domingo, 31 de maio de 2020

O Modelo dos Cinco Fatores da Personalidade - "Big Five"

Fonte: https://www.uhdpaper.com/2019/02/mountain-landscape-trees-nature-scenery.html

Nesta publicação do Blog Desvendando a Personalidade, a colaboração da pesquisa sobre a Personalidade foi da Dra. Karina Mayumi Kawakami. Médica graduada pela Faculdade de Medicina do ABC, concluiu a Residência Médica de Pediatria pela Faculdade de Medicina do ABC, com título de especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Atualmente, a Dra Karina é Médica Residente do segundo ano da Residência de Psiquiatria da Universidade de Santo Amaro (UNISA).

Dra. Karina Mayumi Kawakami

INTRODUÇÃO

Um dos progressos mais importantes no estudo da Personalidade foi a emergência do Modelo dos Cinco Fatores (MCF), elaborado a partir dos estudos de Raymond Bernard Cattel, apud Hall et al. (2000), e que serve como uma base conceitual para grande parte do trabalho contemporâneo no estudo e avaliação da Personalidade. Existem diversas versões dos Cinco Fatores (ou "Big Five") e o modelo não foi adotado universalmente, mas incorpora a abordagem biológica e genética do comportamento humano. O desenvolvimento dos Cinco Fatores na verdade começa com Allport e Odbert em 1936.

De acordo com Gordon Allport, a Personalidade é “um complexo amálgama de características, relacionamentos humanos, contexto atual e motivação”. Há quem considere Allport um dos fundadores da psicologia da Personalidade, por ter sido o primeiro pesquisador da era moderna a realizar um estudo mais aprofundado sobre o assunto. Algumas de suas frases marcantes mostram como este autor pensava a psicologia: 

“As pessoas estão ocupadas em viver para o futuro, enquanto a psicologia ocupa-se em saber, na maior parte do tempo, o que elas viveram no passado”. 

“Os tipos de personalidade não estão nas pessoas ou na natureza, mas nos olhos de quem observa”. 

“Podemos dizer que um indivíduo tem uma característica, mas não que pertence a um tipo”. 

“Qualquer teoria que considere a personalidade estável, fixa ou invariável está errada”. 

Gordon Allport teve como colaboradores seu irmão, Floyd Allport, e seu colega H. S. Odbert. Os irmãos Allport elaboraram um questionário que teria o objetivo de avaliar a Personalidade, baseados no conceito de que a Personalidade “é forjada pelas relações com os outros”. Juntamente com seu colega, propuseram que as diferenças individuais mais acentuadas e de maior relevância social na vida das pessoas acabam em algum momento se refletindo na linguagem; e quanto mais relevante a diferença, maior a possibilidade de existir uma única palavra para expressá-la. 

Isso é conhecido como Hipótese Léxica, a qual foi primeiramente articulada por Sir Francis Galton. Allport e Odbert deram prosseguimento ao estudo, analisando possíveis diferenças individuais extraindo todos os termos relevantes do Webster's Unabridged Dictionary. Encontraram cerca de 18 mil palavras para descrever Personalidade. Acabaram reduzindo esta lista para 4.500 adjetivos que, segundo eles, representariam traços de Personalidade observáveis e estáveis (HALL et al., 2000; CLONINGER, 1999).

Raymond Cattel (1943), apud Hall et al. (2000), usou os termos descritivos de Allport e Odebert como um ponto de partida para suas análises de estrutura da Personalidade. Warren Norman (1963) também confirmou um modelo de Cinco Fatores usando um conjunto selecionado de variáveis de Cattel. Seguindo o trabalho de Norman, Goldberg (1981, 1990, 1993) realizou uma série de estudos investigando a estrutura subjacente dos termos (adjetivos) que descrevem traços.

Dando continuidade ao processo histórico, um programa de pesquisa separado, de Costa e McCrae (1992) também identificou uma estrutura de Cinco Fatores ao investigar as questões de Personalidade em vez de termos descritivos. Eles usaram os seguintes rótulos para esses Cinco Fatores: Abertura, Conscienciosidade, Extroversão, Amabilidade e Neuroticismo. Portanto, de forma confluente, existem dois modelos paralelos de Cinco Fatores: um do trabalho léxico e outro do trabalho com questionários de Personalidade (HALL et al., 2000).

