Artista: Igor Morski
Fonte: https://yoomultimedia.com/igor-morski/
O desenvolvimento humano passa por diversas etapas bem definidas desde o momento da concepção, envolvendo todos os domínios embriológicos, gestacionais e, após o nascimento, a continuidade dos processos maturacionais de mielinização e estruturação cortical. Como um todo, o organismo irá se desenvolver através de fatores genéticos, epigenéticos e sua interação com o ambiente, sendo que este último contempla o ambiente uterino, saúde materna, cuidados dos pais, ambiente familiar e todas as dimensões da vida social de cada indivíduo. O conceito de Personalidade é um construto humano, resultado da capacidade cognitiva de observação dos fenômenos que nos acompanha desde nosso despertar como seres conscientes, como uma espécie que se utiliza da lógica e do pensamento criativo e abstrato para interpretar tudo que observamos no universo. Portanto, com o comportamento humano não foi diferente (KARTERUD & KONGERSLEV, 2019; NATRIELLI FILHO et al., 2013).
Nosso sistema nervoso central (SNC) é dotado de uma capacidade singular para distinguir padrões e estabelecer relações entre os diversos fenômenos observados (ABRAM & DE YOUNG, 2017). Foi assim desde o início, quando as primeiras classificações dos humores e temperamentos humanos apareceram. Desde então, definições sobre o que hoje concebemos como personalidade foram desenvolvidas e aperfeiçoadas.
A personalidade corresponde às nossas “ferramentas” para lidarmos com situações do ambiente (as pessoas, eventos da vida, grupos, família) e de nosso meio interno (como sentimentos, emoções, ideias, ações, impulsos, etc). Podemos incluir dentro dessas “ferramentas” nossas convicções a respeito do mundo e de nós mesmos, como enfrentamos as adversidades da vida, como elaboramos sentimentos de raiva, medo ou amor, como concebemos o universo, as religiões, as pessoas e as suas diferenças (KARTERUD & KONGERSLEV, 2019).
Para que esse nível de funcionamento da personalidade se complete, o desenvolvimento do indivíduo deve ocorrer de forma adaptativa e congruente com a sociedade e cultura onde está inserido.
Diversos fatores que influenciam o desenvolvimento, como fatores genéticos, familiares, escolares e ambientais em geral (incluindo influência de drogas ou eventos traumáticos), podem desencadear uma exacerbação de alguns traços da personalidade, tornando alguns indivíduos inflexíveis nos seus comportamentos, com dificuldades para se moldar às exigências do ambiente e sentimentos que levam a um vetor final de desadaptação. Consequentemente, apresentariam um sofrimento persistente e também àqueles com quem convivem (pais, filhos, cônjuge e amigos), além de desenvolver prejuízos acadêmicos e profissionais. Esses casos de comprometimento inflexível, crônico e desadaptativo de traços exacerbados da personalidade caracterizam os Transtornos da Personalidade (EKSELIUS, 2018).
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BREVE EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO CONCEITO
A primeira tipologia desenvolvida na história da medicina e da psicologia foi a resultante das concepções da escola hipocrática-galênica. Os escritos do médico Hipócrates de Cós (cerca de 460-377 a.C.) propunham a visão de que o corpo humano contém quatro humores essenciais: fleuma, bile amarela, bile negra e sangue - que eram secretados por diferentes órgãos, possuíam diferentes qualidades e variavam de acordo com as estações do ano. Nesse sentido, todas as questões médicas repousavam sobre a teoria dos quatro elementos do filósofo pré-socrático Empédocles (500-430 a.C.), a saber: água, terra, ar e fogo. O cérebro era considerado como sendo a sede da vida e seu funcionamento normal exigia um equilíbrio entre os humores. Os aspectos psicológicos mais característicos dos quatro temperamentos eram: sanguíneo, fleumático ou linfático, colérico ou bilioso e melancólico ou atrabiliário. Esta teria sido a primeira tentativa de explicar as diferenças de temperamentos e personalidades, dando início, portanto, a um incessante estudo de classificações, tipologias e teorias, que se prolonga até a atualidade (MELO, 1970; RUTTER, 1987; COLP, 1999; STONE, 1999; DALGALARRONDO, 2000; EKSELIUS, 2018).
