sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O Papel dos Sonhos no Desenvolvimento Cogntivo Humano

FONTE:https://new-visions.com/product/dream-interpretation-service/

O SONHO

A ciência do sono evoluiu muito nas últimas décadas. O mesmo não podemos dizer de um fenômeno natural associado e conhecido como Sonho. É característico da humanidade ignorar certos fatos cotidianos, como nossos sonhos diários, simplesmente por não termos uma boa explicação científica para sua ocorrência. Realmente, estamos longe de definirmos um modelo neurocientífico sólido e que replique os fenômenos envolvendo a consciência humana, principalmente a autoconsciência e os eventos oníricos.

O sonhar representa uma experiência fascinante associada aos processos emocionais ao ponto de ser considerada a chave para o acesso ao nosso mundo interno. Isso Freud já dizia nos seus escritos e sua percepção da importância dos fenômenos oníricos para a interpretação da vida mental dos seus pacientes constituía um dos pilares do conceito de inconsciente por ele elaborado.

Nas últimas décadas a experiência onírica (do inglês, "dream experience", abreviada como "DE") tem sido estudada sob a perspectiva científica, definindo-se a lembrança dos sonhos como uma recuperação da elaboração mental durante o sono, com um diferente nível de complexidade e fragmentação, relatado após o despertar (SCARPELLI et al., 2019).

Conforme escreve Sidarta Ribeiro (2019): "As próximas décadas trarão uma compreensão integrada do que o sonho pode voltar ou vir a ser: sofisticada engrenagem psicobiológica capaz de promover adaptação comportamental contínua, recrutada na medida da necessidade; quando bem calibrado, poderoso computador de possibilidades, oráculo da soma de (quase) acasos que podem estimar para onde aponta a bússola do destino - não o destino como futuro inescapável e determinado, mas o lugar ou estado para onde tudo conflui. Destino é para onde sopra o vento, para onde flui o rio, por onde caminham desejos e circunstâncias. Nossa maravilhosa e multifacetada máquina cerebral de extração de probabilidades, constituída por genes e memes no transcorrer da evolução da espécie, se alimenta das preocupações e emoções conscientes, mas também da quase insaciável capacidade que temos de nos interessarmos pelo mundo".

E completa: "O sonho exprime o destino, mas não garante a chegada, como alguém que viaja com rumo certo mas pode parar antes, acelerar ou seguir rotas alternativas. Destino é para onde estamos indo, mas não necessariamente para onde vamos. Os sonhos bem sonhados vislumbram nosso destino através de simulações dos possíveis trajetos e desfechos".

Esta ideia central do livro "O ORÁCULO DA NOITE: A HISTÓRIA E A CIÊNCIA DO SONHO" (RIBEIRO, 2019) posiciona nosso sistema nervoso central (SNC) como uma (já bem conhecida da neurociência) máquina de cálculos probabilísticos, não matematicamente em sua essência, mas através de simulações no nosso imaginário, quando estamos acordados, e simulações de possíveis realidades durante os sonhos, quando estamos dormindo.

Evolutivamente, os sonhos seriam, na metáfora adotada por Sidarta Ribeiro, como "Oráculos Probabilísticos", onde ocorreriam as simulações de eventos futuros, utilizando as memórias do dia, bem como autobiográficas, fornecendo um ambiente de contemplação antes de uma decisão que poderia ou não favorecer o indivíduo, seu grupo ou sua espécie.

Trata-se de uma confirmação de alguns postulados de Sigmund Freud, que genialmente explorou o inconsciente humano e deu sentido aos sonhos através do modelo psicanalítico. Contudo, atualizando o conhecimento atual da neurofisiologia e o papel dos sonhos no processo evolutivo ontogenético e filogenético, por ser probabilístico, as interpretações isoladas de sonhos aleatórios podem aumentar a margem de equívocos quanto ao significado simbólico dos mesmos para uma determinada pessoa ou grupo.

Sonhos são probabilísticos, são o resultado imagético e sensorial de um raciocínio estatístico cerebral, abordando sim desejos, frustrações, recalques, ambições, medos, inseguranças, perdas de todos os tipos, traumas, abusos, violência e qualquer tipo de tema que a pessoa esteja vivenciando ou que vivenciou em alguma fase de sua existência.

Quando falamos de sonhos, estamos caminhando num extenso campo conhecido como cognição humana, sendo a memória uma das principais atrações deste conglomerado indissociável de funções psíquicas. Desde o final da década de 1940 sabe-se que a aquisição de memórias exige, no nível de neurônios individuais, a soma de múltiplas ativações oriundas de outros neurônios, o que levaria ao fortalecimento da conexão entre eles. Hebb (1949), apud Ribeiro (2019), propôs que a consolidação de uma memória começa por sua reverberação elétrica através de circuitos neurais recorrentes, o que então faz com que um grupo de neurônios passe a funcionar em sincronia.

"Ao propor que a interpretação onírica deve ser baseada na investigação da experiência subjetiva do sonhador, Freud identificou memórias dos eventos da vigília como o esqueleto de sustentação do sonho. Essas memórias, ou restos diurnos na teoria freudiana, são o eixo em torno do qual as emoções do sonhador se aglutinam para gerar imagens mentais de grande poder simbólico. (...) Ignorada pela neurociência ao longo de quase todo o século passado, foi apenas em 1989, com a primeira identificação dos correlatos eletrofisiológicos dos restos diurnos, que a teoria freudiana começou a retornar ao debate científico sobre a mente e o cérebro. (...) Durante o sono de ondas lentas, que domina a primeira metade da noite, pouca atividade elétrica é gerada no interior do próprio cérebro, que por isso reverbera memórias sem vividez. Trata-se de um estado em que pensamentos normais coexistem com a ausência de imagens sensoriais. Em contraste com esse sono desprovido de luz e formas, o sono REM (do inglês, Rapid Eye Movement) é marcado por grande ativação cerebral, que reverbera memórias com muita intensidade. Essa reverberação é o próprio material de que são feitos os sonhos" (RIBEIRO, 2019).

