Blog Desvendando a Personalidade
A Neurociência e Neurobiologia do Desenvolvimento Humano
Hamnet é uma obra profundamente humana sobre amor, maternidade, ausência, criação artística e, principalmente, luto. Inspirado na morte do filho de William Shakespeare, o romance de Maggie O’Farrell transforma um acontecimento quase silencioso da biografia do dramaturgo em uma reflexão interna sobre como os seres humanos sobrevivem à perda.
Shakespeare quase nunca é chamado pelo nome durante a obra, como se a autora quisesse retirar dele o peso do mito e colocá-lo apenas como homem, marido e pai. O centro da narrativa é Agnes, sua esposa, uma mulher intuitiva, ligada à natureza, ao cuidado e à percepção emocional profunda.
Marcada pela morte precoce da mãe e pela convivência difícil com a madrasta Joan, Agnes herda da mãe um conhecimento quase místico. Ela consegue ler as pessoas pelo toque, percebendo emoções, imagens e destinos ocultos. Essa sensibilidade atravessa toda a obra.
O romance acompanha o amor entre Agnes e o jovem Shakespeare, ainda distante da figura monumental que se tornaria. Ele surge como um rapaz deslocado, sufocado pela vida em Stratford, incapaz de se encaixar no ofício do pai, fabricante de luvas, ou na rotina do campo.
Agnes percebe isso antes de todos e, de certa forma, é ela quem permite o nascimento do artista, ao incentivá-lo a partir para Londres. Lá, ele constrói sua companhia teatral e começa a enriquecer por meio das peças que escrevia escondido à noite. Porém, conforme cresce artisticamente, distancia-se fisicamente da família. Mesmo assim, a obra mostra que o vínculo entre eles permanece intenso.
A grande tragédia começa com a chegada da peste bubônica. Judith, filha gêmea de Hamnet, adoece gravemente. Agnes sempre acreditou que Judith seria a criança destinada à morte, especialmente após quase morrer no parto. Toda a atenção da família se volta para ela. Enquanto isso, Hamnet, silenciosamente, também começa a adoecer.
Existe, então, uma das cenas mais devastadoras do romance. Hamnet deita ao lado da irmã e diz que não consegue viver sem ela, que ela é sua outra metade. Os dois sempre trocaram de lugar, fingindo ser um ao outro, e, naquele momento, ele decide fazer isso pela última vez. Ao perceber a aproximação da morte, oferece sua própria vida em troca da dela.
Judith melhora; Hamnet piora. Agnes percebe tarde demais que esteve olhando para a criança errada o tempo inteiro. Quando entende isso, já não há mais como salvá-lo.
A partir da morte de Hamnet, o romance transforma-se numa investigação brutal sobre o luto. Cada personagem sofre de uma forma diferente. Judith perde parte de si mesma e não consegue mais dormir sozinha. Susanna, a irmã mais velha, reage com irritação, isolamento e raiva, sentindo que ninguém percebe sua dor.
Agnes entra em um estado selvagem de sofrimento: deixa de cuidar de si, não penteia mais os cabelos, não troca as roupas, não toma banho, negligencia a própria vida e afasta-se emocionalmente das filhas. O mundo perde o sentido. Sua relação com o marido se deteriora profundamente. Ela o culpa pela ausência, pelo fato de ele não ter presenciado a morte do filho e não compreender o horror que ela viveu. Para Agnes, ele não estava lá quando o filho morreu, e isso cria um abismo entre os dois.
Shakespeare também entra em colapso, mas de outra maneira. Seu luto é silencioso e isolado. Ele retorna rapidamente a Londres, alegando que sua companhia teatral depende dele, o que Agnes interpreta como uma traição. Entretanto, fugir para Londres era também uma forma de sobreviver. Ele se fecha emocionalmente, evita contato humano e passa a viver quase exclusivamente da criação artística.
Agnes percebe, ainda, sinais de infidelidade nas roupas e no corpo dele quando ele retorna para casa, embora isso nunca seja explicitamente discutido entre os dois. A mágoa permanece subterrânea, silenciosa, nunca completamente enfrentada. Mesmo assim, quando ele volta de Londres, os primeiros dias do casal são sempre frios e tensos, mas, aos poucos, os dois voltam a rir juntos, como se o amor sobrevivesse sob as ruínas do sofrimento.
O ponto mais extraordinário da obra ocorre quando Agnes descobre que Shakespeare escreveu uma nova tragédia chamada Hamlet. Inicialmente, ela sente revolta. Acredita que o nome do filho foi usado para transformar a dor da família em espetáculo e dinheiro. Porém, ao assistir à peça, começa lentamente a compreender o que ele realmente fez.
Conforme a tragédia avança, ela percebe que Hamlet não é uma exploração da morte do filho, mas a tentativa desesperada do pai de salvá-lo simbolicamente. Na peça, o pai é quem morre e retorna como fantasma para proteger o filho. É o inverso do que ocorreu na realidade. Shakespeare criou uma narrativa em que o pai oferece a própria vida pelo filho, como se estivesse reescrevendo o passado para suportar a culpa de não ter estado presente.
Durante a apresentação, quando o fantasma fala com Hamlet no palco, Shakespeare olha para a plateia e seus olhos encontram os de Agnes. Naquele momento, ela entende que ele não escreveu a peça para o mundo: escreveu para o filho.
Então, o romance revela sua dimensão mais profunda. Hamlet passa a ser entendido como um gigantesco ritual de elaboração do luto. A peça inteira fala sobre perda, ausência, traição, culpa, raiva e desorganização emocional. Hamlet não sofre de maneira linear ou racional. Ele oscila entre fúria, melancolia, confusão, ressentimento e desejo de vingança, exatamente como ocorre nos processos reais de luto.
O livro sugere que a genialidade de Shakespeare tenha nascido dessa tentativa insuportável de conversar novamente com o filho morto. A arte torna-se uma forma de ressurreição simbólica.
No filme inspirado no livro, existe ainda uma cena final belíssima. Agnes e Shakespeare veem Hamlet caminhando em direção a uma porta, como se finalmente estivesse sendo libertado. Eles compreendem que o filho não está mais preso à dor deles. Pela primeira vez, os dois conseguem compartilhar verdadeiramente o sofrimento e entender que amaram e sofreram de maneiras diferentes, não menores.
O filho, então, desaparece, como se pudesse finalmente partir em paz. É uma cena profundamente espiritual, quase mediúnica, que transforma o luto em passagem e libertação.
Hamnet é, acima de tudo, uma obra sobre a permanência do amor após a morte. Maggie O’Farrell humaniza Shakespeare ao mostrar que talvez suas maiores criações tenham nascido não apenas da genialidade, mas também da culpa, da perda e da tentativa desesperada de não esquecer. O romance mostra que o luto não é organizado nem puro. Ele vem acompanhado de raiva, ressentimento, sensação de abandono, culpa e incompreensão. O mundo continua existindo enquanto a pessoa enlutada sente que tudo acabou. E talvez seja justamente disso que Hamlet sempre tenha falado: da impossibilidade de aceitar plenamente a morte de alguém que amamos.
Por Lucas Moreira Natrielli



Excelente e didática publicação sobre o luto, do livro Hamnet. Parabéns Lucas Moreira Natrielli.
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