Com o passar dos séculos, estudiosos deixaram suas contribuições para aquilo que iria se configurar como a personalidade humana. Apesar de padrões observados e um longo período histórico, a renascença psiquiátrica deu-se após o século XVIII. O conceito de transtorno da personalidade remonta ao século XIX, sendo que Pinel (1745-1826) descreveu o quadro de manie sans délire em 1809, cuja característica era o prejuízo das funções afetivas, particularmente instabilidade emocional e tendência dissocial, sem prejuízo da função intelectual e cognitiva. Tal concepção também aparece nos escritos de Esquirol sobre as "monomanias afetivas e instintivas", em 1838 (WANG et al., 1995; STONE, 1999; EKSELIUS, 2018).
Também no final do século XIX e início do século XX, psiquiatras franceses como Benedict-Augustin Morel (1809-1873) e Valentin Magnan (1835-1916) descreveram a hereditariedade como um importante fator no desenvolvimento das “doenças mentais” (atualmente usamos na nosologia psiquiátrica o termo “transtorno” no lugar de “doença”). Afirmaram que a predisposição poderia ativar-se lentamente e se transformar em uma doença pela transmissão repetitiva de pai para filho ou por ação de estímulos externos. O psiquiatra italiano Cesare Lombroso (1836-1909), em seus escritos "O Homem Delinquente" (1876) e "A Mulher Criminosa" (1893), postulava que os criminosos representavam um fenômeno de degeneração biológica que podia ser identificado com base na aparência (COLP, 1999; STONE, 1999).
Prichard (1835), apud Rutter (1987), apresentou a descrição da “insanidade moral”, generalizando a concepção de Pinel. Maudsley (1874) escreveu sobre a “privação congênita de senso moral” (WANG et al., 1995). O termo “psicopatia” foi introduzido por Koch em 1891, que afirmou que “até mesmo nos piores casos as irregularidades não seriam equivalentes a um distúrbio mental”, referindo-se a este último como os casos de “insanidade e idiotia”. Seu conceito de “inferioridades psicopáticas” envolvia a maioria das doenças mentais “não-psicóticas”, bem como o que atualmente chamamos de transtorno da personalidade ou psicopatia (KENDELL, 2002).
Kurt Schneider publicou, em 1923, a monografia “Personalidades Psicopáticas”, que ainda hoje é citada como guia para a compreensão do tema. Das personalidades anormais distinguiu como personalidades psicopáticas “aquelas que sofrem com sua anormalidade ou que assim fazem sofrer a sociedade. Ambas as espécies se cruzam. Cientificamente, o único conceito essencial é o de personalidade anormal no qual está incluído o conceito de personalidade psicopática” (SCHNEIDER, 1968).
Sigmund Freud, apud Hall et al. (2000), foi provavelmente o primeiro teórico a enfatizar os aspectos desenvolvimentais da personalidade e, em particular, o papel decisivo dos primeiros anos do período do bebê e da infância como formadores da estrutura de caráter básica da pessoa. Complementaram que, para Freud, a personalidade já estaria muito bem formada pelo final do quinto ano de vida e que o desenvolvimento subsequente era praticamente só a elaboração dessa estrutura básica. Observando seus pacientes, Freud chegou à conclusão de que suas explorações mentais os levariam de volta a experiências da infância inicial que pareciam decisivas para o desenvolvimento de uma neurose mais tarde na vida. Existem diversas escolas que estudaram o desenvolvimento da personalidade posteriormente a Sigmund Freud. As principais escolas psicanalíticas e da psicologia foram as que mais se destacaram no início e meados do século XX. Posteriormente, diversos autores como Melanie Klein, Eric Erikson, Jean Piaget, John Bowlby observaram processos comuns do desenvolvimento das crianças, desde o nascimento, e construíram modelos para diferenciar cada fase (PAPALIA & FELDMAN, 2013; NATRIELLI FILHO et al., 2008; ZIMERMAN, 1999).