Conforme escreveu Zimerman (1999), "até antes das descobertas de Freud, a busca de entendimentos dos sonhos, que desde sempre acompanham os seres humanos, estava entregue aos demiurgos e charlatães em geral que procuravam extrair anúncios proféticos, premonitórios, mensagens de espíritos ou interpretações fantásticas. (...) A partir de Freud, mais exatamente em 1900, com a elaboração e publicação do seu mais famoso livro - 'A Interpretação dos Sonhos' - os sonhos não só ganharam uma nova dimensão científica, como também o aprofundamento de seu estudo abriu as portas para a consolidação da teoria da psicanálise".

No seu trabalho, Freud trouxe uma abundância de sonhos pessoais, os quais representaram a primeira autoanálise levada a efeito, sendo que a maior motivação para esse ato corajoso de Freud (deve-se considerar valores e preconceitos do início do século XX) foi a necessidade de elaborar seus sentimentos despertados pela morte de seu pai. Segundo Zimerman (1999), o livro "A Interpretação dos Sonhos" possibilitou também a Freud construir um modelo do aparelho psíquico bem conhecido dos psicanalistas, o qual evoluiu como o primeiro esboço para a concepção da Teoria Tópica, onde os "topos" (ou lugares) eram ocupados pelas instâncias do inconsciente, pré-consciente e consciente. Nesse sentido, o fenômeno do sonho foi concebido por Freud como paradigma de um funcionamento normal da mente e, ao mesmo tempo, como expressão psicopatológica - os quais facilitaram a concepção de que no aparelho psíquico não existia uma plena delimitação entre o "normal e o patológico". Igualmente, o estudo dos sonhos permitiu que Freud estabelecesse uma integração entre experiências recentes (restos diurnos) e as antigas (que constituem o conteúdo latente do sonho). Assim, pelo estudo dos sonhos e dos sintomas manifestados pelas suas pacientes (chamadas de "histéricas", termo que, infelizmente, tornou-se pejorativo no meio da saúde mental), Freud estabeleceu uma equivalência entre a estrutura dos sonhos e a das neuroses, o que lhe possibilitou conceber e formular a sua clássica postulação de que "o sonho é a via régia para chegar ao inconsciente" (ZIMERMAN, 1999).

Levando em conta as contribuições iniciais de Freud e os autores que seguiram a estudar os sonhos, temos uma lista proposta por Zimerman (1999) das principais funções que os sonhos podem desempenhar:

(1)Um meio de "descarga pulsional";

(2)Um recurso de realização (disfarçada) de desejos (reprimidos);

(3)Como uma função "traumatofílica", ou seja, como uma maneira de elaborar situações traumáticas (caso de sonhos constantemente repetitivos);

(4)Funções adaptativas e de integração do ego - os sonhos propiciam que os fatos reais externos atuais se integrem com as experiências emocionais do passado, que fazem parte do mundo interno do sonhador, com a produção de mudanças estruturais;

(5)Como uma forma de linguagem e de comunicação - determinadas experiências emocionais antigas que estão representadas no ego, ainda sem nome ou endereço, não conseguem ser verbalizadas no setting analítico ou terapêutico. Elas são, portanto, expressadas pela linguagem não-verbal do sonho;

(6)Como uma função elaborativa, ou seja, de busca por soluções para os problemas que ocupam o psiquismo da pessoa;

(7)Como processo criativo, gerador de sentidos e de novos significados.

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FONTE: https://steemit.com/health/@zydane/brain-wave-states-in-the-matrix

ARQUITETURA DO SONO

Para a continuidade da publicação, faz-se necessário um breve resumo sobre o Sono e a forma como podemos avaliar suas fases.

O sono é composto de dois estados fisiológicos: sono não REM e sono REM. No sono não REM, que é composto dos estágios 1 a 4, a maioria das funções físicas é nitidamente menor do que na vigília. O sono REM é um tipo de sono qualitativamente diferente, caracterizado por altos níveis de atividade cerebral e fisiológica, semelhantes aos da vigília. Cerca de 90 minutos após o início do sono, o não REM passa ao primeiro episódio REM da noite. A latência de 90 minutos do REM é um achado consistente em adultos sadios; o encurtamento da latência do REM ocorre em transtornos como narcolepsia e transtornos depressivos. Para aplicações clínicas e de pesquisa, o sono é, em geral, classificado em períodos de 30 segundos, com estágios definidos pela pontuação visual de três parâmetros: eletrencefalograma (EEG), eletro-oculograma (EOG) e eletromiograma (EMG) registrados abaixo do queixo. O EOG registra os movimentos rápidos conjugados dos olhos, que são a característica identificadora do estado do sono (pouco ou nenhum movimento dos olhos ocorre no sono não REM); o padrão de EEG consiste em atividade rápida, aleatória e de baixa voltagem, com ondas de serrote; o EMG mostra uma redução marcante no tônus muscular (SADOCK, SADOCK & RUIZ, 2017). 

Os critérios definidos por Allan Rechtschaffen e Anthony Kales em 1968 são aceitos na prática clínica e em pesquisas ao redor do mundo. Logo abaixo, seguem as descrições sobre as características eletrofisiológicas observadas nas diferentes fases do sono (SADOCK, SADOCK & RUIZ, 2017): 

"Em pessoas sadias, o sono não REM é um estado hipoativo em relação à vigília. A frequência cardíaca costuma baixar a 5 a 10 batidas por minuto abaixo do nível de repouso acordado e é muito regular. A respiração é afetada da mesma forma, e a pressão arterial também tende a baixar, com poucas variações minuto a minuto. O potencial muscular em repouso da musculatura corporal é mais baixo no sono REM do que quando desperto. Movimentos corporais episódicos e involuntários estão presentes no sono não REM". 

"(...) Quando as pessoas são acordadas de 30 minutos a 1 hora após o início do sono (em geral no sono com ondas lentas), elas estão desorientadas, e seu pensamento é desorganizado. Breves despertares do sono com ondas lentas também estão associadas com amnésia para eventos que ocorrem durante o despertar. A desorganização durante o despertar dos estágios 3 ou 4 pode resultar em problemas específicos, incluindo enurese, sonambulismo e pesadelos ou terrores noturnos do estágio 4".

