segunda-feira, 20 de maio de 2024

Experiências Adversas na Infância, Inflamação e Transtornos do Humor

Blog Desvendando a Personalidade
A Neurociência e Neurobiologia do Desenvolvimento Humano

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O artigo "Long-term effect of childhood trauma: Role of inflammation and white matter in mood disorders", publicado em 2022 na revista Brain, Behavior, & Immunity - Health, investigou os efeitos duradouros dos traumas na infância sobre os transtornos do humor, com foco na inflamação e na substância branca do cérebro. Sara Poletti e colaboradores, afiliados ao Scientific Institute IRCCS Ospedale San Raffaele e à Vita-Salute San Raffaele University em Milão, Itália, realizaram uma abordagem detalhada para entender a relação entre traumas precoces, alterações cerebrais e respostas imunes.


FUNDAMENTAÇÃO DO ESTUDO

O estudo partiu do princípio de que as experiências adversas durante a infância (ACE) são capazes de modificar tanto a estrutura quanto a função do cérebro, influenciando assim o sistema imunológico de maneira que pode perdurar até a vida adulta, podendo contribuir para o desenvolvimento de transtornos psiquiátricos. Com um desenho elegante, o estudo envolveu 200 pacientes internados que foram diagnosticados com Depressão Maior (MDD) ou Transtorno Bipolar (BD). Através de questionários detalhados, como o Childhood Trauma Questionnaire, e análises sofisticadas de imagens por ressonância magnética (MRI), os pesquisadores buscaram correlações entre o histórico de trauma, marcadores inflamatórios no sangue e mudanças na microestrutura da substância branca cerebral.


MARCADORES INFLAMATÓRIOS

A análise dos marcadores sanguíneos imunológicos e inflamatórios desempenha um papel crucial, permitindo aos pesquisadores explorar como as experiências adversas na infância podem influenciar a resposta imune ao longo da vida. 

As citocinas são proteínas pequenas e solúveis, essenciais para a comunicação celular no sistema imunológico, agindo como reguladores da resposta do corpo aos estímulos, sejam eles infecções, inflamações ou traumas. No contexto do estudo, as citocinas como Interleucina (IL)-1β, IL-2, IL-4, IL-5, IL-6, IL-7, IL-8, IL-9, IL-10, IL-12, IL-13, IL-15, IL-17, Interferon (IFN)γ, e o Fator de Necrose Tumoral (TNF)α foram medidas. Cada uma dessas citocinas pode ter um papel pró-inflamatório ou anti-inflamatório e são vitais para entender a interface entre o trauma psicológico e a fisiologia imune.

As quimiocinas, como C-C motif ligand (CCL2, CCL3, CCL4, CCL5, CCL11) e C-X-C motif chemokine (CXCL10), são um subconjunto especializado de citocinas que induzem a quimiotaxia em células próximas, particularmente células imunes. Elas orientam o movimento das células imunes para os locais de inflamação, infecção ou trauma.

Os fatores de crescimento, como o basic fibroblast growth factor (bFGF), Granulocyte Colony Stimulating Factor (G-CSF), Granulocyte Macrophage Colony Stimulating Factor (GM-CSF), Platelet-Derived Growth Factor Beta (PDGF-B), e Vascular Endothelial Growth Factor (VEGF), desempenham papéis fundamentais na regulação do crescimento celular, diferenciação e reparação de tecidos. Estes fatores são cruciais para a cicatrização e regeneração de tecidos danificados, incluindo aqueles causados por estresse ou inflamação no cérebro.

A análise revelou que os níveis de diversos marcadores inflamatórios, como IL-2, IL-17, bFGF, IFN-γ, TNF-α, CCL3, CCL4, CCL5 e PDGF-BB, eram significativamente maiores apenas no grupo de pacientes com transtorno bipolar que haviam experimentado ACE. Este resultado sugere que a inflamação pode ser uma via através da qual o trauma infantil exerce efeitos duradouros, particularmente em indivíduos com transtorno bipolar, realçando a complexidade da interação entre o sistema imunológico e a saúde mental.


ALTERAÇÕES NA MICROESTRUTURA DA SUBSTÂNCIA BRANCA

O estudo empregou a técnica de Imagem por Tensor de Difusão (DTI) para examinar a integridade da substância branca, uma parte do cérebro fundamental para a comunicação neural. 