Todas as fases foram e continuam sendo confirmadas através de estudos de neuroimagem que evidenciam os processos de mielinização e de amadurecimento do córtex cerebral (GOGTAY et al., 2004). Entretanto, com as modernas pesquisas neurocientíficas, sabemos que o desenvolvimento cerebral persiste após nosso primeiro quarto de século de vida e segue adiante, com diferentes capacidades de adaptação dependendo da idade e dos eventos traumáticos e estressores singulares a cada indivíduo.
Alexander Thomas e Stella Chess iniciaram no início da década de 1950 um estudo do comportamento em crianças, chamado New York Longitudinal Study (THOMAS & CHESS, 1957). Observaram mais de cem famílias expectantes e iniciaram um estudo em longo prazo dos comportamentos das crianças e da relação família-criança. Da observação, derivaram nove dimensões que representavam as diferentes formas que as crianças apresentavam para reagir aos eventos vitais. Relataram comportamentos que (traduzidos didaticamente) refletiriam dimensões como atividade, ritmicidade, primeira reação (aproximação ou afastamento), adaptação, intensidade da reação, humor, distraibilidade, persistência e limiar de responsividade (CHESS et al., 1960).
Para este trabalho, apresento dois principais modelos de avaliação do temperamento, do caráter e dos traços da personalidade (definições que veremos mais adiante): Modelo do Temperamento e Caráter de Cloninger e Modelo dos Cinco Fatores da Personalidade (do inglês, “Big Five”). Estes construtos são derivados de escalas, com questões sobre as percepções do indivíduo sobre si mesmo, sobre o ambiente e sua relação com o mundo e a sociedade. Cada modelo possui sua base conceitual bem fundamentada na literatura, com significativo valor heurístico para a pesquisa no campo da personalidade (CLONINGER, 1987; CLONINGER et al., 1993; CLONINGER & SVRAKIC, 1997; CLONINGER, 1998; FUENTES et al., 2000; MCCRAE & DA COSTA, 1985; MCCRAE & DA COSTA, 1987; MCCRAE & JOHN, 1992).
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| Artista: Kenne Grégoire Fonte: https://parksungwoong.tistory.com/20819 |
SOBRE O QUE ESTAMOS FALANDO
Atualmente, pensa-se que a personalidade se desenvolve através da interação de disposições hereditárias, ou genéticas, influências epigenéticas e ambientais. Para descrevê-la de forma didática, a maioria dos pesquisadores concordam que a personalidade consiste de temperamento, caráter e inteligência (NATRIELLI FILHO, 2002; NATRIELLI FILHO et al., 2008; ROY et al., 2015).
Resumidamente, o temperamento reflete as contribuições biológicas e o caráter reflete as contribuições culturais e sociais para a personalidade. A inteligência influencia tanto os traços constitucional e social e modifica as funções da personalidade em sua totalidade (ROY et al., 2015). Ainda de forma resumida, as funções básicas da personalidade são: sentir, pensar, perceber e incorporar estes em comportamentos intencionais (MELO, 1970; CLONINGER et al., 2000).
Para Theodore Millon, um estudioso deste campo da psicologia, a personalidade consiste de "modos de funcionamento psicológico interiorizados pelo indivíduo, disseminados por todas as suas funções psíquicas, resistentes ao tempo e habituais, sendo que caracterizam o estilo de ser de qualquer pessoa" (MILLON, 1979).
Ainda, nas palavras de Theodore Millon, “dada uma continuidade no equipamento biológico básico, e uma faixa estreita de experiências para aprender alternativas comportamentais, a criança desenvolve um padrão distintivo de características que estão fortemente enraizadas, não podem ser facilmente erradicadas e penetram em cada faceta de seu funcionamento. Em resumo, estas características são a essência e a soma da sua personalidade, sua maneira automática de perceber, sentir, pensar e comportar-se” (MILLON, 1979).
Quais seriam as funções de uma Personalidade saudável? Ou de uma Personalidade adaptada? Insisto em não usar termos como “normal” e “normalidade”, pois, como descrito nesta publicação, os fatores ambientais que fomentam uma personalidade podem variar entre as culturas, dificultando, como em todas as áreas da medicina, o estabelecimento de critérios de normalidade. Assim sendo, a adaptação e a transmissão dos legados genéticos, epigenéticos e culturais seriam também funções deste conceito (LIMA & VALLADA FILHO, 2011). Seguem as características que comporiam uma personalidade saudável e adaptada:
1)Adaptação ao meio através de emoções básicas e complexas: necessária para a evolução de qualquer espécie e para a sua manutenção e estabilidade (LEDOUX, 2012).
