terça-feira, 10 de março de 2020

A Perspetiva da Terapia Ocupacional no Tratamento dos Transtornos Mentais

Fonte: https://wallpaperaccess.com/brain

“uma saúde tal, que não somente se tem, mas que constantemente se conquista ainda, e se tem de conquistar, porque se abre mão dela outra vez, e se tem de abrir mão!"

FRIEDRICH NIETZSCHE


Esta publicação tem a colaboração da Terapeuta Ocupacional Roberta Gastaldelli Tavolaro Santos, com quem tenho o prazer de trabalhar em equipe multiprofissional no Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil M'Boi Mirim (CAPS IJ M'BOI MIRIM), do Centro de Estudos e Pesquisas "Dr. João Amorim" (CEJAM). O atendimento de pacientes com transtornos mentais graves e de difícil manejo continua um desafio para qualquer profissional especializado em Saúde Mental. Os diferentes olhares para o paciente (principal) e seu adoecimento devem ser complementares e os profissionais interagem de forma dinâmica para que todas as abordagens propostas caminhem em harmonia para o benefício do indivíduo em tratamento. Principalmente com crianças e adolescentes, as diversas técnicas terapêuticas possuem um papel decisivo na evolução do tratamento e dos resultados.

Terapeuta Ocupacional Roberta Gastaldelli Tavolaro Santos

A Terapia Ocupacional é uma profissão da área de saúde que auxilia pessoas, de todas as faixas etárias, que tenham dificuldade e/ou limitação para realizar atividades do cotidiano, buscando para tanto desenvolver habilidades e capacidades funcionais e sociais. As dificuldades para realizar tais atividades podem estar presentes em qualquer fase da vida, por qualquer razão e em decorrência de uma série de causas, entre elas cognitivas, motoras, educacionais, emocionais ou sociais e podem interferir significativamente na qualidade de vida da pessoa. Auxiliando pessoas no desenvolvimento dessas atividades, sendo esse o papel do terapeuta ocupacional, melhora-se não só o seu desempenho funcional, mas também a participação social e a saúde mental. 

De acordo com a definição de 1999 pela Universidade de São Paulo, a Terapia Ocupacional é um campo de conhecimento de intervenção em saúde, educação e esfera social, reunindo técnicas orientadas para autonomia e emancipação de pessoas, que por razões ligadas a problemáticas (físicas, sensoriais, metais, psicológicas, sociais) apresentem, temporária ou definitivamente, dificuldades na inserção e construção do cotidiano. 

O Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) define como “uma área do conhecimento, voltada aos estudos, à prevenção e ao tratamento de indivíduos portadores de alterações cognitivas, afetivas, perceptivas e psicomotoras, decorrentes ou não de distúrbios genéticos, traumáticos e/ou de doenças adquiridas, por meio da sistematização e utilização da atividade humana como base de desenvolvimento de projetos terapêuticos específicos, na atenção básica, média complexidade e alta complexidade”. 

Conforme descreveram Armonia et al. (2018), a atividade humana “é vista como um processo criativo, criador, lúdico, expressivo, evolutivo, produtivo e de automanutenção e o homem, como um ser práxico interferindo no cotidiano do usuário comprometido em suas funções práxicas objetivando alcançar uma melhor qualidade de vida. Desse modo, o profissional busca identificar alterações nas funções práxicas do indivíduo, sempre levando em consideração faixa etária ou desenvolvimento, formação pessoal, familiar e social”. 

O Terapeuta Ocupacional está inserido em todos os contextos da área da saúde, educação, de trabalho comunitário, de tecnologia assistida e, por último, e não menos importante, contribui na área da pesquisa. Especificamente, no campos da saúde mental, podemos destacar a terapia ocupacional junguiana, desenvolvida por Nise da Silveira; a socioterapia, desenvolvida por Luis Cerqueira; a terapia ocupacional psicodinâmica, impulsionada por Maria José Benetton; e os projetos de transformação em instituições hospitalares, que ocorreram em várias partes do país. 

Desse modo, os caminhos da Terapia Ocupacional nessa área levaram em consideração o contexto histórico, no qual toda a saúde passou por um processo de reconstrução, inclusive o uso da denominação “Saúde Mental”. No Brasil, a Terapia Ocupacional iniciou sua intervenção nos anos 1940 com pacientes psiquiátricos; na década seguinte, com incapacitados físicos para a remissão dos sintomas patológicos, reabilitação social e econômica dessa população. Eram utilizados o trabalho, a recreação e o exercício físico como meio de desenvolvimento e adaptação do indivíduo à sociedade. Essas três formas de atividade humana, em uma abordagem terapêutica em resposta a demandas sociais específicas, constituíram historicamente a Terapia Ocupacional (ARMONIA et al., 2018). 