Os traços da Personalidade têm consequências para todos os indivíduos, no sentido de que suas características estão associadas a uma variedade de indicadores nos níveis individual, interpessoal e social, tais como: felicidade; saúde física e psicológica; espiritualidade e identidade; qualidade das relações familiares, amorosas e com outras pessoas; desempenho profissional; envolvimento na comunidade; sistema de valores morais e ideologia política. 

No Blog Desvendando a Personalidade, temos as publicações referentes ao modelo da Personalidade de Cloninger e colaboradores. Neste trabalho, será explorado também um modelo importante e extensamente validado na ciência, que avalia os traços da Personalidade e é conhecido como “Big Five” (MAZER et al., 2017). 

O modelo “Big Five” ou MCF, descrito por Costa e McCrae, identifica cinco dimensões para os traços da Personalidade e que pode ser lembrado pelo acrônimo OCEAN: 

(O)Openness - Abertura a Experiências; 

(C)Conscientiousness – Conscienciosidade; 

(E)Extraversion – Extroversão; 

(A)Agreeableness – Amabilidade 

(N)Neuroticism - Neuroticismo. 

Cada uma dessas dimensões é dividida em seis facetas, totalizando trinta (DIENER E LUCAS, 2019). Todas as dimensões e facetas da Personalidade, abordadas neste modelo, podem ser determinadas através de dois testes com 240 e 60 questões auto avaliativas, respectivamente o Inventário de Personalidade NEO PI-R e o Inventário de Cinco Fatores NEO Revisado – NEO-FFI-R. 

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Fonte: https://www.uhdpaper.com/2020/03/sea-cave-girl-sunset-nature-scenery-4k.html
EXPLORANDO AS CINCO DIMENSÕES DO BIG FIVE 

(O)Abertura a Experiências (Openness): 

Indivíduos “abertos” são curiosos sobre seus mundos tanto interno quanto externo, e suas vidas são ricas em experiências. São dispostos a se divertir com novas ideias e valores não convencionais e vivenciam tanto emoções positivas quanto negativas mais fortemente que aqueles “fechados”. Pessoas com escores baixos em O tendem a apresentar comportamento convencional e ponto de vista conservador. Elas preferem o familiar ao novo, suas respostas emocionais não se apresentam de forma descomedida (COSTA e MCCRAE, 2005). 

(C)Conscienciosidade (Conscientiousness): 

O indivíduo consciencioso é descrito por Costa e McCrae como uma pessoa propositada, com força de vontade, determinada. Do lado positivo, alto C é associado com realização acadêmica e ocupacional; do lado negativo, pode induzir a um estado de alta exigência, limpeza compulsiva ou compulsão pelo trabalho. Baixos escores não são necessariamente desprovidos de princípios morais, mas indicam pessoas menos exigentes ao aplicá-los ou simplesmente mais distraídas (há alguma evidência de que são mais hedonistas e interessadas em sexo). 

(E)Extroversão (Extraversion): 

Extrovertidos são sociáveis, preferem grupos amplos e reuniões de pessoas, são também assertivos, ativos e falantes. Gostam de excitação e estimulação, e tendem a ser alegres e bem dispostos. São também positivos, enérgicos e otimistas. Aqueles com baixos escores de extroversão, ou introvertidos, são mais reservados do que “pouco amigáveis”, são mais independentes do que seguidores; podem dizer que são tímidos quando preferem ficar sozinhos (introvertidos não são infelizes ou pessimistas) (COSTA e MCCRAE, 2005). 

(A)Amabilidade (Agreeableness): 

Segundo Costa e McCrae, a pessoa amável é fundamentalmente altruísta, simpática com os outros e anseia por ajudá-los. Acredita que, em contrapartida, os outros serão igualmente amáveis. Em contraste, a pessoa antagonista, ou não cordial, é egocêntrica, cética sobre as intenções dos outros e mais competitiva do que cooperativa. Também é o caso de que as pessoas amáveis sejam mais populares que os indivíduos antagonistas, mas em contrapartida, podem ser mais vulneráveis em situações de competição. Como nenhum polo dessa dimensão é intrinsecamente melhor do ponto de vista da sociedade, nenhum é necessariamente melhor em termos de saúde mental dos indivíduos. 