2)Sobrevivência: seria uma resultante da adaptação, mas importantíssima para qualquer indivíduo (LEDOUX, 2012).
3)Administração de desejos e fantasias: cabe às funções psíquicas que compõem uma personalidade saudável a realização ou não dos desejos, pulsões e fantasias, utilizando-se como referencial os valores do indivíduo e da sociedade à qual pertence (DALGALARRONDO, 2008).
4)Motivação para a realização das aspirações e necessidades da pessoa: sem energia, disposição e direcionamento, ninguém consegue se direcionar para uma ação (DAMÁSIO, 2018).
5)Tentativa incessante de manter o equilíbrio psíquico e somático: apesar de lembrar os tópicos de adaptação e sobrevivência, neste caso valoriza-se a dinâmica interna que, como descrito anteriormente, deve ser uma resultante de satisfação individual agregada e congruente ao meio em que vive (DAMÁSIO, 2018).
6)Tornar-se um sistema estável e que se desenvolva através de um processo de retroalimentação: assim, a personalidade saudável aprende com a experiência, usa a inteligência e as emoções de forma conjugada para reaplicar os conhecimentos e experiências adquiridos, num ciclo contínuo e interminável (HARRIS et al., 2016; MAJOR et al., 2014).
7)Adquirir insight daquilo que sente e faz: nada deve ser mecânico, o aprendizado, sua utilização, as experiências, todos devem resultar numa percepção integrada, mesmo que subjetiva, mas ricamente elaborada e criativa (NATRIELLI FILHO et al., 2015).
8)Atingir o pleno desenvolvimento cognitivo: ao contrário do que se pensava anteriormente, nossas capacidades intelectuais e cognitivas (neste caso, a memória, atenção, concentração, raciocínio lógico, criatividade, capacidade de abstração e simbolização) vão muito além de certo limite de idade, nosso cérebro é “plástico” e com potenciais ilimitados (PAPALIA & FELDMAN, 2013).
9)Integrar e coordenar a inteligência às funções afetivas e reações emocionais: a resultante seria um sistema de modulação contínua, onde o papel de cada função psíquica (por exemplo, emoção e inteligência) seria continuamente "pesado" para a tomada de decisões e a realização de escolhas (ROY et al., 2015; HARRIS et al., 2016; MAJOR et al., 2014).
10)Equilibrar as funções do caráter às disposições inatas e herdadas do temperamento: uma personalidade saudável e com um resultado positivo para a pessoa deve se caracterizar por um desenvolvimento do caráter, ou seja, de novos conceitos sobre o mundo e de emoções mais maduras, a fim de neutralizar as dimensões extremas do temperamento e suas emoções básicas de medo e raiva (KARTERUD & KONGERSLEV, 2019; NATRIELLI FILHO, 2002).
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TEMPERAMENTO, CARÁTER E TRAÇOS DA PERSONALIDADE
Henry Gustav Molaison, ou simplesmente “HM”, foi um dos pacientes mais estudados em neurociência. Talvez o mais estudado. Faleceu em 2008. O estudo do seu quadro clínico proporcionou a fundamentação de diversos conceitos modernos sobre a memória, o aprendizado e a personalidade (SCHOTTEN et al., 2015; SQUIRE, 2009; XIA, 2006) .
Os conceitos derivados do estudo de HM proporcionaram o reconhecimento de dois tipos de memórias, associadas a diferentes regiões cerebrais e que corresponderiam àquilo que até agora os autores chamam de Temperamento e Caráter, componentes da personalidade (NATRIELLI, 2002; NATRIELLI FILHO et al., 2008).