"Mensurações poligráficas durante o sono REM demonstram padrões irregulares, às vezes semelhantes aos padrões de excitação quando desperto. Se os pesquisadores não estivessem cientes do estágio comportamental e acabassem gravando diversas medidas fisiológicas (além do tônus muscular) durante períodos REM, certamente concluiriam que a pessoa ou o animal estudados estariam em um estágio desperto ativo. Em razão dessa observação, o sono REM também foi chamado de sono paradoxal. Pulso, respiração e pressão arterial nos seres humanos ficam todos elevados durante o sono REM (muito mais do que no não REM e frequentemente mais elevados do que quando acordados). Ainda mais impressionante do que o nível ou a frequência é a variabilidade minuto a minuto. O oxigênio no cérebro aumenta durante o sono REM". 

"(...) Diferentemente da condição homeotérmica da regulação de temperaturas durante o estado desperto ou o sono não REM, uma condição pecilotérmica (um estado em que a temperatura do animal varia com as alterações na temperatura do ambiente) prevalece durante o sono REM. A pecilotermia, que é uma característica dos répteis, resulta em uma incapacidade de responder a alterações na temperatura ambiente com tremores ou suores, dependendo de qual seja a resposta apropriada para manter a temperatura do corpo".

Podemos observar portanto, estágios de sono e vigília característicos do EEG. Quando acordados, o EEG de vigília evidencia uma atividade de baixa voltagem e frequência mista, predominando o ritmo BETA de 14 a 30 ciclos por segundo. Se apenas fecharmos os olhos, encontraremos um ritmo ALFA, de 8 a 13 ciclos por segundo (cps). Quando entramos no sono, passamos por quatro estágios característicos do sono não REM e o próprio sono REM. No Estágio I, observam-se atividade de baixa voltagem e frequência mista, alternadas com ritmo TETA (de 3 a 7 cps) e ondas agudas do vértex (ver figura). No Estágio II há uma frequência mista de baixa voltagem com fusos de sono (complexos de 12 a 14 cps) e "complexos K" (onda aguda negativa, seguida de onda lenta positiva). O Estágio III é caracterizado por ondas DELTA lentas (≤ 2 cps) e de alta amplitude (≥ 75 microvolts) ocupando de 20 a 50% do período e o Estágio IV, também com ondas lentas de alta amplitude, ocupando mais de 50% do período total de sono (Critérios de RECHTSCHAFFEN e KALES, 1968).

O sono REM é caracterizado por atividade de baixa voltagem e frequência mista; ondas em dente de serra, atividade teta e atividade alfa lenta (Critérios de RECHTSCHAFFEN e KALES, 1968).

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FONTE: https://ap.imagensbrasil.org/image/thestocks-imagem.nSsTdK

ASPECTOS ONTOGENÉTICOS E NEUROFISIOLÓGICOS DO SONO

O sono pode ser avaliado de acordo com sua arquitetura e pela expressão dos ritmos cerebrais. Há mudanças no padrão neurofisiológico do sono durante o neurodesenvolvimento de crianças desde o nascimento até a puberdade. Há uma modulação da expressão do sono ao longo do crescimento e desenvolvimento. O sono no período neonatal até seis meses pode ser caracterizado como uma manifestação do desenvolvimento dos ritmos cerebrais. A partir dos seis meses, os padrões de ondas permanecem com mudanças de acordo com a maturação cerebral, que está intimamente ligada ao desenvolvimento do sono de ondas lentas (ou sono delta). O sono DELTA está associado a expressão sináptica, sendo que o pico deste sono de ondas lentas ocorre por volta dos 10 anos de idade, fase em que se inicia o estirão puberal em algumas crianças (cada um tem seu tempo). A partir daí há uma tendência para a diminuição neuronal e consequente redução das interações sinápticas (perdas devido à poda programada, para a consolidação daqueles neurônios e sinapses mais utilizados e adaptados) - (LOPES e PRADELLA-HALLIMAN, 2019).

Estudos com ressonância magnética e a técnica DTI ( do inglês "Diffusion Tensor Imaging") demonstraram que a atividade neuronal dos adolescentes passa por mudanças maturacionais sob a influência das alterações hormonais: aumento de estradiol (ou seja, um tipo de estrógeno) está relacionado com o desenvolvimento de substância cinzenta em meninas e outros hormônios sexuais influenciam a neurogênese, organização sináptica e expressão de receptores neuronais. Observa-se também redução na espessura da substância cinzenta (ou córtex cerebral), iniciada na porção dorsoparietal, navegando para a região frontal, que se estabiliza na idade adulta, mas com grande variabilidade individual. A substância branca cerebral, por sua vez, tem aumento de volume, uma vez que o processo de mielinização dos axônios continua ocorrendo. Portanto, a maturação cerebral na adolescência ocorre de forma específica nas regiões cerebrais, no sentido pósteroanterior, a princípio em áreas motoras, e depois em áreas de associação (SOSTER e LOPES, 2019).

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FONTE: http://blog.jbaimoveis.com.br/2017/08/as-mais-lindas-imagens-do-ceu.html#.Xj-hFlVKjIU

A CIÊNCIA DO SONHAR

Por anos, os pesquisadores consideravam o sono REM como o estágio privilegiado para o processo de sonhar. Realmente, a experiência onírica poderia ser categorizada como referente ao sonhar ou ao pensamento dependendo dos seus temas. No primeiro estariam incluídos os conteúdos narrativos e as emoções, no segundo elementos e temas mais fragmentados. Diversos estudos confirmaram que os sonhos podem ocorrer durante tanto o sono REM quanto o não REM. Particularmente, as experiências oníricas foram obtidas em mais de 50% dos casos após o despertar do sono não REM, especialmente do Estágio II. Quando o sono REM foi suprimido farmacologicamente, não houve interferência na recuperação da lembrança do sonho (PAGEL, 2012; SCARPELLI et al., 2019).

Ainda assim, muitos estudos observaram que conteúdos oníricos com temas emocionais e experiências vívidas são mais frequentes quando os indivíduos estudados despertam de um sono REM. Em geral, o sono REM tem um papel importante no processamento dos eventos com conteúdo emocional e diversos estudos mostraram que a consolidação das memórias emocionais ocorrem nesta fase do sono. Ademais, a privação experimental do sono REM demonstrou comprometer a consolidação dos estímulos emocionais (SCARPELLI et al., 2019).

