até aqui, nada demais: disputar ou defender suas ideias como a melhor solução para a diminuição da mortalidade pela COVID-19. Há muitas pessoas com boas intenções, disso não há dúvida. Ainda que errem, estão dentro de uma das características do Sistema Nervoso Central (SNC) humano, que é encontrar padrões em todos os fenômenos do ambiente. Nossos cérebros são especializados em estabelecer padrões e, associada a essa proeza, temos dentro de todos nós uma motivação, ou um desejo, de testar esses modelos criados espontaneamente em nossas mentes. Isso nada mais é do que a expressão de uma das múltiplas funções que nosso cérebro possui de interagir com o ambiente. Evidentemente que essas manifestações variam entre os indivíduos, alguns mais, outros menos engajados.

Sabemos que a humanidade irá sobreviver à pandemia. Muitas perdas irreparáveis continuarão ocorrendo e uma mudança nos hábitos das populações será a nova ordem. Teremos que nos adaptar e esta é nossa essência. Adaptação e transmissão do legado correspondem à essência de todo ser vivo presente na terra.

A pandemia está mostrando que quando aparece um vírus com características que podem levar ao colapso do sistema de saúde, o comportamento de líderes e políticos está se tornando mais uma variável de risco para a humanidade. A população assiste atônita às disputas pelo poder e é bombardeada por informações, muitas vezes de fontes suspeitas e tendenciosas. Não há diálogo, já que este pressupõe uma disposição bilateral para a escuta. Neste cenário, devemos nos perguntar por que é tão difícil chegar a um denominador comum. Por que as pessoas não conseguem dialogar? Por que tanto interesse em se sobressair? Por que podemos observar aumento da ganância nesses momentos?

FONTE: https://jornalnh.com.br/noticias/mundo/2018/11/2338798-lyyderes-mundiais-participam-de-comemoraynyeo-ao-fim-da-1-o-guerra-mundial.html

Em meio ao caos que se instalou nos sistemas de saúde e às incertezas emergentes com o colapso econômico, podemos observar manifestações perversas de instituições que deveriam zelar pelo bem estar da sociedade. Acabamos presenciando exatamente um ciclo de interesses que visa ao benefício de determinado grupo. Aparentemente, a palavra "pandemia" desencadeia reações comportamentais específicas em determinadas pessoas, diria condutas predatórias. Ser predatório é um comportamento que, na evolução, ajudou muitos seres vivos a sobreviverem dentro da sua cadeia alimentar. Contudo, não estamos falando de condutas primitivas, mas sim de uma rede de comportamentos mais elaborados durante a evolução, numa espécie com um SNC mais complexo e integrado, "mais humano", cooperativo e voltado para o bem estar da sociedade. Ao mesmo tempo, temos dentro de nós aquilo que já virou um clichê na neurociência: "o cérebro reptiliano". Exatamente, temos dentro de nós estruturas cerebrais que durante a evolução mantiveram suas características e funções, exatamente como ocorrem em outras espécies que aqui estão há mais tempo que o Homo sapiens.

Para os otimistas, pelo que tudo indica, na batalha entre perversos e benfeitores, o segundo grupo irá prevalecer. Mas, em biologia, essa dualidade "bem ou mal" não funciona. Existe um gradiente de comportamentos, reações, motivações, intenções, desejos e pulsões que impedem esse raciocínio binário. Também, não há nada de desumano em pensar na sobrevivência do próprio organismo e daqueles que mais se aproximam geneticamente. É visceral, próprio de todas as espécies, proteger a si mesmo e seus descendentes, que carregam dentro de si uma parte do seu "DNA", o qual contém informações a serem perpetuadas ad infinitum.

Não podemos afirmar que nosso planeta é habitado por seres humanos que somente desejam o bem do próximo. Não podemos também dizer que todos carregam dentro de si a chama da bondade e que somente alguns poucos devem ser chamados de perversos. Esse pensamento simplista é perigoso e pode refletir aquela forma de raciocínio binário ao qual me referi no parágrafo anterior. Outro detalhe é que agir e pensar de forma binária, numa sociedade tão complexa, também pode colocar o indivíduo em risco, dificultando a adaptação diante de um gradiente de possibilidades no ambiente que o cerca.

Todos os nossos sentimentos, vontades, condutas e valores, formam um vetor final que, nesse gradiente entre os polos da "perversão e da beneficência", aponta na direção mais próxima daquele ao qual se assemelha (e este quesito será avaliado e validado pela sociedade a qual pertencemos). Seria muito pretensioso dizer que seu vetor "bate" no extremo da beneficência, considerando que todas as ações humanas podem ser questionadas, assim como os valores humanos podem variar entre as culturas. Entretanto, curiosamente, as sociedades estão acostumadas a encarcerar indivíduos com comportamentos predatórios que "batem" seu vetor no extremo da perversão. Realmente, algumas pessoas podem se enquadrar nesse polo, dependendo da gravidade dos seus atos e da forma como serão interpretados pelo grupo ao qual pertencem.

Para aqueles que teriam seus vetores apontando para o gradiente da beneficência, conformem-se com o fato de que jamais alcançarão o polo extremo. Todavia, àquele que já se julga nesse lugar, falta-lhe insight pois, quando falamos em narcisismo, é porque o vetor, na realidade, aponta para o polo da perversão.


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