HM nasceu em 26 de Fevereiro de 1926 em Hartford, Connecticut, Estados Unidos. Por volta dos sete anos de idade foi atingido por uma bicicleta e, após sua recuperação do trauma, começou a apresentar crises convulsivas epilépticas aos dez anos de idade. Quando adulto, trabalhou por um tempo numa empresa de linha de montagem, porém, em 1953, aos 27 anos, devido às suas crises convulsivas, já estava praticamente incapacitado para o trabalho ou até mesmo para ter uma vida normal, mesmo com altas dosagens de anticonvulsivantes (SQUIRE, 2009; XIA, 2006).
Foi encaminhado para se tratar com o Dr. William Beecher Scoville, um neurocirurgião do Hospital de Hartford, o qual propôs a HM um procedimento experimental que ele já havia realizado previamente em pacientes com transtornos psicóticos. Em 25 de Agosto de 1953 o Dr. Scoville removeu bilateralmente os lobos temporais mediais de seu paciente HM, privando-o de seu hipocampo e de algumas estruturas cerebrais adjacentes. O resultado foi um sucesso no controle da epilepsia, mas HM permaneceu com um importante prejuízo na memória. Em 1955, Scoville ligou para Wilder Penfield (o mesmo do ‘homúnculo de Penfield’) e contou-lhe sobre seus resultados pós-operatórios. Como resultado desta conversa, uma pesquisadora chamada Brenda Milner, que havia estudado dois pacientes de Penfield, foi enviada para estudar HM (SQUIRE, 2009; XIA, 2006).
Em seus estudos, Brenda Milner realizou uma notável descoberta. Observou que o lobo temporal e o hipocampo medeiam o que hoje chamamos de Memória Declarativa (ou explícita), um tipo de memória consciente para pessoas, objetos e lugares (NATRIELLI FILHO, 2002; NATRIELLI FILHO et al., 2008; SQUIRE, 2009; XIA, 2006).
Em 1962, esta autora realizou uma segunda descoberta ao observar que apesar de HM não apresentar nenhum armazenamento de novas memórias para pessoas, lugares e objetos, ele era completamente capaz de aprender novas habilidades perceptuais e motoras, o que definiu como um tipo de Memória Procedural (ou implícita) – completamente inconsciente e evidente somente através da performance ou desempenho (do que através de recordação ou evocação consciente) (SQUIRE, 2009; XIA, 2006).
Importante salientar a origem dos conceitos neurobiológicos envolvendo a personalidade (ABRAM & DE YOUNG, 2017). Estão embasados em estudos neurofuncionais e ocorrem de forma dinâmica. Estão aqui separados de forma didática. Utilizar-se dos dois sistemas de memória é a regra, elas se entrelaçam e são geralmente utilizadas juntamente, já que várias experiências de aprendizagem acabam recrutando as duas. É interessante mencionar que a repetição constante pode transformar a memória declarativa no tipo procedural.
Portanto, conforme reforçou Dalgalarrondo (2008), “(...) Memória declarativa diz respeito a fatos, eventos e conhecimentos que são memorizados, sendo possível, inclusive, declarar verbalmente de que forma foram memorizados. A memória declarativa é sempre explícita (plenamente consciente) e diz respeito, com mais frequência, a eventos autobiográficos e conhecimentos gerais. A memória não-declarativa [ou procedural] refere-se a hábitos e capacidades, em geral motores, sensoriais, sensório-motores ou eventualmente linguísticos (como nadar, andar de bicicleta, tocar violão, soletrar), sobre os quais é difícil declarar como são lembrados”.
Nesse sentido, Temperamento e Caráter são conceituados com base em dois tipos de memória e aprendizado: Procedural e Declarativo (NATRIELLI FILHO, 2002; NATRIELLI FILHO et al., 2008).
O temperamento (ou o “core emocional” da personalidade) abrange a memória procedural, que é regulada pelo sistema córticoestriatolímbico, primariamente as áreas corticais sensoriais, amígdala, o caudado e o putâmen. A memória procedural está por trás do aprendizado associativo e envolve o processamento perceptual pré-semântico de informação visuoespacial e de conteúdo afetivo. Assim, o temperamento é definido como tendências emocionais e de aprendizado herdadas, as quais são a base para a aquisição de hábitos de comportamentos automáticos, observáveis precocemente e que são relativamente estáveis durante o período da vida do indivíduo (REISS, 1997; CLONINGER et al., 1997).