Os conteúdos oníricos incluem mais frequentemente emoções negativas (como ansiedade e medo) e geralmente estão associados a experiências ocorridas durante a vigília. Nesse sentido, a evidência empírica existente aponta para a ideia de que a ativação neural dos sistemas límbico e de recompensa cerebral, durante a experiência onírica do sono REM, contribuiria para o reprocessamento offline (ou seja, durante o sono) das emoções e do aprendizado associativo (SCARPELLI et al., 2019).

Podemos abstrair desses dados a conhecida importância do sono após um dia de estudo, ou de um treinamento do trabalho, de uma dinâmica de grupo ou de uma experiência agradável. Não obstante, o mesmo podemos esperar em relação à elaboração de problemas difíceis, conflitos, perdas, dificuldades sociais, acadêmicas e laborativas - todos podem ser melhor elaborados depois de (pelo menos) uma noite de sono. 

Trata-se de um laboratório a céu aberto. Aqueles que têm filhos que estão aprendendo alguma atividade física nova ou uma habilidade motora que exige coordenação e treino, podem observar os saltos de aprendizagem e reforço das memórias envolvendo a psicomotricidade após uma noite de sono. São sutilezas do nosso cotidiano, conhecidas há tempos, e que vem recebendo cada vez mais confirmações através de estudos envolvendo o sonhar.

Outra associação frequente e bastante conhecida dos psiquiatras e psicólogos é a importância do ciclo sono-vigília para a saúde mental. Problemas do sono acompanham diversos transtornos mentais, desde transtornos ansiosos, transtornos do humor, transtornos psicóticos, degenerativos e do neurodesenvolvimento. Especificamente, quanto ao sonhar, pessoas que relatam não se lembrar dos sonhos (ou se sonharam) podem apresentar a sensação de que o sono em geral não é reparador. Outros podem desenvolver aumento dos sonhos, mas com conteúdos mais bizarros ou aberrantes, tornando esse importante momento de suas vidas psíquicas uma experiência de sofrimento e angústia.

Entretanto, a grande limitação dos estudos recai sobre a metodologia utilizada para a avaliação dos sonhos, a qual é focada na recuperação dos conteúdos oníricos logo após o despertar. Esta dificuldade metodológica aborda um dos grandes dilemas filosóficos, conhecido como "QUALIA", tema que não será abordado neste trabalho, mas que se refere à definição das qualidades subjetivas das experiências mentais conscientes. Contudo, ao pé da letra, ou concretamente falando, uma aplicação prática do "QUALIA" seria como ler a mente de um indivíduo em sua totalidade, conseguindo assim vivenciar as experiências mentais do outro. Neste sentido, estudar com rigor científico as vivências subjetivas de uma pessoa desperta, dormindo ou sonhando ainda está reservado somente para a ficção científica.

Especificamente, diversos estudos utilizando despertares espontâneos ou provocados nos laboratórios visaram os padrões eletrofisiológicos (do EEG) relacionados à recuperação dos sonhos considerando esse processo como uma forma de memória declarativa episódica. As evidências mostraram que as regiões cerebrais implicadas no processamento emocional durante a vigília são também responsáveis pelo plano de fundo eletrofisiológico do sono REM, as quais explicariam algumas características qualitativas da experiência onírica (SCARPELLI et al., 2019).

FONTE: https://www.thescienceofpsychotherapy.com/prefrontal-cortex/


Pesquisas pioneiras de Mark Solms (1997, 2000), apud Scarpelli et al. (2019), em pacientes com lesões cerebrais, avaliando as correlações anatômicas com alterações no processo de sonhar, confirmaram o papel central de regiões corticais e subcorticais específicas nas experiências oníricas. Os achados apontaram para as seguintes regiões cerebrais:

(1)A Junção Temporo-Parieto-Occipital (TPJ): lesões nessa região alteram as funções de formação de imagens cerebrais e o sono propriamente dito;

(2)Córtex Pré-frontal Ventromedial (vmPFC): lesões estão associadas à perda da capacidade de sonhar;

(3)Substância Branca Periventricular dos Cornos Anteriores dos Ventrículos Laterais: lesões estão associadas à perda da capacidade de sonhar.

Muitas das conexões axonais aferentes e eferentes desses sistemas são direcionadas para o sistema límbico e a substância branca ventromesial frontal participaria da relação entre o prosencéfalo basal (parte mais frontal do cérebro) e as estruturas límbicas. Mais recentemente, estudos utilizando Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET) e Ressonância Magnética Funcional (fMRI) demonstraram que a distribuição da atividade cerebral no sono REM não é homogênea. As pesquisas de neuroimagem observaram aumento regional da atividade cerebral nas regiões límbicas e paralímbicas, na ponte, tálamo e prosencéfalo basal durante o sono REM, quando comparados ao estado de vigília (acordado) e o sono não REM (SCARPELLI et al., 2019).

Outro achado muito interessante nas pesquisas envolve a ativação das regiões motoras e pré-motoras cerebrais durante o sono REM de pessoas saudáveis. O que tornaria esse dado especial seria o fato de que o sono REM caracteriza-se por atonia muscular graças à inibição de neurônios motores na formação reticular ponto-bulbar. Algumas áreas mostram-se hipoativas durante o sono REM, quando comparadas ao estado acordado: Córtex Pré-frontal Dorsolateral (dlPFC), Precuneo, Córtex Órbitofrontal (OFC) e o Giro Cingulado Posterior - curiosamente, esses achados explicariam as alterações das funções executivas, da percepção do tempo e a ausência de insight durante a experiência onírica (SCARPELLI et al., 2019).

"Após vários anos de pesquisa, Solms compilou 110 casos de pacientes com sono REM intacto do ponto de vista fisiológico, mas incapazes de relatar sonhos. Os casos incluíam a síndrome de Charcot-Wilbrand, caracterizada pela dificuldade de reconhecer objetos e cenas visuais (agnosia visual) e pela perda da capacidade de imaginar ou sonhar imagens visuais. Descrita pioneiramente em pacientes com tromboses por Jean-Martin Charcot em 1883 e por Hermann Wilbrand em 1887, essa síndrome está associada a lesões temporo-occipitais e à perseveração do sono REM. Esses pacientes não são capazes de relatar pensamentos e imagens nem mesmo quando despertados no meio de um episódio de sono REM. Neles o sonho está substituído por um estado de profunda inconsciência" (RIBEIRO, 2019). 