Assim, o Terapeuta Ocupacional objetiva levar o indivíduo a adquirir maior autonomia no cotidiano, em suas ocupações, bem como alcançar melhor qualidade de vida. Utiliza atividades ou ocupações significativas para a vida do paciente, prezando suas necessidades e escolhas, além de considerar os aspectos dos contextos socioeconômico e cultural. “Geralmente, são encaminhados para esse profissional indivíduos que, por algum motivo, apresentam dificuldades em agir de forma autônoma nas atividades de vida diária (AVD, por exemplo: alimentação, higiene pessoal, vestuário, etc.) ou nas atividades de vida prática (AVP, por exemplo: trabalho, lazer, entre outras), ou seja, o Terapeuta Ocupacional auxilia o indivíduo a fazer o que quer ou precisa em sua vida de forma mais autônoma e satisfatória possível” (ARMONIA et al., 2018). 

No Brasil, através da influência do movimento de reforma psiquiátrica, houve a construção de uma nova postura em relação aos indivíduos acometidos por transtornos mentais. O sujeito não deveria ser visto como portador de uma doença que precisa ser controlada, mas sim como pessoa que, devido às suas diferenças, necessitaria de locais e pessoas que o ajudassem a garantir sua cidadania, a sua qualidade de vida, enfim, as suas trocas sociais e afetivas (RIBEIRO, 2005). 

A partir dos anos 2000, a Política de Saúde Mental foi orientada para a implementação e ampliação de redes de atenção psicossocial (RAPS). Segundo o Ministério da Saúde, dentre suas diretrizes, as estratégias de reabilitação psicossocial são entendidas como um conjunto de práticas que visam promover o protagonismo para o exercício dos direitos de cidadania de usuários e familiares da RAPS por meio da criação e desenvolvimento de iniciativas articuladas com os recursos do território nos campos do trabalho, economia solidária, habitação, educação, cultura e saúde, produzindo novas possibilidades de projetos para a vida. 


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Fonte: https://www.canva.com/photos/MADesePJIpU-genetic-research-and-biotech-science-concept-human-biology-technology-on-abstract-digital-background-/


A TERAPIA OCUPACIONAL NO DESENVOLVIMENTO HUMANO 

O Terapeuta Ocupacional objetiva tornar a criança capaz de desenvolver as habilidades para adquirir maior autonomia, minimizar os atrasos e prejuízos de desenvolvimento e desenvolver meios para suprir as dificuldades. Ajuda também no desenvolvimento motor, cognitivo, processamento sensorial e das habilidades do brincar e na obtenção de maior êxito nas relações sociais. O uso dos instrumentos deve ser significativo para as tarefas a serem avaliadas e para a abordagem e o direcionamento do tratamento (ARMONIA et al., 2018). 

Com relação ao brincar, os Terapeutas Ocupacionais têm demonstrado um maior interesse, não apenas como uma ocupação humana, mas também como um indicador fundamental de saúde mental do indivíduo. A habilidade de iniciar, participar, sustentar e se divertir no brincar é um indicador fundamental de saúde mental. O brincar é uma ocupação humana e apresenta variações em relação a fatores como idade, etapa do desenvolvimento, contexto cultural e normas sociais, família e estrutura social, aptidões artísticas, físicas e intelectuais e habilidades de criatividade e atenção. “O que é brincadeira para uma criança, não necessariamente é brincadeira para outra. Desse modo, o brincar tem de ser definido para cada indivíduo em termos do significado que ele atribui ao brincar”. Crianças com atrasos no desenvolvimento podem apresentar dificuldades no brincar funcional, menor interesse por brinquedos, ou interesse em parte dos brinquedos, dificuldade no brincar compartilhado, nas brincadeiras com regras, dificuldade no brincar simbólico, entre outros (ARMONIA et al., 2018). 