O caráter refere-se ao aprendizado declarativo, que abrange as funções cognitivas maiores da abstração e simbolização. Em contraste ao temperamento, que é principalmente herdado, o caráter é moderadamente influenciado pelo aprendizado social, pela cultura e eventos aleatórios da vida únicos ao indivíduo. O caráter (ou o “núcleo conceitual da personalidade”) abrange funções cognitivas maiores reguladas pelo hipocampo e neocórtex (ou seja, abstração e interpretação simbólica, lógica analítica e indutiva). Essas funções (também chamadas de memória declarativa) são críticas para o processamento cognitivo das percepções sensoriais e dos afetos regulados pelo temperamento, levando ao desenvolvimento de conceitos sobre o self e o mundo externo (NATRIELLI FILHO, 2002; NATRIELLI FILHO et al., 2008).
Esses dois sistemas de memória e aprendizado podem ser separados clinicamente. Por exemplo, indivíduos com doença de Parkinson, caracterizada por acometimento nigroestriatal, exibem déficits no aprendizado procedural, mas não no declarativo. Em contraste, pacientes com síndrome amnéstica, caracterizada por lesões no lobo temporal medial, apresentam déficits no aprendizado declarativo, mas não no procedural, como observado no paciente HM (CLONINGER et al., 1993; CLONINGER & SVRAKIC, 1997; CLONINGER, 1998; CLONINGER & SVRAKIC, 2000; SVRAKIC & CLONINGER, 2005).
Diversos modelos foram propostos sobre a possibilidade de “mensurar” características da personalidade humana e classifica-las de forma que houvesse um padrão que pudesse guiar nosso conhecimento sobre as características e diferenças entre as pessoas, mesmo que em diferentes culturas. Conforme mencionado anteriormente, os Modelos de Cloninger (FUENTES et al., 2000) e dos Cinco Fatores da Personalidade (“Big Five”) (MCCRAE & DA COSTA, 1985; MCCRAE & DA COSTA, 1987; MCCRAE & JOHN, 1992) são dois dos principais paradigmas das pesquisas sobre o assunto. Certamente existem muitos outros construtos psicométricos que enfatizam fatores da personalidade, mas não é o foco deste trabalho detalhar cada escola em particular.
C. Robert Cloninger e colaboradores iniciaram em 1987 estudos sobre a personalidade e seus fatores, sugerindo a aplicação de um modelo tridimensional. Em 1993, Cloninger e colaboradores descreveram o Modelo Psicobiológico de estrutura e desenvolvimento da personalidade. Cloninger, em 1987, esboçou três dimensões de temperamento independentes e hereditárias, cada uma associada com a atividade de um neurotransmissor. Comportamento Exploratório (Busca de Novidades) estava associado com baixa atividade dopaminérgica basal, comportamento de Esquiva (Esquiva ao Dano), com alta atividade serotoninérgica e comportamento de dependência por gratificação (Dependência por Recompensa), com baixa atividade noradrenérgica basal. Essas tendências foram usadas para discriminar muitos (embora não todos) transtornos da personalidade. A Persistência emergiu como uma quarta dimensão herdada, com distintas correlações psicobiológicas, e três dimensões do caráter foram distinguidas daquelas do temperamento. As dimensões do Caráter descritas posteriormente por Cloninger foram: Autodirecionamento, Cooperatividade e Autotranscendência. Portanto, o conceito de Caráter nos leva a capacidade máxima de desenvolvimento e adaptação cognitiva de um indivíduo (RUTTER, 1987; JOFFE et al., 1993; GOLDMAN et al., 1994; JUCKEL et al., 1995; STALLINGS et al., 1996; STONE, 1999; CLONINGER, 1987; CLONINGER et al., 1993).
Um dos modelos mais bem estabelecidos no estudo da personalidade é o Modelo dos Cinco Fatores, ou “Big Five” (PASSOS & LAROS, 2014; NEWTON-HOWES et al., 2015; ABRAM & DE YOUNG, 2017). Este modelo, descrito inicialmente por McCrae e Costa (1985 e 1987), divide a Personalidade em Cinco grandes dimensões, que são:
*Neuroticismo ou Instabilidade Emocional (do inglês, neuroticism): que se refere ao nível de ajustamento emocional e instabilidade emocional. Traços comuns associados com este fator incluem estar ansioso, deprimido, irritado, envergonhado, preocupado e inseguro.