(N)Neuroticismo (Neuroticism): 

Tendência a vivenciar estados emocionais negativos que interferem na adaptação é, provavelmente, um dos determinantes de que homens e mulheres com altos escores em N sejam propensos a apresentar ideias irracionais, a serem pouco hábeis em controlar seus impulsos e a lidar pobremente com o estresse. Como o próprio nome sugere, pacientes antigamente classificados como “neuróticos” tendem a apresentar altos escores neste fator e alguns deles podem desenvolver transtornos mentais. Contudo, a escala N do NEO PI-R mede a dimensão “normal” da personalidade e, portanto, N não pode ser considerada uma medida de psicopatologia. É possível obter altos escores em N e, entretanto, não apresentar nenhum tipo de transtorno mental. Por outro lado, nem todas as categorias de transtornos psiquiátricos implicam altos níveis de N. Pessoas com baixos escores de N são emocionalmente estáveis, calmas, moderadas, tranquilas e capazes de encarar situações estressantes sem aborrecimento ou perturbação (COSTA e MCCRAE, 2005). 

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Fonte: https://www.uhdpaper.com/2020/04/astronaut-solar-system-sun-planets.html

FACETAS DE CADA DIMENSÃO DO BIG FIVE 

Há uma série de vantagens na estratégia de avaliar uma variedade de facetas. Primeiro, assegura que os itens usados para medir o domínio cubram um espectro de pensamentos, sentimentos e ações tão amplo quanto possível. Em segundo lugar, dispor de uma série de facetas independentes para cada domínio permite a replicação interna dos resultados. A terceira e crucial vantagem da abordagem multifacetada para a medida dos cinco fatores surgiu do fato de que diferenças individuais podem ser encontradas dentro dos domínios (COSTA e MCCRAE, 2005). 

Um exame das facetas pode promover uma análise mais refinada das pessoas ou dos grupos. Isso pode ser particularmente esclarecedor quando o escore do domínio geral está na faixa média. Finalmente, uma informação detalhada a partir da consideração dos escores das facetas pode ser útil na interpretação de construtos e formulação de teorias. A Extroversão é sabidamente relacionada com o bem estar psicológico, mas um olhar mais detalhado mostra que duas das facetas, Acolhimento e Emoções Positivas, são as principais responsáveis por esta associação. Por outro lado, a faceta Busca de Sensações não está relacionada com o bem-estar. Tais resultados têm importante implicação para a teoria da Personalidade (COSTA e MCCRAE, 2005). 

(O) ABERTURA A EXPERIÊNCIAS: 

Segundo Costa e McCrae, convencionalmente as facetas de O são designadas a cobrir aspectos ou áreas de experiências para as quais o indivíduo está aberto. Portanto, uma pessoa com alto escore na escala da Fantasia deleita-se com novas, ricas e variadas experiências em seu mundo de fantasias, ou um alto escore na escala de ideias desfruta de novas experiências, ricas e variadas, em sua vida intelectual. 

(O1)Fantasia: tendência de uma imaginação vívida e criativa; os indivíduos devaneiam não apenas como uma forma de escape, mas como uma maneira de criar para si mesmos um mundo interno interessante. Pessoas com baixos escores são pessoas que preferem manter a mente em tarefas concretas. 

(O2)Estética: profunda apreciação pela arte, poesia, música e beleza. Não necessariamente possuem talentos artísticos, nem sempre são aquelas a quem as pessoas consideram de “bom gosto”, mas seus interesses nessas áreas auxiliam num melhor desenvolvimento e conhecimento em diversas áreas. Baixos escores desta faceta correspondem a pessoas desinteressadas em arte e beleza. 

(O3)Sentimentos: receptividade aos próprios sentimentos ou afetos e avaliação das emoções como parte importante da vida. São pessoas que sentem felicidade ou infelicidade de maneira mais intensa. Baixos escores são pessoas relativamente embotadas afetivamente e não acreditam que estados emocionais possuam muita importância. 