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Imagem ilustrativa das estruturas que compõem o sistema límbico.
FONTE: https://www.psicoactiva.com/blog/sistema-limbico-anatomia-memoria-emociones/

A AMÍGDALA, O CÓRTEX PRÉ-FRONTAL E O HIPOCAMPO

Considerando as observações empíricas de que a experiência onírica tem um importante papel no processamento emocional, medidas em fMRI de indivíduos acordados revelaram que pessoas que vivenciaram medo durante o sonho apresentaram uma maior ativação do Córtex Pré-frontal medial (mPFC) e uma redução da ativação da ínsula, amígdala e córtex cingulado quando confrontados com estímulos aversivos. Os resultados são consistentes com a visão de que o mPFC poderia exercer um controle inibitório sobre a expressão do medo através da inibição da atividade amigdaliana (SCARPELLI et al., 2019). 

Vários autores sustentam a ideia de que o sonhar e a vigília compartilham mecanismos semelhantes. De fato, dados obtidos por neuroimagem no estado de vigília (acordado) sustentam o papel das regiões cerebrais acima mencionadas no processamento emocional. A hipótese seria de que, no cérebro em atividade de vigília, regiões subcorticais como a amígdala, núcleo accumbens, locus coeruleus, núcleo pulvinar, córtex cingulado anterior e córtex órbitofrontal estariam envolvidas nos processamentos emocionais cortical e subcortical (SCARPELLI et al., 2019).

O papel da amígdala cerebral na regulação emocional é bem conhecido e diversos estudos observaram que este núcleo de neurônios especializados é responsável por detectar, gerar e manter as emoções associadas ao medo. A amígdala também é importante na coordenação e modulação das respostas (adequadas) a ameaças e perigos, podendo responder a estímulos do ambiente que predizem consequências positivas ou negativas para a sobrevivência do organismo. Esta atividade cerebral permitiria ao indivíduo aprender mais sobre os estímulos ambientais e promover comportamentos adaptativos (SCARPELLI et al., 2019).

Graças às suas conexões com o hipocampo, tálamo, mPFC e córtex cingulado anterior, a amígdala está envolvida no controle da codificação e recuperação das memórias afetivas assim como da expressão corporal das emoções durante o estado de vigília. O hipocampo também possui um papel bem estabelecido na codificação e recuperação de memórias declarativas. Portanto, os dois juntos, amígdala e hipocampo, medeiam o processamento e a execução das memórias relacionadas ao medo (SCARPELLI et al., 2019).

Uma boa ideia para pesquisa seria avaliar as experiências oníricas de pacientes com diagnóstico estabelecido de Psicopatia. De acordo com o modelo vigente, esses indivíduos teriam respostas amigdalianas atenuadas em situações de medo e ameaça, quando comparados a controles saudáveis. Considerando a interação da amígdala com os estados de vigília e experiência onírica, seria de se esperar que os Psicopatas tivessem relatos de temas de sonhos com conteúdos e expressões de medo bem diferentes ou indiferentes quanto à sua expressão emocional.

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FONTE: https://www.genengnews.com/news/parkinsons-disease-brain-malfunction-evident-in-scans-potentially-years-before-symptoms/

DOENÇA DE PARKINSON E SONHOS

As queixas relacionadas ao sono ocorrem em 90% dos pacientes com Doença de Parkinson (DP). Elas são responsáveis por um importante impacto na qualidade de vida desses pacientes, sendo consequência do processo de neurodegeneração dos sistemas responsáveis pelo ciclo sono e vigília, controle motor e o uso de medicamentos (ECKELI, 2019).

Estudos com pacientes portadores de Doença de Parkinson observaram que não há diferenças no padrão de sono, nas características de sonhos ou das medidas neuroanatômicas. Confirmou-se que a "nitidez" onírica está associada a amígdala e à espessura do mPFC. Importante também considerar que tanto a amígdala quanto o mPFC possuem um papel decisivo na aquisição, consolidação e recuperação das memórias relacionadas ao medo. Especificamente, essas estruturas modulam funções cerebrais de aprendizado e extinção do medo (SCARPELLI et al., 2019).

Quando se estuda pacientes com DP o foco costuma ser no sistema dopaminérgico, sabidamente o neurotransmissor mais associado à doença, bem como as estruturas cerebrais envolvidas na neurotransmissão da dopamina (via de regra, substância negra e corpo estriado). Drogas com propriedades dopaminérgicas (tecnicamente, agonistas dopaminérgicos), quando administradas em doses altas, estão associadas a experiências oníricas qualitativamente mais empobrecidas, indicadas através da redução dos conteúdos bizarros e da carga emocional (PAGEL, 2012; SCARPELLI et al., 2019).

"Sonho 'é' desejo porque ambos 'são' dopamina. Essa conclusão tem relação com o fato de que a dopamina é essencial para a própria ocorrência do sono REM. (...) O envolvimento do sistema dopaminérgico de recompensa e punição na gênese do sonho representa uma refutação solene ao ataque de Karl Popper a Freud: definitivamente a teoria psicanalítica é testável. (...) A evidência aponta para um encadeamento imagético organizado pelo sistema dopaminérgico de recompensa e punição, um processo capaz de ensaiar, valorar e selecionar comportamentos adaptativos sem no entanto submeter o corpo a riscos, pois tudo é simulado no ambiente seguro e inofensivo da própria mente" (RIBEIRO, 2019).

O mPFC é um dos principais reguladores da via dopaminérgica mesolímbica, o qual faz conexões diretas e indiretas com a amígdala e o hipocampo. Em outras palavras, os achados recentes em pesquisas com DP confirmaram a relação entre o mPFC e o sistema dopaminérgico mesolímbico para o processo de sonhar, o que também foi demonstrado em estudos com pacientes submetidos a leucotomia pré-frontal e que pararam de sonhar. De fato, nesses pacientes, a substância branca ventromedial contendo projeções dopaminérgicas para o lobo frontal foi desconectada (SCARPELLI et al., 2019).