*Extroversão (do inglês, extraversion): traços frequentemente associados incluem ser sociável, gregário, assertivo e comunicativo. Esta dimensão pode ser ainda interpretada subdividindo-a em dois componentes: ambição (iniciativa, ambição e ímpeto) e sociabilidade (sociável, exibicionistas e expressivos).
*Conscienciosidade ou Escrupulosidade (do inglês, conscientiousness): reflete confiabilidade, estar atento, profundo, responsável, organizado e engenhoso. Outros ainda sugeriram que essa dimensão abriga variáveis volitivas, como ser trabalhador e perseverante.
*Cordialidade ou Amabilidade (do inglês, agreeableness): traços associados com esta dimensão incluem ser cortês, flexível, confiante, bem-humorado, cooperativo e tolerante.
*Abertura (do inglês, openness to experience): traços comumente associados com esta dimensão incluem ser imaginativo, culto, curioso, original, artisticamente sensível, aberto a novas experiências e inteligente. É classicamente o traço mais relacionado com o desenvolvimento da inteligência no indivíduo.
Na Seção III do DSM-5, a qual trata do “Modelo Alternativo para os Transtornos da Personalidade”, a ideia de expandir critérios para o diagnóstico dos transtornos da personalidade provém das dificuldades encontradas com o modelo categorial, muitas vezes rotulado como método de "contagem de sintomas". Nesta abordagem do manual americano, que tentaria se aproximar do modelo dimensional da personalidade, o DSM-5 propõe uma forma de diagnóstico baseada no Modelo dos Cinco Fatores da Personalidade.
Existem outras justificativas para este capítulo alternativo do manual americano, as quais estão relacionadas à nosologia em psiquiatria bem como as consequências da sua aplicação prática. Qualquer psiquiatra clínico ou profissional da saúde mental está familiarizado com as dificuldades para "fechar" o diagnóstico em alguns pacientes. Não são poucos pacientes. Muitas vezes, a psicopatologia transita por mais de um Transtorno da Personalidade ou não se enquadra em nenhum específico. Curiosamente, sabemos que o indivíduo possui um transtorno do desenvolvimento da sua personalidade, mas não se enquadra em nenhum especificamente.
A definição de Traço no DSM-5 é: "uma tendência de sentir, perceber, comportar-se e pensar de formas relativamente consistentes ao longo do tempo e nas situações em que o traço pode se manifestar". Por esta definição, o Traço emergiria como o vetor final da dinâmica entre Temperamento e Caráter. Por outro lado, os Traços possuem diversos Domínios e Facetas, tornando-os complexos e com uma nomenclatura própria. Portanto, da dinâmica intrínseca e contínua entre Temperamento e Caráter, surgem os Traços com suas divisões e variações.
Dos Traços da personalidade no DSM-5, cada Domínio possui seu polo oposto e adaptativo vinculado. Abaixo, descrevo os Domínios do polo negativo, os quais servem de referência para seus respectivos polos positivos (APA, 2014; NEWTON-HOWES et al., 2015):
1)Afetividade Negativa versus Estabilidade Emocional:
*Afetividade Negativa: ansiedade, tristeza, labilidade, insegurança, preocupação excessiva, raiva, hostilidade e agressividade.
2)Distanciamento versus Extroversão:
*Distanciamento: retraimento, esquiva de intimidade, anedonia, distanciamento afetivo e desconfiança.
3)Antagonismo versus Afabilidade:
*Antagonismo: manipulação, desonestidade, grandiosidade, busca de atenção, falta de empatia e hostilidade.
4)Desinibição versus Meticulosidade:
*Desinibição: irresponsabilidade, impulsividade, distratibilidade, exposição a riscos e indisciplina.
5)Psicoticismo versus Lucidez:
*Psicoticismo: crenças e experiências incomuns, excentricidade, desregulação cognitiva e perceptual.