(O4)Ações Variadas: vontade de experimentar diferentes atividades, novidades e ir para novos lugares. Pessoas com baixos escores são pessoas difíceis para mudanças que preferem manter-se na rotina e com a segurança do que já conhecem. 

(O5)Ideias: altos escores apreciam tanto argumentos filosóficos quanto desafios mentais; há a curiosidade intelectual e a mente aberta. Não está necessariamente associada a inteligência, mas pode contribuir para o desenvolvimento intelectual. Baixos escores correspondem a pessoas com curiosidade e foco em tópicos limitados. 

(O6)Valores: prontidão para reexaminar valores sociais, políticos e religiosos. Abertura a valores pode ser considerada oposta ao dogmatismo. Indivíduos fechados tendem a aceitar a autoridade e honrar tradições e, como consequência, são geralmente conservadores (COSTA e MCCRAE, 2005; HAN e PISTOLE, 2017). 

(C) CONSCIENCIOSIDADE: 

(C1)Competência: sensação de que é capaz e preparado para lidar com a vida. Pessoas com baixos escores se consideram despreparadas e inaptas. 

(C2)Ordem: tendência de ser limpo, arrumado e bem organizado. São pessoas que mantêm as coisas em seus próprios lugares. Baixos escores são indivíduos desorganizados e pouco metódicos. 

(C3)Senso do Dever: propensão a aderir a seus princípios éticos e cumprir escrupulosamente suas obrigações morais. Pessoas com baixos escores podem ser consideradas como mais casuais quanto a esses aspectos e menos confiáveis. 

(C4)Esforço por Realizações: são indivíduos com aspirações elevadas que trabalham para alcançar seus objetivos. Baixos níveis são pessoas distraídas e com baixa motivação para o sucesso. 

(C5)Autodisciplina: capacidade de iniciar tarefas e executá-las até a conclusão do trabalho. Pessoas com baixos escores procrastinam muito, são facilmente desencorajadas e anseiam por desisitr. 

(C6)Ponderação: predisposição a pensar cuidadosamente antes de agir, são indivíduos cautelosos e deliberadores. Baixos escores são pessoas apressadas que falam ou agem sem considerar as consequências (COSTA e MCCRAE, 2005; HAN e PISTOLE, 2017).

(E) EXTROVERSÃO: 

(E1)Acolhimento: são pessoas carinhosas e amigáveis; genuinamente gostam das pessoas e facilmente formam vínculos próximos com os outros. Pessoas com escores baixos são pessoas mais formais, reservadas e distantes. 

(E2)Gregarismo: refere-se à preferência pela companhia de outras pessoas, “quanto mais melhor”. Baixos escores nessa escala tendem a ser solitárias que não procuram ou até evitam outros indivíduos. 

(E3)Assertividade: tendência a ser dominante, vigoroso e sociável. Geralmente tornam-se líderes de grupos. Os indivíduos com baixos escores são pessoas que preferem ficar em segundo plano e deixar os outros aparecerem e falarem. 

(E4)Atividade: tendência de ser agitada, dinâmica e ágil; há a necessidade de se manter ocupada. São pessoas que levam a vida em um ritmo acelerado. Baixos níveis são pessoas vagarosas e calmas. 

(E5)Busca de Sensações: tendência para o desejo de excitação e estimulação. Gostam de ambientes barulhentos. Pessoas com baixos escores sentem pouca necessidade de emoções/excitações fortes, muitas vezes considerados por aqueles com altos escores como “entediantes”. 

(E6)Emoções positivas: altos escores nessa escala riem com facilidade e frequentemente são alegres e otimistas. Baixos escores não indicam que são pessoas infelizes, mas são menos bem humoradas e menos exuberantes (COSTA e MCCRAE, 2005; HAN e PISTOLE, 2017). 

(A) AMABILIDADE: 

(A1)Confiança: a tendência de acreditar que os outros são honestos e bem-intencionados. Baixos escores são pessoas que tendem a ser cínicas, céticas e consideram outros como pessoas desonestas e perigosas. 

(A2)Franqueza: a tendência a ser franco, sincero e ingênuo. Baixos escores são pessoas manipuladoras e enganadoras. 