Neste sentido, o brincar se intersecta aos aspectos psicobiológicos do desenvolvimento humano, mais particularmente aos conceitos de Temperamento e Caráter. O Temperamento corresponde a um tipo de memória conhecida como Procedural, diferente da memória chamada de Declarativa, que corresponde ao Caráter. A primeira envolve o sistema córticoestriatolímbico (incluindo o sistema nigroestriatal, áreas corticais sensoriais, amígdala, núcleo caudado e putâmen) e a segunda o hipocampo e suas conexões ao neocórtex (NATRIELLI FILHO el al., 2008). Esses conceitos são descritos detalhadamente em outras postagens do Blog Desvendando a Personalidade. 

O Temperamento sofre significativa influência dos fatores genéticos e epigenéticos, é observável precocemente, corresponde a tendências emocionais e de aprendizado herdadas, relacionando-se ao aprendizado associativo pré-verbal (pré-semântico) e afetivo. Portanto, o conceito de Temperamento aborda a aquisição de traços e hábitos de comportamentos automáticos (com conteúdo emocional), os quais são relativamente estáveis durante o período da vida do indivíduo (NATRIELLI FILHO el al., 2008). 

O Caráter sofre predominantemente influências do ambiente e tem início mais tardio devido ao tempo para o desenvolvimento do hipocampo nas crianças. É moderadamente influenciado pelo aprendizado social, pela cultura e eventos causais da vida únicos ao indivíduo. Caráter, em psicobiologia, corresponde a funções cerebrais como abstração, interpretação simbólica, lógica analítica e indutiva, típicas do aprendizado declarativo e que são críticas para o processamento cognitivo das percepções sensoriais e dos afetos regulados pelo Temperamento. Portanto, o Caráter leva ao desenvolvimento de conceitos sobre o self e o mundo externo – quando completamente desenvolvidos, essas características definiriam uma personalidade madura e adaptada (NATRIELLI FILHO el al., 2008). 

Temperamento e memória Procedural, Caráter e memória Declarativa, são funções dinâmicas do aprendizado humano. O brincar é uma função natural e o aprendizado que resulta é obtido pelo processo do fazer por uma sequência de explorações e repetições. É por meio do fazer que aprendemos atividades como dirigir, cozinhar, escrever, pintar, jogar tênis e todas as outras atividades da vida (ARMONIA et al., 2018). A divisão entre as memórias é meramente didática e, na prática, interagem de forma dinâmica e intercambiável. Seria através dessas memórias, Procedural e Declarativa, que correspondem a diversas formas que aprendizado humano, que as estratégias e propostas terapêuticas da Terapia Ocupacional teriam sua influência sobre o desenvolvimento cognitivo global humano. Assim, como concluíram Armonia et al. (2018), “o Terapeuta Ocupacional utiliza o brincar como meio e finalidade do tratamento, utilizando esse recurso para que o paciente adquira novas habilidades”. 


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TERAPIA DE INTEGRAÇÃO SENSORIAL 

Nos últimos 40 anos, a pesquisa sobre processamento sensorial em pessoas com e sem Transtorno do Espectro Autista (TEA) aprimorou nossa compreensão de como o cérebro processa a entrada sensorial. Já em 1963, Jean Ayres conduziu alguns dos primeiros estudos examinando problemas sensoriais em uma ampla gama de distúrbios do desenvolvimento. Através de seu trabalho, ela conceituou uma abordagem de intervenção agora chamada de Integração Sensorial de Ayres (do inglês, Ayres Sensory Integration - ASI) para tratar os pilares sensório-motores de habilidades acadêmicas e outras habilidades de ordem superior (isto é, planejamento e organização). A terapia envolve o paciente interagindo com uma combinação de equipamentos, como “scooters” e balanços, oferecendo a oportunidade de obter e processar informações sensoriais aprimoradas e desenvolver níveis normais de excitação e segurança ao interagir com o ambiente. A abordagem de intervenção de Ayres foi fundada na hipótese de que o distúrbio da integração sensorial (do inglês, Sensory Integration - SI) e outras anormalidades no processamento são, em parte, o resultado de funcionamento cerebral disfuncional (KILROY et al., 2019). 

O processamento sensorial envolve a percepção, organização e interpretação das informações recebidas por meio de sistemas sensoriais (por exemplo, paladar, tato, olfato, visão, auditivo, vestibular), a fim de produzir uma resposta adaptativa. O termo "integração sensorial", conforme usado por Ayres, refere-se à capacidade de produzir respostas motoras e comportamentais apropriadas aos estímulos. Em seu trabalho “Sensory Integration and the Child”, Ayres observou respostas “hiper” e “hipo” a estímulos sensoriais em indivíduos com TEA. Especificamente, ela observou que esses indivíduos exibiam problemas no registro (detecção e interpretação do sinal), na modulação (inibição ou propagação do sinal), na interação com certos objetos e / ou na motivação (KILROY et al., 2019). 