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| Artista: Edward Hopper Fonte: https://blogdoblah.wordpress.com/2013/06/18/edward-hopper/ |
TRANSTORNOS DA PERSONALIDADE
A importância dos modelos descritos anteriormente está no fato deles conseguirem mensurar características nucleares dos conceitos que irão fundamentar a personalidade: temperamento, caráter e traços. Destes três fatores, temperamento e traços são os mais utilizados. O caráter, em função de sua relação com fatores culturais e por sofrer maior influência de variáveis ambientais, não se mostrou consistente quando avaliado de forma longitudinal.
Um exemplo da importância do temperamento e dos traços está nas pesquisas que evidenciam temperamento de busca de novidades em determinados transtornos da personalidade e traços de neuroticismo em outros.
Segundo o DSM-5:
“Os traços de personalidade constituem transtornos da personalidade somente quando são inflexíveis e mal-adaptativos e causam prejuízo funcional ou sofrimento subjetivo significativos. O aspecto essencial de um transtorno da personalidade é um padrão persistente de experiência interna e comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo e que se manifesta em pelo menos duas das seguintes áreas: cognição, afetividade, funcionamento interpessoal ou controle de impulsos (Critério A). Esse padrão persistente é inflexível e abrange uma ampla faixa de situações pessoais e sociais (Critério B), provocando sofrimento clinicamente significativo e prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo (Critério C). O padrão é estável e de longa duração, e seu surgimento ocorre pelo menos a partir da adolescência ou do início da fase adulta (Critério D). O padrão não é mais bem explicado como uma manifestação ou consequência de outro transtorno mental (Critério E) e não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex., droga de abuso, medicamento, exposição a uma toxina) ou a outra condição médica (p. ex., traumatismo crânioencefálico) (Critério F)”.
Da mesma forma que os traços, o temperamento do indivíduo pode lhe conferir uma maior vulnerabilidade para o desenvolvimento de um transtorno da personalidade dependendo dos fatores de risco e protetores durante o seu desenvolvimento. Sabemos que determinados temperamentos e traços, quando associados a situações traumáticas precoces, como abuso, violência ou negligência, podem favorecer um diagnóstico futuro de transtorno da personalidade.
O DSM-5 agrega os transtornos da personalidade dentro de três Grupos, cada um compartilhando algumas características clínicas: o Grupo A inclui três transtornos com características excêntricas e de distanciamento afetivo; o Grupo B inclui quatro transtornos que compartilham características dramáticas, impulsivas e erráticas; o Grupo C agrega três transtornos que compartilham características fóbicas e ansiosas (SVRAKIC & CLONINGER, 2005; SVRAKIC et al., 1993).
Abaixo, seguem os Grupos (ou Clusters) de Transtornos da Personalidade conforme o DSM-5, o quais serão descritos em detalhes no capítulo “Os Transtornos da Personalidade: Clusters”:
Grupo A: transtornos da personalidade paranoide, esquizoide e esquizotípica.
Grupo B: transtornos da personalidade antissocial, borderline, histriônica e narcisista.
Grupo C: transtornos da personalidade evitativa, dependente e obsessivo-compulsiva.
Assim, na prática clínica cotidiana, pessoas que pensam, sentem, comportam-se, ou se relacionam com os outros de forma diferente da sua cultura, são facilmente identificados. Este “desvio da norma social” é uma característica central em todos os transtornos da personalidade (EKSELIUS, 2018).
A busca pelo “diagnóstico perfeito” é a incessante epopeia de todo clínico, para que assim consiga instituir o tratamento mais adequado. Em psiquiatria ou no campo da saúde mental, os sintomas ou fenômenos observados para a realização do diagnóstico envolvem o comportamento humano e a subjetividade. Nada menos palpável que a subjetividade. Em algum momento, tudo se torna pessoal, em maior ou menor grau, dependendo das habilidades do profissional.
REFERÊNCIAS
ABRAM SV, DE YOUNG SG. Using Personality Neuroscience to Study Personality Disorders. Personality Disorders: Theory, Research, and Treatment. 2017; 8(1):2–13.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
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Excelente Trabalho.Sempre acrescentando conhecimento ,competência e bibliografia
ResponderExcluirExcelente Trabalho Atualizado.
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