(A3)Altruísmo: preocupação ativa pelo bem-estar dos outros e demonstram generosidade e disposição em ajudar. Pessoas com baixos escores são relutantes em se envolver com problemas e ajudar os outros. 

(A4)Complacência: tendência de perdoar, esquecer e inibir a agressão. São pessoas meigas e dóceis. Pessoas com baixos escores expressam raiva com facilidade, são agressivas e têm baixa cooperação. 

(A5)Modéstia: altos escores nessa escala correspondem a indivíduos humildes e modestos, mas não lhes faltam autoconfiança e autoestima. Baixos escores são aqueles que se consideram superiores, muitas vezes aparentam ser presunçosos e arrogantes por outras pessoas. 

(A6)Sensibilidade: simpatia e preocupação com lado humano das políticas sociais. Baixos escores são pessoas impiedosas e menos movidos pela compaixão (COSTA e MCCRAE, 2005; HAN e PISTOLE, 2017). 

(N) NEUROTICISMO: 

(N1)Ansiedade: indivíduos ansiosos são apreensivos, medrosos, tensos, agitados e preocupados. Escores altos ocorrem em pessoas propensas a medos e ansiedades. Escores baixos são aqueles calmos, relaxados e que não antecipam catástrofes – são menos prováveis de apresentar estados emocionais negativos. 

(N2)Raiva/Hostilidade: tendência a sentir raiva, frustração e amargura, tornando-se pessoas não cordiais. Baixos níveis são pessoas fáceis de se lidar e baixa reatividade à raiva. 

(N3)Depressão: predisposição a experimentar sentimentos de culpa, tristeza, desesperança e solidão. São pessoas desanimadas e sem coragem. Indivíduos com baixos escores raramente apresentam essas emoções, mas não são necessariamente alegres e sem preocupação, pois essas características são da Extroversão. 

(N4)Emabarço/Constrangimento: propensão a sentir vergonha e constrangimento. São pessoas que se sentem desconfortáveis com os outros e inferiores. Essa faceta se aproxima da timidez. Baixos escores são indivíduos menos perturbados por situações sociais desafiadoras. 

(N5)Impulsividade: desejos são percebidos como sendo tão fortes que o indivíduo com alto escore não consegue resistir a eles, apesar de poder se arrepender posteriormente de seu comportamento. Baixos escores têm alta tolerância às tentações e à frustração. 

(N6)Vulnerabilidade: predisposição ao estresse, de sentir-se oprimido ou em pânico quando enfrenta situações conflituosas, tornando-se dependente e sem esperanças. Indivíduos com baixos escores são capazes de conduzir situações difíceis (COSTA e MCCRAE, 2005; HAN e PISTOLE, 2017). 

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Fonte: https://www.wallpaperflare.com/eclipse-milky-way-space-earth-atmosphere-of-earth-sky-wallpaper-rrtp

ESTUDOS COM O MCF - "BIG FIVE"

Conforme descrito no início do texto, o Big Five surgiu da aplicação dos princípios da abordagem léxica da personalidade. Essa abordagem começou teoricamente com a chamada hipótese lexical, sustentando que nosso estoque comum de palavras, nosso léxico, incorpora as distinções que os seres humanos acham valer a pena descrever. O sucesso inicial do modelo Big Five foi causado, entre outros, por Norman (1963) e pelo projeto psicolexical liderado por Goldberg (1981). Isso fez com que Costa e McCrae (1992) adicionassem dois fatores, Amabilidade e Conscienciosidade, ao seu próprio modelo até então consistindo em Neuroticismo, Extroversão e Abertura a Experiências. A ascensão do modelo Big Five no início dos anos 1990 foi aplaudida como uma possível solução em relação à falta de um modelo para a Personalidade, mas com forte oposição, especialmente de Eysenck (1992).

Hans Eysenck (1991, 1992), apud Hall et al. (2000), propôs três dimensões básicas da Personalidade: Extroversão, Neuroticismo e Psicoticismo. Ele argumentou que a Extroversão e o Neuroticismo correspondiam àqueles do Big Five com o mesmo nome, mas que Amabilidade e Conscienciosidade deveriam ser reunidas em seu fator de Psicoticismo.