Para realizar essas medições, foram utilizados scanners de ressonância magnética de 3.0 Tesla no Centro d’Eccellenza di Risonanza Magnetica ad Alto Campo, no Hospital San Raffaele, em Milão. A DTI é uma técnica que captura dados sobre a difusão de água nas fibras da substância branca, proporcionando informações sobre a integridade dessas fibras. 

Uma vez adquiridas, as imagens passaram por um pré-processamento rigoroso que envolveu a correção de movimentos e distorções causadas por correntes, utilizando técnicas avançadas de registro e correção. A remoção de imagens de tecido não cerebral foi realizada para garantir que apenas as regiões de interesse fossem analisadas. Após o pré-processamento, as imagens foram analisadas utilizando o método Tract-Based Spatial Statistics (TBSS), que é uma abordagem consolidada para a análise de dados de DTI em múltiplos sujeitos. Esta técnica envolve alinhar as imagens de todos os participantes em um espaço comum e extrair a "espinha" da substância branca, representando os centros dos tratos comuns a todos os sujeitos. Isso permite comparações diretas entre os grupos, neste caso, entre aqueles com diferentes históricos de trauma infantil. 

Para alguém que não está familiarizado com os termos técnicos da neurociência, a anisotropia fracionada (FA) e a difusividade radial (RD) podem parecer conceitos complicados. Seguem suas definições de forma mais didática:

Anisotropia Fracionada: Este termo se refere à maneira como a água se move ao longo dos tratos de fibras nervosas no cérebro. Em um cérebro saudável, a água tende a se mover mais uniformemente ao longo dessas trilhas, o que facilita a comunicação eficiente entre diferentes partes do cérebro. Uma redução na anisotropia fracionada significa que essa movimentação da água está menos direcionada do que deveria ser, o que pode indicar que as conexões nervosas estão danificadas ou não funcionam tão bem quanto deveriam. Isso pode afetar como as informações são processadas pelo cérebro, potencialmente impactando tudo, desde a forma como alguém pensa até como eles regulam suas emoções.

Difusividade Radial: Este é outro modo de descrever como a água se move, mas, em vez de seguir ao longo das trilhas, olha para como a água se move perpendicularmente a elas. Um "aumento na difusividade radial" significa que a água está escapando mais dessas trilhas e se espalhando lateralmente. Isso também sugere que há algum dano ou enfraquecimento nas fibras nervosas, o que pode comprometer a estrutura e a função do cérebro.

Os resultados indicaram que experiências adversas na infância estavam associadas a uma redução na FA e um aumento na RD em vários tratos de substância branca. Notavelmente, estas alterações foram observadas de forma mais consistente nos pacientes com transtorno bipolar em comparação aos pacientes com depressão maior, sugerindo que o impacto do trauma infantil sobre a estrutura cerebral pode variar significativamente dependendo do tipo específico de transtorno de humor.


PAPEL MEDIADOR DA INFLAMAÇÃO

Os pesquisadores exploraram mais aprofundadamente a relação entre trauma, inflamação e alterações na substância branca, conduzindo análises de mediação para entender se a inflamação poderia ser o elo entre o trauma infantil e as mudanças observadas na substância branca. Descobriram que o efeito do trauma sobre a microestrutura da substância branca era parcialmente mediado pelos níveis de IL-2, um marcador inflamatório. Esse resultado é particularmente revelador, pois ilustra que não apenas o trauma infantil impacta diretamente a estrutura cerebral, mas também faz isso indiretamente através de modificações no sistema imunológico.

A pesquisa oferece uma visão valiosa de como experiências negativas na infância estão intricadamente ligadas a processos biológicos que influenciam a saúde mental na vida adulta. Os achados destacam a importância de considerar a inflamação como um alvo potencial para tratamentos futuros e intervenções preventivas em indivíduos em risco de desenvolver transtornos de humor devido ao trauma infantil.




REFERÊNCIA


Poletti S, Paolini M, Ernst J, Bollettini I, Melloni E, Vai B, Harrington Y, Bravi B, Calesella F, Lorenzi C, Zanardi R, Benedetti F. Long-term effect of childhood trauma: role of inflammation and white matter in mood disorders. Brain Behav Immun Health. 2022;26:100529.



Por Décio Gilberto Natrielli Filho

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