A importância do mPFC no processo onírico foi estudada utilizando-se Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET). Indivíduos que recordam suas experiências oníricas com maior frequência (chamados de HR, do inglês "High Recallers") mostraram maior atividade cerebral regional no mPFC durante o sono REM e vigília quando comparados àqueles com menor frequência de lembranças oníricas (chamados de LR, do inglês "Low Recallers"). Foi observado também aumento da atividade cerebral regional na TPJ durante o sono REM, sono não REM e vigília (SCARPELLI et al., 2019).

O relato de movimentos noturnos complexos durante o sono associado a pesadelos nos remete à possibilidade de Transtorno Comportamental do sono REM (TCREM). O diagnóstico dessa condição é baseado na queixa de clínica de comportamentos durante o sono (como gritar, bater, socar, assoviar e chutar) associado à presença de sono REM sem atonia no exame de polissonografia. Essa condição frequentemente antecede a presença de DP, sendo considerado um sintoma precoce de neurodegeneração. Nesse sentido, o relato de TCREM isoladamente está ligado a um risco acima de 80% de evolução para uma doença neurodegenerativa associada ao depósito de alfasinucleína nos 12 anos seguintes após o início dos sintomas. O tratamento dessa condição deve estar relacionado a medidas de proteção (como colocação de grades estofadas na cama, retirada de objetos cortantes no quarto, colocação do colchão no chão e orientação do acompanhante) e o tratamento medicamentoso com melatonina (3 a 15mg ao deitar) e clonazepam (0,25 a 2mg ao deitar), sendo preferível a primeira (ECKELI, 2019).

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FONTE: https://olhardigital.com.br/ciencia-e-espaco/noticia/nasa-lana-imagens-da-via-lactea-em-comemoracao-aos-20-anos-do-chandra/88329

O RITMO TETA, MEMÓRIA E SONHO

Conforme descrevi em parágrafos anteriores, o ritmo (ou atividade) TETA é caracterizado por 3 a 7 ciclos por segundo, considerado bastante regular. O ritmo TETA costuma ser observado de forma consistente em estudos científicos no hipocampo cerebral, uma região que se localiza nos lobos temporais (região medial) e tem um importante papel na consolidação da memória. Durante o sono REM, na maioria das espécies animais estudadas, há uma concordância quanto à ocorrência das ondas TETA nos hipocampos durante essa fase do sono. 

Durante a vigília, o ritmo TETA aparece de forma diferente em cada espécie, dependendo do seus nichos ecológicos e comportamentos. Sempre que há a necessidade de altos níveis de atenção, os animais expressam ondas TETA durante a vigília.

Por analogia, "a ocorrência do ritmo TETA durante o sono REM denotaria um estado fisiológico capaz de processar as memórias adquiridas na vigília no mais protegido isolamento sensorial do sono, mas com a mesma atenção utilizada na experiência desperta. O sono REM seria portanto um estado reflexivo no qual o cérebro prestaria atenção a si mesmo e a sua representação do mundo conhecido. (...) Hoje sabemos que o ritmo TETA hipocampal é crucial para a aquisição, o processamento e a evocação de memórias declarativas, que podem ser narradas oralmente como as últimas férias de verão, a festa de casamento da sua melhor amiga, ou seu sonho mais recente" (RIBEIRO, 2019).

Em outros estudos, "estímulos de frequências idênticas podem causar efeitos opostos quando administrados em fases distintas do ritmo TETA. No pico dessa onda cerebral, quando os neurônios estão despolarizados e portanto facilmente excitáveis, a estimulação causa potencialização das conexões. No vale da onda, quando os neurônios estão hiperpolarizados e portanto dificilmente excitáveis, a mesma estimulação causa depressão das conexões". Assim, essa "dependência da fase das ondas TETA permite que estímulos de idêntica frequência produzam efeitos diametralmente opostos, fortalecendo ou enfraquecendo as conexões" entre as células cerebrais (RIBEIRO, 2019).

Sidarta Ribeiro completa: "hoje sabemos que a aquisição de qualquer memória requer tanto o fortalecimento quanto o enfraquecimento seletivo de sinapses, aumentando e diminuindo as forças de conexão entre subconjuntos restritos da malha sináptica total do cérebro humano, com muitas centenas de trilhões de sinapses. Sabemos também que a seleção dessas sinapses depende da atenção prestada aos estímulos, atenção que é concomitante com as oscilações TETA no hipocampo".

Gina Poe (2000), apud Ribeiro (2019), "formulou a hipótese de que novas memórias deveriam ser codificadas nos picos do ritmo TETA, enquanto memórias velhas destinadas ao esquecimento deveriam ser codificadas nos vales do ritmo TETA. Gina implantou eletrodos no hipocampo de ratos e passou a registrar a atividade de neurônios de lugar, cuja ativação era seletiva para regiões específicas da caixa em que o experimento era feito. Após algum tempo de registro as paredes da caixa eram removidas, criando um novo espaço bem maior. Isso provocava o remapeamento de uma parte dos neurônios de lugar, que passavam a responder seletivamente aos lugares do novo espaço. (...) Comparando a fase de disparo dos neurônios remapeados para lugares novos e dos neurônios que persistiam mapeando lugares antigos, Gina verificou a separação de fases que havia previsto".

"É como se o passado já conhecido estivesse sendo representado na fase negativa do ritmo TETA, que induz depressão sináptica de longa duração e portanto esquecimento. A representação das novidades, por outro lado, estaria representada na fase positiva do ritmo TETA, levando ao fortalecimento das conexões e portanto das memórias" (RIBEIRO, 2019).

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FONTE: https://olhardigital.com.br/ciencia-e-espaco/noticia/nasa-lana-imagens-da-via-lactea-em-comemoracao-aos-20-anos-do-chandra/88329

SONHO LÚCIDO

O Sonho Lúcido (SL) é caracterizado por uma vivência da pessoa, de estar ciente de que está sonhando, durante o processo de sonhar. Seria, assim, a percepção consciente de estar sonhando, conferindo a alguns indivíduos e experiência de um papel mais ativo e de controle no sonho em que se encontra (VALLAT e RUBY, 2019). Inicialmente, a descrição parece mais associada a ficção científica. Contudo, há uma vasta literatura especializada sobre o assunto na principal base de indexação de revistas científicas médicas (o PubMed).

