quinta-feira, 23 de junho de 2022

Existe uma Personalidade Aditiva? Fatores envolvidos nos Transtornos Relacionados a Substâncias

Blog Desvendando a Personalidade

A Neurociência e Neurobiologia do Desenvolvimento Humano

Fonte: https://www.healingspringsranch.com/rehab-blog/12-ways-to-know-if-you-have-an-addictive-personality/

 

A existência de algumas características comuns de personalidade entre indivíduos com transtornos relacionados a substâncias (TRS), como álcool, nicotina e outras drogas, além do transtorno do jogo, levou diversos pesquisadores a questionar a possibilidade de um transtorno da personalidade específico para esta população, chamada no inglês de Addictive Personality.

O termo "Personalidade Aditiva" faz referência à possibilidade de que indivíduos com TRS tenham um tipo de personalidade comum que estaria presente antes do início dos problemas com substâncias psicoativas. Alguns traços seriam: dificuldade para adiar gratificação; tendência a busca por sensações (do inglês, sensation seeking); traços antissociais; rebeldia; impulsividade e valorização de uma não-conformidade às normas da sociedade. 

Apesar das tentativas de diversos países de proclamarem uma guerra às drogas, os TRS persistem como um dos mais prevalentes transtornos psiquiátricos em todo o mundo, com prevalências de abuso ou dependência variando entre 10 a 20% na população geral para qualquer substância.

Um padrão de vulnerabilidade para desinibição ou prejuízo na autorregulação parece ser o fator de risco central associado tanto com a iniciação quanto com a manutenção dos TRS. Os problemas envolvendo álcool, tabaco e outras drogas frequentemente ocorrem em comorbidade com outros transtornos mentais, tais como transtornos do humor e ansiosos, transtornos da personalidade e transtornos psicóticos.

A autorregulação ou o esforço para o controle (do inglês, effortful control, sigla EC), refere-se a habilidade para a regulação dos comportamentos, emoções e cognições. O EC é considerado uma dimensão transdiagnóstica que está por trás de psicopatologias externalizantes (como TRS e Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade - TDAH) e internalizantes (como ansiedade e transtornos do humor). O EC funciona como uma dimensão regulatória do temperamento que envolve o controle da atenção, inibição e ativação, além de refletir habilidades da autorregulação que se desenvolvem mais tardiamente na vida, em paralelo com o córtex pré-frontal, fazendo a modulação de cima para baixo do impulsos (do inglês, top-down).

Nesse sentido, a psicopatologia emergiria como o desequilíbrio entre dois sistemas neurobiológicos complementares: (1)Os sistemas comportamentais de inibição e ativação (do inglês, respectivamente, behavioral inhibition system [BIS] e behavioral activation system [BAS]), ambos relacionados à modulação dos impulsos de baixo para cima (do inglês, bottom-up) e (2)O sistema de autorregulação ou EC com direcionamento top-down. As teorias sobre a vulnerabilidade para a psicopatologia enfatizam o papel da autorregulação ou EC, que poderia moderar a associação entre as tendências de reatividade temperamentais do BIS/BAS e as manifestações psicopatológicas.

As dimensões reativas dos temperamentos são descritas na Teoria da Sensibilidade ao Reforço de Gray (TRG), na qual o BAS corresponde à sensibilidade a recompensa e o BIS refere-se à sensibilidade a punição. A reatividade do temperamento no modelo da TRG refere-se aos processos bottom-up que podem ser observados precocemente na infância (como é definido o conceito de temperamento em outros modelos descritos neste Blog). Pessoas com elevado BAS tendem a ser mais impulsivos e extrovertidos, enquanto aquelas com elevado BIS apresentam maior propensão para ansiedade e associação com o Neuroticismo (uma dimensão do modelo BIG-FIVE, também já descrito neste Blog).

Problemas internalizantes, como ansiedade e transtornos do humor, estão mais associados à uma hiperativação do BIS e baixos níveis de EC, enquanto os problemas externalizantes (como TRS) estão relacionados à hiperativação do BAS, baixos níveis de EC e hipoativação do BIS, o qual falha em inibir os comportamentos disfuncionais iniciados pelo BAS. Portanto, a autorregulação modula a relação BIS/BAS.