O modelo Big Five levou ao desenvolvimento de vários instrumentos para medir as cinco dimensões, incluindo o NEO PI-R e o NEO-FFI-R. Um número enorme de estudos foi realizado relacionando Big Five com outros conceitos. De especial interesse, são as relações que foram demonstradas entre todos ou alguns dos cinco grandes fatores e uma grande variedade de critérios como a abertura à diversidade, Personalidade no trabalho, influência na educação e até na resiliência (RAAD e MLACIC, 2015). 

O Big Five, com suas facetas, responde pela individualidade das pessoas e influência nos processos psicossociais, como atitudes, motivações, cognições e interações sociais. Assim, a Personalidade é descrita como uma predisposição geral que influencia o comportamento, a cognição e a emoção, em situações específicas da diversidade cultural. A abertura à diversidade é necessária na sociedade moderna, pois a capacidade de interagir e negociar efetivamente com essas diferenças é essencial para o aprimoramento do pensamento crítico e reflexivo, e para criatividade e originalidade em performances de trabalho. Já a falta da abertura à diversidade pode aumentar a resistência defensiva ou fortalecer estereótipos negativos (HAN e PISTOLE, 2017). 

A resiliência também foi avaliada em associação com o Big Five. Foi realizada uma revisão com artigos até 2016 sobre estudos investigando as relações entre resiliência e traços da Personalidade do Big Five. Trinta estudos com um tamanho total de amostra de 15.609 atenderam à inclusão. No geral, a resiliência mostrou correlações negativas com o Neuroticismo e correlações positivas com outros quatro traços de Personalidade restantes. Isso sugere que os elementos centrais da resiliência geral incluem um nível mais alto de autocontrole e motivação para realizações, nível mais alto de emoções positivas, envolvimento com atividade social, maior nível de estabilidade emocional ou menor nível de emoções negativas (OSHIO et al., 2018). 

Há também grande interesse para avaliar as pessoas no trabalho. Existem benefícios financeiros para a contratação de uma pessoa positiva e produtiva; e muitos custos para contratar uma pessoa infeliz, improdutiva e difícil de lidar. Pesquisas acadêmicas mostraram que a capacidade cognitiva prediz o desempenho no trabalho, principalmente os complexos. Muitos acreditam que a inteligência é o melhor indicador do desempenho no trabalho. Com relação à Personalidade, é um assunto complexo. A validade dos testes de Personalidade na previsão do desempenho futuro do trabalho depende do teste, dos critérios e da amostra da população. O modelo Big Five é amplamente aceito, mas pode não fornecer a melhor previsão do comportamento no trabalho. Estudos recentes mostraram que dois deles são relevantes para todos os empregos, a saber, Neuroticismo e Conscienciosidade. Os gerentes de sucesso têm um perfil claro: eles tendem a ter pouco Neuroticismo, pouca Amabilidade, altos níveis de Extroversão e Conscienciosidade. Trabalhos diferentes exigem perfis diferentes, mas não há nenhum em que o alto Neuroticismo e a baixa Conscienciosidade sejam uma vantagem. Os testes de Personalidade podem facilitar a avaliação desses fatores a fim de se obter mais sucesso na previsão de comportamentos desviantes ou problemáticos no trabalho (FURNHAM, 2015). 

Nos profissionais de saúde, como médicos, o Big Five também pode ser usado para avaliar a empatia com pacientes. A empatia promove comunicação médico-paciente positiva e está associada a uma maior satisfação do paciente e adesão ao tratamento clínico. Foi realizado um estudo com estudantes de medicina na China em 2016 em que se avaliou a empatia com pacientes. Amabilidade tem associações fortes com preocupação empática indicando que é o fator de Personalidade mais importante. O Neuroticismo foi fortemente associado com o sofrimento pessoal. Assim, pacientes com alto Neuroticismo sentem mais compaixão e preocupação pelas dificuldades dos outros. Abertura a Experiências estava associada positivamente à tomada de perspectiva e negativamente associada ao sofrimento pessoal. Essas pessoas estão abertas a novas formas de pensar e mudanças em seu ambiente, tendo assim a sensibilidade e a perspicácia de entender outras pessoas. A relação negativa com o sofrimento pessoal pode ser explicado porque esses indivíduos tendem a ser mais tolerantes com a diversidade humana, mais abertos a várias situações e menos propensos a ficarem angustiados em resposta ao estado ou condição emocional dos outros. A Conscienciosidade foi positivamente associada à tomada de perspectiva. Isso pode ser explicado pelo fato de que esses indivíduos tendem a administrar conflitos interpessoais de maneira mais eficaz e provocam menos discordâncias devido a suas autodisciplinas e comportamento responsável. Este estudo revelou que cinco grandes traços da Personalidade eram preditores importantes na empatia entre estudantes de medicina chineses. Portanto, estratégias de intervenção individualizadas baseadas em traços da Personalidade podem ser integradas em programas para aumentar a empatia na educação médica (SONG e SHI, 2017). 