Com a emergência do estilo de vida digital moderno e dos vídeo-games cada vez mais realísticos, tornou-se óbvio para muitas pessoas que o Sonho Lúcido seria a mais original e profunda forma de experiência imersiva. Realmente, esta vivência ofereceria um mundo fantástico e único, no qual tudo se torna possível ou controlável, ao mesmo tempo real e sem riscos para aquele que sonha (VALLAT e RUBY, 2019).

Entretanto, apesar de atraente, o Sonho Lúcido espontâneo não é frequente. Aproximadamente 50% das pessoas experimentaram ao menos um SL durante suas vidas e somente 11% relatam ter dois ou mais SL por mês. Inúmeros métodos e dispositivos objetivando o aumento da frequência de SL e o nível de controle foram desenvolvidos e comercializados recentemente. Os diversos métodos utilizados para a indução do SL podem ser classificados em três categorias: (1) técnicas cognitivas; (2) estimulação externa durante o sono e (3) administração de substâncias específicas. Revisões científicas observaram que nenhuma dessas técnicas de indução foram confirmadas como confiáveis e consistentes para a indução de Sonhos Lúcidos (VALLAT e RUBY, 2019).

"Reconhecido por Aristóteles, Galeno e Santo Agostinho, o sonho autoconsciente foi objeto de um volumoso tratado filosófico do marquês Léon d'Hervey de Saint-Denys (1822-92), intitulado 'Os sonhos e os meios para dirigi-los'. Motivado pelas ideias do marquês, pelo termo 'rêve lucide' (sonho lúcido, em francês) e por suas próprias experiências, o psiquiatra holandês Frederik van Eeden (1860-1932) reportou cientificamente o fenômeno em 1913" (RIBEIRO, 2019).

Segue o mesmo autor: "Por décadas os descrentes no sonho lúcido disseminaram a interpretação de que se tratava na verdade de um estado de vigília em repouso, em que o corpo ficava imóvel mas desperto. Foi somente nos anos 1970 que surgiu uma resposta empírica a essa objeção, estabelecendo bases fisiológicas convincentes para o estudo científico do espaço interno instaurado pelo sonho lúcido. Em 1978 o psicólogo inglês Keith Hearne demonstrou em sua tese de doutorado ser possível sinalizar a entrada em lucidez através dos olhos, normalmente ativos durante o sonho REM e portanto uma 'janela para a alma' que sonha. O mesmo foi demonstrado durante o doutorado do neurocientista norte-americano Stephen LaBerge, concluído em 1980 na Universidade Stanford sob a orientação de William Dement. Em ambos os casos os pesquisadores se valeram da ocorrência de movimentos oculares durante o sono REM, a despeito da completa atonia muscular do resto do corpo, para driblar o dogma de que seria impossível sinalizar a ocorrência de um sonho lúcido sem despertar de imediato. Investigando voluntários de pesquisa treinados para entrar facilmente em lucidez onírica, os pesquisadores pediram que realizassem movimentos oculares pré-combinados para informar sobre o início e o fim de cada episódio de sonho lúcido. A ausência concomitante de tônus muscular corporal confirmava que se tratava de sono REM, e não vigília. Em outras palavras, os voluntários conseguiam mexer o olhos voluntariamente, mesmo sonhando" (RIBEIRO, 2019).

Hoje se sabe que o SL é um estado intermediário entre a vigília e o sono REM, um estado híbrido em que a atenção está voltada "para dentro" como no sono, mas com a consciência intencional que caracteriza a vigília. O uso de funções executivas durante o SL permite supor que o córtex pré-frontal, em geral inativo no sono REM, deva estar ativado durante o SL (VALLAT e RUBY, 2019). Combinando o registro de EEG com medidas de ressonância magnética funcional, o neurocientista alemão Martin Dresler, apud Ribeiro (2019), do Instituto Max Planck de Psiquiatria, em Munique, demonstrou que o "sono REM lúcido", em comparação com o "sono REM não lúcido", apresenta maior ativação em regiões cerebrais relacionadas com tomada de decisões e intencionalidade (córtex pré-frontal), visão (córtex occipital e cúneo), consciência reflexiva (pré-cúneo), memória (córtex temporal) e espaço (córtex parietal). Os mesmos pesquisadores mostraram que uma tarefa motora realizada durante o sonho (ou seja, uma experiência de SL), como abrir e fechar os punhos, provoca robusta ativação no córtex sensório-motor normalmente ativado pelo mesmo movimento quando realizado em vigília.

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FONTE: https://www.pinterest.pt/pin/377106168773722432/

O SONHO DO BRASILEIRO

Num trabalho intitulado "Dream characteristics in a Brazilian sample: an online survey focusing on lucid dreaming", Mota-Rolim et al. (2013) do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, investigaram os padrões de sonho e sonho lúcido em 3.427 pessoas através de uma entrevista online. 

Os relatos de pesadelos referiram-se principalmente a situações que podiam ocorrer com maior probabilidade no cotidiano, como experimentar medo e ansiedade, ser ameaçado emocional ou fisicamente, passar por frustrações ou sentimentos desagradáveis. Por outro lado, eventos menos prováveis como desastres naturais, encontrar criaturas, monstros, espíritos ou fantasmas, perseguições ou estar numa guerra, foram menos relatados como conteúdos dos sonhos. Enquanto esses resultados parecem sustentar a noção freudiana de resíduos do dia, a hipótese é limitada pelo fato de que a dor, uma experiência relativamente comum em nossas vidas, não apareceu com frequência nos relatos de sonhos deste estudo e de outros autores. Todavia, os resultados foram mais compatíveis com a teoria de que os pesadelos, e talvez todos os sonhos, constituam simulações comportamentais adaptativas relacionadas às performances social, psicológica e biológica do sonhador (MOTA-ROLIM et al., 2013).