De fato, na literatura médica, a sensibilidade do BAS e os baixos níveis de autorregulação mostraram-se associados a diversos tipos de abuso de substâncias, atuando como um previsor da reatividade a sinais relacionados ao álcool, fissura induzida pela sugestão e expectativas positivas vinculadas ao consumo de álcool. Adicionalmente, sabe-se que a falta dos processos autorregulatórios é um fator de risco nuclear para a iniciação e continuação dos TRS. Níveis elevados de EC foi associado ao menor uso de substâncias e diminuição na frequência do beber.

O uso crônico de drogas leva a um prejuízo nas redes de controle cerebrais, incluindo regiões como o córtex pré-frontal dorsolateral, córtex pré-frontal ventromedial e córtex cingulado anterior, enfraquecendo a capacidade de autorregulação quando o indivíduo é exposto a facilitadores para o uso de drogas, agravando o ciclo aditivo.

Observou-se que um grupo específico de pacientes com TRS caracterizado por níveis elevados de BIS e baixos de EC apresentou as manifestações psicopatológicas mais intensas em uma ampla dimensão de sintomas (principalmente em sintomas internalizantes como depressão e ansiedade), além de mais diagnósticos de Transtornos da Personalidade dos Clusters B e C, quando comparado com o grupo de pacientes com TRS caracterizado por níveis elevados de BAS e baixo EC.

Resumidamente, pessoas com transtornos relacionados a substâncias (e aqueles também com compulsão sexual) tendem a ser: mais espontâneos, descuidados e pouco confiáveis (ou seja, baixos escores de conscienciosidade); colocam seus interesses pessoais acima das necessidades alheias (ou seja, baixos escores de amabilidade); demonstram instabilidade emocional e vivenciam emoções negativas como raiva, ansiedade ou depressão (ou seja, elevados escores de neuroticismo); mostram-se menos capazes de controlar sua atenção e comportamento (baixos escores de EC e autodirecionamento) e sentem-se absorvidos por uma sensação constante de ativação comportamental (ou seja, altos escores de busca de novidades).

Quanto às comorbidades com outros transtornos psiquiátricos, os fatores do temperamento humano também estão implicados nessa predisposição. Os principais transtornos mentais associados aos TRS são: depressão, ansiedade, transtorno da personalidade antissocial (TPAS) e borderline (TPB), esquizofrenia e outros transtornos psicóticos.

O Centro Europeu de Monitoramento para as Drogas e Adição (European Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction - EMCDDA) reportou em 2015 que a depressão é a principal comorbidade psiquiátrica com os TRS, com prevalências entre 12 e 80% dependendo da amostra e metodologia. Os transtornos ansiosos também são comuns em comorbidade com os TRS, com uma prevalência estimada de até 35%. Contudo, as supostas relações causais entre os transtornos ansiosos, como a teoria da automedicação para o alivio dos sintomas e ansiedade induzida por substâncias, não estão bem estabelecidas e dependem das combinações entre as drogas e o tipo de transtorno ansioso (como, por exemplo, transtorno de estresse pós-traumático e transtorno de pânico).

As pesquisas com transtornos da personalidade (TP) mostraram comprometimentos nos processos de autorregulação (baixo EC) e que TP do Cluster B eram caracterizados por níveis elevados de BAS, do Cluster C por elevado BIS e do Cluster A por um padrão misto de BIS/BAS.

Os transtornos da personalidade e os transtornos relacionados a substâncias são geralmente comórbidos, com prevalências de TP em indivíduos com TRS variando de 24 a 90% dependendo da amostra e metodologia. Considerando especificamente o TPB e o TPAS, a desregulação emocional e a impulsividade têm um importante papel em ambos os transtornos.