Costa, McCrae e Dye (1991) demonstraram que as medidas do NEO-PI de Extroversão correlacionam-se positivamente, e o Neuroticismo negativamente, com a autoestima. Da mesma forma, as pessoas que são felizes e satisfeitas com a vida tendem a ter escores mais altos em Extroversão e baixos escores em Neuroticismo (HALL et al., 2000).

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CONCLUSÃO 

A Personalidade é um construto complexo que motiva diversos estudos na área do conhecimento humano, a fim de compreender o modo pelo qual as pessoas se desenvolvem ao longo da vida e que implicações poderiam ter sobre determinados desfechos em nossa vida interpessoal, profissional e social. O Big Five ou Modelo dos Cinco Fatores nasceu dos estudos sobre a Teoria dos Traços da Personalidade, representando um avanço conceitual e empírico desta área, a qual já descreveu dimensões humanas básicas de forma consistente e replicável. Esse modelo pode ser útil para conhecer melhor o comportamento humano e melhorar o convívio no trabalho, nas relações familiares e na sociedade. 


REFERÊNCIAS 

Cloninger SC. Teorias da Personalidade. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

Collin C, Benson N, Ginsburg J, Grand V, Lazyan M, Weeks M. O Livro da Psicologia – Vários Colaboradores. São Paulo: Globo, 2012. 

Costa PT, McCrae RR. NEO PI-R - Inventário de Personalidade NEO Revisado e Inventário dos Cinco Fatores NEO Revisado - NEO-FFI-R (Versão Curta). VETOR EDITORA PSICO-PEDAGÓGICA LTDA, 2005. 

*Para aquisição do material acesse: 
http://b3.pinger.pl/1e3cf9d0dd944090de52f05478a7be58/neo.pdf 

Costa PT, McCrae RR. Revised NEO Personality Inventory (NEO-PI-R) and NEO Five-Factor Inventory (NEO-FFI) manual. Odessa, FL: Psychological Assessment Resources.

Diener E, Lucas RE. Personality Traits. In: Brewer L. General Psychology: Required Reading. Noba Project, 2019. 

Farina M, Lopes RMF, Argimon IIL. (2016) Perfil de idosos através do modelo dos cinco fatores de personalidade (Big Five): revisão sistemática. REVISTA DIVERSITAS - PERSPECTIVAS EN PSICOLOGÍA 2016; 12:(1). 

Furnham A. Personality Assessment: Overview. International Encyclopedia of the Social & Behavioral Sciences. 2nd ed. Volume 17. Elsevier, 2015. 

Hall CS, Lindzey G, Campbell JB. Teorias da Personalidade. 4ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

Han S, Pistole MC. Big Five Personality Factors and Facets as Predictors of Openness to Diversity. THE JOURNAL OF PSYCHOLOGY 2017; 151(8):752–766.
https://doi.org/10.1080/00223980.2017.1393377

Mazer AK et al. Transtornos da personalidade. Medicina (Ribeirão Preto, Online) 2017; 50(1):85-97. 

Oshio et al. Resilience and Big Five personality traits: A meta-analysis. Personality and Individual Differences 2018; 127: 54–60. 

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Song Y, Shi M. Associations between empathy and big five personality traits among Chinese undergraduate medical students. PLoS ONE 2017; 12(2): e0171665. doi:10.1371/journal.pone.0171665 

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