Evolutivamente, a teoria da simulação de ameaça é baseada no fato de que o ambiente pré-histórico, no qual o cérebro humano evoluiu, incluía frequentes eventos perigosos e ameaçadores com animais ou outros grupos de hominídeos, geralmente pela disputa por alimento e território. Nesse sentido, havia um desafio para o sucesso reprodutivo dos caçadores, caracterizando uma importante pressão da seleção natural sobre essas populações. Este modelo pode ser observado através da presença aumentada de conteúdos oníricos desse tipo em crianças jovens (nas quais o cérebro ainda não teve a chance de se ajustar à sociedade contemporânea), bem como o seu declínio gradual durante o desenvolvimento e envelhecimento (MOTA-ROLIM et al., 2013).

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Para quem se recorda do palhacinho do primeiro filme Poltergeist (1982): Bons Pesadelos!!!
Filme escrito e produzido por Steven Spielberg
FONTE: http://www.desktopimages.org/wallpaper/217620/poltergeist-horror-dark-thriller-movie-film-29

PESADELOS

Segundo o DSM-5, "os pesadelos são sequencias oníricas longas, elaboradas e semelhantes a uma narrativa que parece real e cria ansiedade, medo ou outras emoções disfóricas. O conteúdo do pesadelo costuma enfocar tentativas de evitar ou enfrentar o perigo iminente, mas pode envolver temas que evocam outras emoções negativas. Os pesadelos que ocorrem após experiências traumáticas podem replicar situações de ameaças ("pesadelos replicativos"), embora a maioria não o faça. Ao despertar, os pesadelos são bem lembrados e podem ser descritos com detalhes. Eles ocorrem quase que exclusivamente no sono REM e podem, dessa forma, ocorrer ao longo do sono, mas são mais prováveis na segunda metade do episódio principal do sono, quando os sonhos são mais longos e mais intensos. Fatores que aumentam a intensidade REM logo no início da noite, tais como fragmentação ou privação do sono, jet lag e medicamentos que interferem no sono REM, podem facilitar a ocorrência de pesadelos no início da noite, incluindo no início do sono" (APA, 2014).

"Em geral, os pesadelos terminam com o despertar e o retorno rápido ao estado pleno de alerta. No entanto, as emoções disfóricas persistem até a vigília e contribuem para a dificuldade de retornar ao sono e para o desconforto durante o dia. Alguns pesadelos, conhecidos como 'sonhos ruins', talvez não induzam o despertar e são lembrados somente mais tarde. Quando os pesadelos ocorrem durante os períodos de início do sono REM (hipnagógicos), a emoção disfórica é frequentemente acompanhada por uma sensação de estar acordado e ao mesmo tempo ser incapaz de se movimentar voluntariamente (paralisia do sono isolada)" (APA, 2014).

No Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) ocorre o aparecimento de sintomas de revivência, evitação, alterações negativas no humor e na cognição e de hipervigilância, que iniciam-se ao menos 30 dias após a vivência de uma experiência na qual houve ameaça ou risco real de morte, de prejuízo à integridade física da pessoa ou de violação sexual. O indivíduo pode experimentar diretamente a ameaça, ser testemunha dela ou saber que ocorreu a um familiar ou amigo próximo ou de detalhes de violência extrema ou de forma repetida (MELLO e FIKS, 2014). Um estudo longitudinal com veteranos de guerra do Vietnã, publicado em 2015 no periódico JAMA Psychiatry, concluiu que a síndrome do estresse pós-traumático, mesmo transcorridos quarenta anos desde o fim do conflito, ainda afeta cerca de 270 mil ex-combatentes. Uma das marcas mais características do trauma é a repetição de pesadelos relacionados ao evento causador ou às circunstâncias a ele associadas (RIBEIRO, 2019).

Conforme escreveu Zimerman (1999): "Os acontecimentos externos traumáticos costumam ser administrados pelo ego do indivíduo traumatizado por meio de uma lenta elaboração, por uma repetição de sonhos traumáticos, sendo que esse fato serviu para alguns autores retificarem que nem todos sonhos representam uma 'satisfação de desejos', mas, sim, que eles podem significar uma tentativa de elaboração de outras angústias, independentes de desejos (...)".


REFERÊNCIAS

American Psychiatric Association (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. - Porto Alegre: Artmed, 2014.

Mello MF, Fiks JP. Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Atualização terapêutica de Prado, Ramos e Valle: diagnóstico e tratamento. 25. ed. reformulada e atual. - São Paulo: Artes Médicas, 2014.

Eckeli AL. Sono e Neurologia. In: Lopes MC, Eckeli AL, Hasan R. Sono e Comportamento. 1. ed. - Rio de Janeiro: Atheneu, 2019.

Lopes MC, Pradella-Halliman M. Sono e Comportamento na Infância. In: Lopes MC, Eckeli AL, Hasan R. Sono e Comportamento. 1. ed. - Rio de Janeiro: Atheneu, 2019.

Mota-Rolim SA, Targino ZH, Blanco W, Araújo JF, Ribeiro S. Dream characteristics in a Brazilian sample: an online survey focusing on lucid dreaming. Front Hum Neurosci 2013; 7:836.

Pagel JF. What physicians need to know about dreams and dreaming. Curr Opin Pulm Med 2012; 18:574-79. 

Rechtschaffen A, Kales A. A Manual of Standardized Terminology, Techniques, and Scoring System for Sleep Stages of Human Subjects. UCLA, Los Angeles: Brain Information Service/Brain Research Institute; 1968.

Ribeiro S. O Oráculo da Noite: A História e a Ciência do Sonho. 1. ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Sadock BJ, Sadock V, Ruiz P. Compêndio de psiquiatria: ciência do comportamento e psiquiatria clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.

Scarpelli S, Bartolacci C, D'Atri A, Gorgoni M, Gennaro LD. The Functional Role of Dreaming in Emotional Processes. Front Psychol 2019; 10:459.

Soster LA, Lopes MC. Sono e Comportamento na Adolescência. In: Lopes MC, Eckeli AL, Hasan R. Sono e Comportamento. 1. ed. - Rio de Janeiro: Atheneu, 2019.

Vallat R, Ruby PM. Is It a Good Idea to Cultivate Lucid Dreaming? Front Psychol 2019; 10:2585.

Zimerman DE. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica - uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999.


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