Com o avanço da neuroimagem e outras tecnologias inovadoras, os cientistas começaram a mapear a estrutura e a função das áreas do cérebro que podem estar subjacentes aos déficits de processamento sensorial no TEA. As previsões de Ayres sobre registro sensorial, modulação e motivação são fortemente apoiadas pelos resultados de vários estudos. Ayres observou heterogeneidade sensorial no TEA e previu que isso teria implicações na terapia. Ela teorizou a partir de seu próprio trabalho que indivíduos com modulação, mas sem déficits de registro, responderiam melhor à terapia com SI. A estratificação de fenótipos sensoriais de TEA com marcadores neurológicos pode levar a uma melhor terapia individualizada (KILROY et al., 2019). 


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Fonte: https://www.widewalls.ch/salvador-dali-paintings/


Portanto, a reabilitação de pessoas é um conjunto de estratégias orientadas a aumentar as oportunidades de troca de recursos e afetos: é somente no interior de tal dinâmica das trocas que se cria um efeito “habilitador”. Daí podermos dizer que a reabilitação é um processo que implica a abertura de espaços de negociação para o paciente, para sua família, para a comunidade circundante e para os serviços que se ocupam do paciente (SARACENO, 2001). 

Partindo desses pressupostos, o Terapeuta Ocupacional atua nos serviços que compõem a RAPS, levando, por meio de sua especificidade, a ampliação do cuidado e a possibilidade de resgate dos direitos de cidadania das pessoas. Com base no conceito de Reabilitação Psicossocial, Benetton confirma essa afirmação ao apontar que os Terapeutas Ocupacionais brasileiros têm se mostrado mais arrojados que os colegas americanos e canadenses, participando ativamente dos processos de “desinstitucionalização” e investimento em programas de intervenção na comunidade. 

Por fim, a Terapia Ocupacional não deve ser apenas uma intervenção para o cuidado em saúde mental, ela deve contribuir para que a vida coletiva e as vivências individuais sejam mais interessantes, criativas, significativas e funcionais. Os Terapeutas Ocupacionais podem ser facilitadores desse processo de formação, considerando a infância, o processo de transformação, criando possibilidades até que a pessoa atinja suas capacidades funcionais da forma que lhe é possível. Como Junia Cordeiro define a Terapia Ocupacional de forma simples e adorável: “A terapia Ocupacional auxilia a pessoa a fazer o que deve, o que quer e o que precisa da forma que ela pode.” 



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

Armonia AC, Di Matteo J, Bernal MP. Habilitação e Reabilitação Multidisciplinar: Fonoaudiologia, Psicologia e Terapia Ocupacional. In: Assumpção Junior FB, Kuczynski E. Tratado de Psiquiatria da Infância e da Adolescência. 3ª ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 2018. 

Benetton J. Trilhas associativas: ampliando recursos na clínica das psicoses. São Paulo: Lemos; 1991. 

Brasil - Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. III Conferência Nacional de saúde mental: relatório final. Brasília, 2002. 

Kilroy E, Aziz-Zadeh L, Cermak S. Ayres Theories of Autism and Sensory Integration Revisited: What Contemporary Neuroscience Has to Say. Brain Sci. 2019; 9(3): 68. 

Natrielli Filho DG, Natrielli DG, Goes RD. Contribuições para a prática da psiquiatria, psicodinâmica e psicologia médica. São Paulo: Leitura Médica, 2008. 

Ribeiro MBS, Oliveira LR. Terapia ocupacional e saúde mental: construindo lugares de inclusão social. Interface (Botucatu) 2005; 9(17): 425-431. 

Ribeiro MC. A reabilitação psicossocial num CAPS: concepção dos profissionais. São Paulo, 2005. Dissertação (mestrado) - Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. 

Saraceno B. Reabilitação psicossocial: uma estratégia para a passagem do milênio. In: Pitta AM, organizadora. Reabilitação psicossocial no Brasil. São Paulo (SP): Hucitec; 1996. 

Saraceno B. Libertando identidades: da reabilitação psicossocial à cidadania possível. Rio de Janeiro: Te Corá/ Instituto Franco Basaglia, 2001. 


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