Beber para lidar com a ansiedade e a afetividade negativa (dimensão da personalidade) é um importante marcador para problemas atuais e futuros com o álcool em indivíduos com níveis elevados de BIS, podendo contribuir para um reforço do padrão de dependência - nesse sentido, as pesquisas apontam para uma sobreposição da neurobiologia da afetividade negativa e os TRS. A afetividade negativa, associada à síndrome de abstinência, está associada a uma hipoativação do sistema de recompensa e ativação dos neurotransmissores associados ao estresse. A amígdala, envolvida nas respostas afetivas e emocionais, apresenta conexões com áreas cerebrais envolvidas no funcionamento executivo (córtex pré-frontal medial), reatividade ao estresse (região paraventricular do hipotálamo e locus coeruleus) e sistema de recompensa (núcleo accumbens e área tegmental ventral). O uso crônico de álcool também tem sido associado a neuroadaptações na amígdala central semelhantes àquelas que ocorrem no estresse crônico.

O TPAS tem se mostrado associado aos TRS, principalmente álcool, cannabis e tabaco. Os transtornos relacionados ao álcool são mais graves em pacientes antissociais (início mais precoce e rápida progressão para o padrão de dependência). Alguns traços antissociais envolvendo planejamento, regulação, ansiedade e impulsividade, poderiam representar endofenótipos associados a um maior risco de transtornos relacionados ao uso de cocaína e anfetaminas.

Indivíduos com transtorno da personalidade borderline também abusam de substâncias psicoativas, podendo desenvolver um TRS comórbido, apresentar tentativas de suicídio com "overdose" de repetição, relatando descaso com suas vidas e desejo de morrer, não se importando com as consequências para a sua integridade. Neste último caso, quando sóbrios, pacientes com TPB teriam maior probabilidade de controlar seus impulsos. Contudo, dependendo da substância, durante a intoxicação, o prejuízo do sistema de inibição dos impulsos poderia concretizar um ato mais autoagressivo e de risco relacionado ao consumo de álcool e drogas. A combinação de TPB com depressão e TRS é um importante fator de risco para o suicídio.

Na prática clínica, podemos encontrar, invariavelmente, dificuldades para diferenciar o que veio primeiro: uma personalidade predisposta a adição ou os efeitos de longo prazo das substâncias psicoativas levando a vivências e experiências que moldariam a personalidade do indivíduo na direção de um transtorno. No ciclo vital, podemos observar alguns tipos de temperamentos que, associados a outros fatores biológicos, genéticos, epigenéticos e ambientais, poderiam determinar quadros de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e transtorno de oposição desafiante, os quais proporcionariam uma maior vulnerabilidade ao consumo de álcool, tabaco e drogas na adolescência, bem como a comorbidades como depressão e ansiedade. Ao avaliar um adulto, o profissional necessita investigar todos os determinantes do desenvolvimento para, assim, obter uma maior compreensão do quadro psicopatológico atual. Independente das indicações para o tratamento baseado em evidências, como medicações e psicoterapia, essa visão dimensional do adoecimento poderia ajudar no melhor direcionamento de cada caso.

 

REFERÊNCIAS

Amodeo M. The Addictive Personality. Subst Use Misuse, 2015. doi10.3109/10826084.2015.1007646

Dash GF, Slutske WS, Martin NG, Statham DJ, Agrawal A, Lynskey MT. Big 5 Personality Traits and Alcohol, Nicotine, Cannabis, and Gambling Disorder Comorbidity. Psychol Addict Behav. 2019; 33(4):420-429.

Efrati Y, Kraus SW, Kaplan G. Common Features in Compulsive Sexual Behavior, Substance Use Disorders, Personality, Temperament, and Attachment - A Narrative Review. Int J Environ Res. 2022: 19: 296.

Fuchshuber J, Unterrainer HF. Childhood Trauma, Personality, and Substance Use Disorder: The Development of a Neuropsychoanalytic Addiction Model. Front Psychiatry. 2020; 11:531.

Jauk E, Dieterich R. Addiction and the Dark Triad of Personality. Front Psychiatry. 2019; 10:662.

Natrielli Filho DG. Neurobiologia da Personalidade: Temperamento, Caráter, Diagnóstico e Tratamento dos Transtornos da Personalidade. Orlando (FL), 2022. ISBN: 9798800752502

Santens E, Dom G, Dierckx E, Claes L. Reactive and Regulative Temperament in Relation to Clinical Symptomatology and Personality Disorders in Patients with a Substance Use Disorder. J Clin Med. 2022; 11:591


Por Décio Gilberto Natrielli Filho

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